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antes de partir amélia diz-me que para deixar correr a meu favor o fluxo da abundância, não posso temer a perda. o temor estrangula como um dique a um curso de água.
a perda não é perca, é transformação, é crescimento.
diz-me ela, no que me parece um prenúncio de partida.
no meu peito ainda balbucia um
não te vás ainda
que não chega a ser verbalizado.
a perda não é perca, é transformação
recordo, silenciosamente
delicadeza
aconselha-me amélia naquela forma de falar que embrulha um sorriso num sussurro
delicadeza. da mesma forma que cuidas das tuas violetas, cuida assim de ti. respeita o tempo da dor e recolhe as flores secas, apenas quando estão prontas para se soltarem da raiz; a cada folha partida, coloca em água para que torne a ser flor outra vez; rega-as e deixa que recebam o sol da manhã.
trata de ti com delicadeza e ficarás coberta de flores.
eu sorvo tudo o que amélia me diz, para quando ela partir, permanecer.
peço a amélia que não parta, que fique pelo menos o tempo de chegar o outono para que eu me cubra das cores com que se anuncia o aconchego e o fogo aceso.
os gestos de amélia são irrequietos, como se estivesse sempre atrasada, como se o que estivesse a fazer já devesse ter sido feito. e devia, eu sei, mas nem assim ela perde a paciência comigo.
amélia veste-me de mim e mostra-me o que eu não vejo da vida. mostra-me o superficial, o prazer, o fútil. mostra-me a cor e a luz, mostra-me o repouso e o lazer. amélia mostra-me a leveza e o merecimento. 'aceita tudo o que de bom que te vier', sussurrava-me ela. amélia é feminina e força, e tem pressa, pressa porque o tempo urge, pressa porque a ampulheta da vida esgota-se.
amélia não sabe o quanto preciso dela, para que me vista de mim, para que eu repouse na pluma que esvoaça nos dias.
sabe...
confidencia-me a mulher
ele, estar casado, não me incomoda nada. muito pelo contrário, liberta-me. também eu já fui casada e não foi isso que me impediu viver outros relacionamentos. por outro lado, vários anos tive eu coração e corpo dedicados a quem esteve tão longe de mim, de coração e corpo, também. não é o estado civil que define a qualidade do afecto. eu nunca poderia deixar de ser livre.
eu ouço em silêncio. a mulher não precisa das minhas palavras.
consigo, querida, eu acho que quereria estar sempre a regressar a casa.
a mulher calada sai daquele querer, e descansa, num tempo, onde o tempo não existe, onde a distância não se mede, onde o espaço não se ocupa.
foi tão vaga, diz o homem, gostaria de envolvê-la com todas coisas que gosta...
perante a pergunta dele, a mulher respondera com sensações. gosto de morno, macio, de alegria... também gosto de momentos e de vento e de sol na pele e de chuva... esquecera-se há muito de que se podia gostar de coisas
como posso dizer-lhe isto, querida, sem que a faça sentir sufocada? diz o homem à mulher calada. pense em mim como um prolongamento de si, e quando precisar de alguma coisa, que seja a esta parte que a vem buscar.
intuition, insight, cura, saúde, alegria, abundância, prosperidade, murmuro enquanto seguro o copo de água encostado ao peito. sinto a resistência do braço enquanto o levanto e penso na minha mão tão longe do teu rosto, sem o afagar
como explicar-lhe o que sinto...
ouço o homem dizer à mulher calada
sabe, o que sinto quando estou consigo, prolonga-se no tempo, dentro de mim, durante horas, às vezes dias. como da primeira vez que pousei a minha mão na sua e senti em mim o seu calor. sabe, durante esse dia, eu senti que a minha mão esquerda estava diferente da direita, apenas por lhe ter tocado.
ouço o homem dizer
naquela primeira vez em que a vi, eu não sei porquê, mas eu queria ficar ali para sempre, naquele momento. e respeitando a sua vontade de estar só, quero que saiba que se um dia precisar de um coração, pode contar com o meu
reparo que a mulher não toma o café, não responde, não levanta o olhar, o vento revolve-lhe os cabelos e a camisola desliza sobre o vestido sem que ela se mova. completamente despreparada