a mulher calada sai daquele querer, e descansa, num tempo, onde o tempo não existe, onde a distância não se mede, onde o espaço não se ocupa.
domingo, 29 de julho de 2018
querida
a mulher calada sai daquele querer, e descansa, num tempo, onde o tempo não existe, onde a distância não se mede, onde o espaço não se ocupa.
sábado, 28 de julho de 2018
coisas
perante a pergunta dele, a mulher respondera com sensações. gosto de morno, macio, de alegria... também gosto de momentos e de vento e de sol na pele e de chuva... esquecera-se há muito de que se podia gostar de coisas
terça-feira, 24 de julho de 2018
a parte
como posso dizer-lhe isto, querida, sem que a faça sentir sufocada? diz o homem à mulher calada. pense em mim como um prolongamento de si, e quando precisar de alguma coisa, que seja a esta parte que a vem buscar.
água
segunda-feira, 23 de julho de 2018
sentir
ouço o homem dizer à mulher calada
sabe, o que sinto quando estou consigo, prolonga-se no tempo, dentro de mim, durante horas, às vezes dias. como da primeira vez que pousei a minha mão na sua e senti em mim o seu calor. sabe, durante esse dia, eu senti que a minha mão esquerda estava diferente da direita, apenas por lhe ter tocado.
sábado, 21 de julho de 2018
despreparada
naquela primeira vez em que a vi, eu não sei porquê, mas eu queria ficar ali para sempre, naquele momento. e respeitando a sua vontade de estar só, quero que saiba que se um dia precisar de um coração, pode contar com o meu
reparo que a mulher não toma o café, não responde, não levanta o olhar, o vento revolve-lhe os cabelos e a camisola desliza sobre o vestido sem que ela se mova. completamente despreparada
quinta-feira, 19 de julho de 2018
o jardineiro
o jardineiro de pessoas abeirou-se da mulher que lava o
futuro nas margens do rio
a minha profissão tem feito com que eu assista ao degradar
da condição humana, e quando eu vejo aqueles corpos a esvaírem-se de vida, fico
a pensar se a alma partirá para algum lugar depois de deixar o corpo
a mulher que lava o futuro nas margens do rio mergulhou o
seu olhar no do homem inquieto e contou-lhe do que sabia e do que viu nas almas
já desprovidas de corpo que encontrou nas viagens pelos mundos fora do mundo
mostre-me mais, leve-me consigo
murmurou o homem que leva os dias ajardinando pessoas
difíceis são as viagens quando a distância vem de dentro do
peito, todas as outras são possíveis
quarta-feira, 18 de julho de 2018
manhã
bom dia, marta! está boa?
e a marta, com a carapinha resguardada num lenço vermelho, os olhos sábios de quem já viu muita vida e escapou a muita miséria, o rosto de pele preta com as marcas do grupo étnico a que pertencia em terras do quénia, reparte a atenção entre mim e as folhas que junta
bom dia! está cansada, mulher?
ora... é um bocado cedo para já estar cansada, não é marta?
ó mulher... parece que carrega o mundo às costas...
despeço-me da marta e entro no café onde um homem grande feito pequenino, me aguarda preso num sorriso que pensa que trago, e que não sabe que carrego o mundo às costas
terça-feira, 17 de julho de 2018
superfície
murmuro num sopro o seu nome. e ele vem. e no lodo em que me encontro, sem ar e sem pé, a mão dele faz-me regressar à água límpida onde os pés se asseguram na areia e o ar que respiro me faz recuperar o sentido devido à vida.
sexta-feira, 13 de julho de 2018
o rapaz
se ela não te quer, deixa para lá, mulheres há muitas...
responde, como quem pensa com voz
até os meus amigos dizem isso, que mulheres há muitas, mas eu acho que isso é colocar as mulheres numa posição muito baixa... e depois, aquilo que ela é, que me fez gostar dela, não deixou de existir. ela não mudou...
eu, que ouço a conversa, tenho cá dentro no peito uma voz que diz que tomara que ele não fosse tão parecido comigo, até por dentro
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