sexta-feira, 17 de agosto de 2018

memória









estás presa numa memória...
ouço a mulher dizer à outra que fala de um sentimento de solidão que não sabe explicar.
eu sei. mas não é desta encarnação.
responde-lhe.
senti-o quando estive na Batalha.
murmura, falando mais para se ouvir do que para a outra ouvir. como se falando naquele sentir, conseguisse recuperar uns segundos daquele viver
é um sentimento de perda. perdeste alguém que era militar.
eu sei.
continua. 
[há tanto tempo que sei. há tanto tempo que espero.]
parece que a ouço por dentro. como se aquele falar a ajudasse a dizer adeus. finalmente.









terça-feira, 14 de agosto de 2018

ela





sabe...
começa ela. e eu sei que aquele
sabe...
é a forma de ela articular as palavras para o que quer dizer, e sorrio.
sabe...é aprender a confiança, aquilo a que alguns chamam fé. é isso que ando a aprender. confiar que tudo o que vem, vem por bem. mesmo que eu não o entenda.
aceitar que eu possa ser aprendiz, mas também lição. e é tão mais doloroso ser lição... sabe, pudesse eu sentir sempre a alegria daquele que aprende...






segunda-feira, 13 de agosto de 2018

dos dias








depois de mais de um mês a dormir na posição de bacalhau seco, percebi a delícia que é poder dormir deitada de lado. primeiro foi sobre o meu lado direito, depois, consegui dormir sobre o lado esquerdo, a medo, mas consegui. o peso na consciência por ter deixado a posição recomendada faz-me acordar de cada vez que sinto que vou mudar a postura, isto é, de hora a hora. os sonhos também estão a regressar. hoje acordei a chamar desesperadamente por alguém. talvez um dia destes volte também a vontade de escrever e de passear à beira-mar. o cheiro a maresia voltou a trazer-me saudades da água salgada que pousava nos lábios dele e do verde-alga que eu guardava nos meus olhos, para ele, também [esta estranha necessidade de nos prolongarmos no outro].
...
amélia partiu deixando-me a esperança de que poderá regressar se eu precisar de reavivar os seus ensinamentos. agora chegou samanta, toda ela voluptuosidade e transformação. como que abrindo caminho para ela entrar, amélia bem me tinha dito que a perda não é perca, mas sim transformação.








domingo, 12 de agosto de 2018

férias










às vezes a melhor forma de caminhar, é ficar parado, e ver, e acalmar, e olhar para dentro.
diz o homem-terra, sentado no chão, com o seu corpo todo, largo, pesado, a lembrar uma montanha, querendo fundir-se com a terra.











sexta-feira, 10 de agosto de 2018
























quarta-feira, 8 de agosto de 2018

ele trata-me muito bem








ele trata-me muito bem, como nunca ninguém me tratou. é de uma delicadeza, um cuidado...
conta-me a mulher.
desde então, o que a mulher me disse, ecoa constantemente, ora no meu coração, ora na minha cabeça, querendo recusar aquele argumento como motivo para manter um relacionamento. mas,
ele trata-me muito bem...
diz ela, deixando-se envolver naquele bem tratar, como um passarinho recém-nascido na penugem de um ninho, como viajante cansado que desiste do destino, como barco encalhado em enseada, como rendição, até.
como nunca ninguém me tratou...
e eu aqui, nascida para ancorar em impossíveis, penso na mulher que repousa o seu cansaço naquele carinho
acha que não merece todos os cuidados do mundo?
respondeu ele quando ela lhe disse que não precisava de sair do carro para lhe abrir a porta. 
e ela quis acreditar que sim.











terça-feira, 7 de agosto de 2018

o homem









deve ser uma vez por mês que o homem me envia a mensagem
tem disponibilidade para reiki?
e eu tenho. normalmente tenho. é para mim uma espécie de sacerdócio.
o homem não acredita em nada
o corpo morre
diz ele
e acabou. ficam apenas as memórias que deixamos nos outros, até que acabem, também...
sabe que não somos só corpo
vou-lhe dizendo eu
somos um todo. terra, corpo, espírito, divino...
o homem, que vem até mim quando está em ansiedade, porque diz que lhe faz bem
fico calmo durante uns tempos
justifica, sem largar o seu cepticismo
então diga-me
desafio eu
o que acha que se passa aqui, durante a sessão, se eu nem toco em si. o que o faz sentir bem, se eu não faço nada?






segunda-feira, 6 de agosto de 2018

sossego









o que me incomoda,
confessa-me a mulher
é que a saudade que sinto dele, cobre-me o corpo todo durante o dia todo, despertando sensações que eu já tinha esquecido
eu ouço-a com uma ponta de inveja, esse pecado capital, a aflorar-me os sentimentos
mas isso é bom, é vida...
digo-lhe
não. tropeço no desejo a toda a hora. é um burburinho de corpo que não me larga
tento imaginar o desassossego e acabo por pedir às minhas hormonas que se mantenham sossegadas.








domingo, 5 de agosto de 2018

roda







estamos todos suados
lamentam um a um, enquanto eu ouço, dentro do meu coração, a minha avó corrigir 
transpiram! suar, suam as bestas...
não me importo, eu gosto de ti de qualquer maneira
respondo, um a um, abraçando demoradamente aqueles corpos vestidos com t-shirts molhadas, aqueles braços pegajosos do calor, aqueles rostos que escorrem água de dentro
gosto tanto de ti!
sussurro à mulher que procura por si
fazes-me tanta falta!
digo invariavelmente ao homem-terra
queria tanto ter-te mais perto!
murmuro à mulher cristalina
obrigada por tudo
reparto por eles todos, espelhos de mim, com quem partilho dores e alegrias, progressos e retrocessos.







sábado, 4 de agosto de 2018

perda






antes de partir amélia diz-me que para deixar correr a meu favor o fluxo da abundância, não posso temer a perda. o temor estrangula como um dique a um curso de água.
a perda não é perca, é transformação, é crescimento.
diz-me ela, no que me parece um prenúncio de partida. 
no meu peito ainda balbucia um 
não te vás ainda
que não chega a ser verbalizado.
a perda não é perca, é transformação
recordo, silenciosamente