terça-feira, 31 de julho de 2018

estado civil









sabe...
confidencia-me a mulher
ele, estar casado, não me incomoda nada. muito pelo contrário, liberta-me. também eu já fui casada e não foi isso que me impediu viver outros relacionamentos. por outro lado, vários anos tive eu coração e corpo dedicados a quem esteve tão longe de mim, de coração e corpo, também. não é o estado civil que define a qualidade do afecto. eu nunca poderia deixar de ser livre.

eu ouço em silêncio. a mulher não precisa das minhas palavras.












domingo, 29 de julho de 2018

querida








consigo, querida, eu acho que quereria estar sempre a regressar a casa.
a mulher calada sai daquele querer, e descansa, num tempo, onde o tempo não existe, onde a distância não se mede, onde o espaço não se ocupa.











sábado, 28 de julho de 2018

coisas






foi tão vaga, diz o homem, gostaria de envolvê-la com todas coisas que gosta...
perante a pergunta dele, a mulher respondera com sensações. gosto de morno, macio, de alegria... também gosto de momentos e de vento e de sol na pele e de chuva... esquecera-se há muito de que se podia gostar de coisas







terça-feira, 24 de julho de 2018

a parte








como posso dizer-lhe isto, querida, sem que a faça sentir sufocada? diz o homem à mulher calada. pense em mim como um prolongamento de si, e quando precisar de alguma coisa, que seja a esta parte que a vem buscar.











água






intuition, insight, cura, saúde, alegria, abundância, prosperidade, murmuro enquanto seguro o copo de água encostado ao peito. sinto a resistência do braço enquanto o levanto e penso na minha mão tão longe do teu rosto, sem o afagar











segunda-feira, 23 de julho de 2018

sentir







como explicar-lhe o que sinto...
ouço o homem dizer à mulher calada
sabe, o que sinto quando estou consigo, prolonga-se no tempo, dentro de mim, durante horas, às vezes dias. como da primeira vez que pousei a minha mão na sua e senti em mim o seu calor. sabe, durante esse dia, eu senti que a minha mão esquerda estava diferente da direita, apenas por lhe ter tocado.








sábado, 21 de julho de 2018

despreparada







ouço o homem dizer
naquela primeira vez em que a vi, eu não sei porquê, mas eu queria ficar ali para sempre, naquele momento. e respeitando a sua vontade de estar só, quero que saiba que se um dia precisar de um coração, pode contar com o meu
reparo que a mulher não toma o café, não responde, não levanta o olhar, o vento revolve-lhe os cabelos e a camisola desliza sobre o vestido sem que ela se mova. completamente despreparada







quinta-feira, 19 de julho de 2018

o jardineiro











o jardineiro de pessoas abeirou-se da mulher que lava o futuro nas margens do rio
a minha profissão tem feito com que eu assista ao degradar da condição humana, e quando eu vejo aqueles corpos a esvaírem-se de vida, fico a pensar se a alma partirá para algum lugar depois de deixar o corpo
a mulher que lava o futuro nas margens do rio mergulhou o seu olhar no do homem inquieto e contou-lhe do que sabia e do que viu nas almas já desprovidas de corpo que encontrou nas viagens pelos mundos fora do mundo
mostre-me mais, leve-me consigo
murmurou o homem que leva os dias ajardinando pessoas
difíceis são as viagens quando a distância vem de dentro do peito, todas as outras são possíveis









quarta-feira, 18 de julho de 2018

manhã









passa pouco das oito horas quando encontro a marta, que varre, como de costume, os passeios que ladeiam os prédios das vizinhanças
bom dia, marta! está boa?
e a marta, com a carapinha resguardada num lenço vermelho, os olhos sábios de quem já viu muita vida e escapou a muita miséria, o rosto de pele preta com as marcas do grupo étnico a que pertencia em terras do quénia, reparte a atenção entre mim e as folhas que junta 
bom dia! está cansada, mulher?
ora... é um bocado cedo para já estar cansada, não é marta?
ó mulher... parece que carrega o mundo às costas...
despeço-me da marta e entro no café onde um homem grande feito pequenino, me aguarda preso num sorriso que pensa que trago, e que não sabe que carrego o mundo às costas










terça-feira, 17 de julho de 2018

superfície







murmuro num sopro o seu nome. e ele vem. e no lodo em que me encontro, sem ar e sem pé, a mão dele faz-me regressar à água límpida onde os pés se asseguram na areia e o ar que respiro me faz recuperar o sentido devido à vida.