sexta-feira, 24 de agosto de 2018

fuga






sabe querida, eu queria estar do lado da sua vertigem. do lado de dentro da vertigem que diz que sente. e quando viesse a noite, ficar assim ao seu lado e não querer que os olhos se fechem.
e a mulher calada, foge, foge, foge, sufocada.








terça-feira, 21 de agosto de 2018

sem espanto






eu não sei bem como foi, apenas sei que foi assim de repente que percebi que ele me faltava no momento da partilha de mim. era ele quem me aceitava do avesso sem espanto. apenas ele. todo o meu absurdo, todo o meu lado mudo, toda a minha parolice, toda a minha nudez, toda a minha terra, toda eu em comunhão com os elementos, feiticeira, mãe, mulher, desejo, sangue, ignorância toda eu, indignação, raiva, medo, coragem, solidão, leviandade, carne e espírito. apenas ele, sem espanto. 
é nisso que ele me falta. e quando me falta, também eu me falto.









sexta-feira, 17 de agosto de 2018

memória









estás presa numa memória...
ouço a mulher dizer à outra que fala de um sentimento de solidão que não sabe explicar.
eu sei. mas não é desta encarnação.
responde-lhe.
senti-o quando estive na Batalha.
murmura, falando mais para se ouvir do que para a outra ouvir. como se falando naquele sentir, conseguisse recuperar uns segundos daquele viver
é um sentimento de perda. perdeste alguém que era militar.
eu sei.
continua. 
[há tanto tempo que sei. há tanto tempo que espero.]
parece que a ouço por dentro. como se aquele falar a ajudasse a dizer adeus. finalmente.









terça-feira, 14 de agosto de 2018

ela





sabe...
começa ela. e eu sei que aquele
sabe...
é a forma de ela articular as palavras para o que quer dizer, e sorrio.
sabe...é aprender a confiança, aquilo a que alguns chamam fé. é isso que ando a aprender. confiar que tudo o que vem, vem por bem. mesmo que eu não o entenda.
aceitar que eu possa ser aprendiz, mas também lição. e é tão mais doloroso ser lição... sabe, pudesse eu sentir sempre a alegria daquele que aprende...






segunda-feira, 13 de agosto de 2018

dos dias








depois de mais de um mês a dormir na posição de bacalhau seco, percebi a delícia que é poder dormir deitada de lado. primeiro foi sobre o meu lado direito, depois, consegui dormir sobre o lado esquerdo, a medo, mas consegui. o peso na consciência por ter deixado a posição recomendada faz-me acordar de cada vez que sinto que vou mudar a postura, isto é, de hora a hora. os sonhos também estão a regressar. hoje acordei a chamar desesperadamente por alguém. talvez um dia destes volte também a vontade de escrever e de passear à beira-mar. o cheiro a maresia voltou a trazer-me saudades da água salgada que pousava nos lábios dele e do verde-alga que eu guardava nos meus olhos, para ele, também [esta estranha necessidade de nos prolongarmos no outro].
...
amélia partiu deixando-me a esperança de que poderá regressar se eu precisar de reavivar os seus ensinamentos. agora chegou samanta, toda ela voluptuosidade e transformação. como que abrindo caminho para ela entrar, amélia bem me tinha dito que a perda não é perca, mas sim transformação.








domingo, 12 de agosto de 2018

férias










às vezes a melhor forma de caminhar, é ficar parado, e ver, e acalmar, e olhar para dentro.
diz o homem-terra, sentado no chão, com o seu corpo todo, largo, pesado, a lembrar uma montanha, querendo fundir-se com a terra.











sexta-feira, 10 de agosto de 2018
























quarta-feira, 8 de agosto de 2018

ele trata-me muito bem








ele trata-me muito bem, como nunca ninguém me tratou. é de uma delicadeza, um cuidado...
conta-me a mulher.
desde então, o que a mulher me disse, ecoa constantemente, ora no meu coração, ora na minha cabeça, querendo recusar aquele argumento como motivo para manter um relacionamento. mas,
ele trata-me muito bem...
diz ela, deixando-se envolver naquele bem tratar, como um passarinho recém-nascido na penugem de um ninho, como viajante cansado que desiste do destino, como barco encalhado em enseada, como rendição, até.
como nunca ninguém me tratou...
e eu aqui, nascida para ancorar em impossíveis, penso na mulher que repousa o seu cansaço naquele carinho
acha que não merece todos os cuidados do mundo?
respondeu ele quando ela lhe disse que não precisava de sair do carro para lhe abrir a porta. 
e ela quis acreditar que sim.











terça-feira, 7 de agosto de 2018

o homem









deve ser uma vez por mês que o homem me envia a mensagem
tem disponibilidade para reiki?
e eu tenho. normalmente tenho. é para mim uma espécie de sacerdócio.
o homem não acredita em nada
o corpo morre
diz ele
e acabou. ficam apenas as memórias que deixamos nos outros, até que acabem, também...
sabe que não somos só corpo
vou-lhe dizendo eu
somos um todo. terra, corpo, espírito, divino...
o homem, que vem até mim quando está em ansiedade, porque diz que lhe faz bem
fico calmo durante uns tempos
justifica, sem largar o seu cepticismo
então diga-me
desafio eu
o que acha que se passa aqui, durante a sessão, se eu nem toco em si. o que o faz sentir bem, se eu não faço nada?






segunda-feira, 6 de agosto de 2018

sossego









o que me incomoda,
confessa-me a mulher
é que a saudade que sinto dele, cobre-me o corpo todo durante o dia todo, despertando sensações que eu já tinha esquecido
eu ouço-a com uma ponta de inveja, esse pecado capital, a aflorar-me os sentimentos
mas isso é bom, é vida...
digo-lhe
não. tropeço no desejo a toda a hora. é um burburinho de corpo que não me larga
tento imaginar o desassossego e acabo por pedir às minhas hormonas que se mantenham sossegadas.