sexta-feira, 10 de agosto de 2018
quarta-feira, 8 de agosto de 2018
ele trata-me muito bem
conta-me a mulher.
desde então, o que a mulher me disse, ecoa constantemente, ora no meu coração, ora na minha cabeça, querendo recusar aquele argumento como motivo para manter um relacionamento. mas,
ele trata-me muito bem...
diz ela, deixando-se envolver naquele bem tratar, como um passarinho recém-nascido na penugem de um ninho, como viajante cansado que desiste do destino, como barco encalhado em enseada, como rendição, até.
como nunca ninguém me tratou...
e eu aqui, nascida para ancorar em impossíveis, penso na mulher que repousa o seu cansaço naquele carinho
acha que não merece todos os cuidados do mundo?
respondeu ele quando ela lhe disse que não precisava de sair do carro para lhe abrir a porta.
e ela quis acreditar que sim.
terça-feira, 7 de agosto de 2018
o homem
tem disponibilidade para reiki?
e eu tenho. normalmente tenho. é para mim uma espécie de sacerdócio.
o homem não acredita em nada
o corpo morre
diz ele
e acabou. ficam apenas as memórias que deixamos nos outros, até que acabem, também...
sabe que não somos só corpo
vou-lhe dizendo eu
somos um todo. terra, corpo, espírito, divino...
o homem, que vem até mim quando está em ansiedade, porque diz que lhe faz bem
fico calmo durante uns tempos
justifica, sem largar o seu cepticismo
então diga-me
desafio eu
o que acha que se passa aqui, durante a sessão, se eu nem toco em si. o que o faz sentir bem, se eu não faço nada?
segunda-feira, 6 de agosto de 2018
sossego
confessa-me a mulher
é que a saudade que sinto dele, cobre-me o corpo todo durante o dia todo, despertando sensações que eu já tinha esquecido
eu ouço-a com uma ponta de inveja, esse pecado capital, a aflorar-me os sentimentos
mas isso é bom, é vida...
digo-lhe
não. tropeço no desejo a toda a hora. é um burburinho de corpo que não me larga
tento imaginar o desassossego e acabo por pedir às minhas hormonas que se mantenham sossegadas.
domingo, 5 de agosto de 2018
roda
lamentam um a um, enquanto eu ouço, dentro do meu coração, a minha avó corrigir
transpiram! suar, suam as bestas...
não me importo, eu gosto de ti de qualquer maneira
respondo, um a um, abraçando demoradamente aqueles corpos vestidos com t-shirts molhadas, aqueles braços pegajosos do calor, aqueles rostos que escorrem água de dentro
gosto tanto de ti!
sussurro à mulher que procura por si
fazes-me tanta falta!
digo invariavelmente ao homem-terra
queria tanto ter-te mais perto!
murmuro à mulher cristalina
obrigada por tudo
reparto por eles todos, espelhos de mim, com quem partilho dores e alegrias, progressos e retrocessos.
sábado, 4 de agosto de 2018
perda
a perda não é perca, é transformação, é crescimento.
diz-me ela, no que me parece um prenúncio de partida.
no meu peito ainda balbucia um
não te vás ainda
que não chega a ser verbalizado.
a perda não é perca, é transformação
recordo, silenciosamente
quinta-feira, 2 de agosto de 2018
delicadeza
delicadeza
aconselha-me amélia naquela forma de falar que embrulha um sorriso num sussurro
delicadeza. da mesma forma que cuidas das tuas violetas, cuida assim de ti. respeita o tempo da dor e recolhe as flores secas, apenas quando estão prontas para se soltarem da raiz; a cada folha partida, coloca em água para que torne a ser flor outra vez; rega-as e deixa que recebam o sol da manhã.
trata de ti com delicadeza e ficarás coberta de flores.
eu sorvo tudo o que amélia me diz, para quando ela partir, permanecer.
terça-feira, 31 de julho de 2018
amélia
os gestos de amélia são irrequietos, como se estivesse sempre atrasada, como se o que estivesse a fazer já devesse ter sido feito. e devia, eu sei, mas nem assim ela perde a paciência comigo.
amélia veste-me de mim e mostra-me o que eu não vejo da vida. mostra-me o superficial, o prazer, o fútil. mostra-me a cor e a luz, mostra-me o repouso e o lazer. amélia mostra-me a leveza e o merecimento. 'aceita tudo o que de bom que te vier', sussurrava-me ela. amélia é feminina e força, e tem pressa, pressa porque o tempo urge, pressa porque a ampulheta da vida esgota-se.
amélia não sabe o quanto preciso dela, para que me vista de mim, para que eu repouse na pluma que esvoaça nos dias.
estado civil
confidencia-me a mulher
ele, estar casado, não me incomoda nada. muito pelo contrário, liberta-me. também eu já fui casada e não foi isso que me impediu viver outros relacionamentos. por outro lado, vários anos tive eu coração e corpo dedicados a quem esteve tão longe de mim, de coração e corpo, também. não é o estado civil que define a qualidade do afecto. eu nunca poderia deixar de ser livre.
eu ouço em silêncio. a mulher não precisa das minhas palavras.
domingo, 29 de julho de 2018
querida
a mulher calada sai daquele querer, e descansa, num tempo, onde o tempo não existe, onde a distância não se mede, onde o espaço não se ocupa.
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