terça-feira, 24 de julho de 2018
água
segunda-feira, 23 de julho de 2018
sentir
ouço o homem dizer à mulher calada
sabe, o que sinto quando estou consigo, prolonga-se no tempo, dentro de mim, durante horas, às vezes dias. como da primeira vez que pousei a minha mão na sua e senti em mim o seu calor. sabe, durante esse dia, eu senti que a minha mão esquerda estava diferente da direita, apenas por lhe ter tocado.
sábado, 21 de julho de 2018
despreparada
naquela primeira vez em que a vi, eu não sei porquê, mas eu queria ficar ali para sempre, naquele momento. e respeitando a sua vontade de estar só, quero que saiba que se um dia precisar de um coração, pode contar com o meu
reparo que a mulher não toma o café, não responde, não levanta o olhar, o vento revolve-lhe os cabelos e a camisola desliza sobre o vestido sem que ela se mova. completamente despreparada
quinta-feira, 19 de julho de 2018
o jardineiro
o jardineiro de pessoas abeirou-se da mulher que lava o
futuro nas margens do rio
a minha profissão tem feito com que eu assista ao degradar
da condição humana, e quando eu vejo aqueles corpos a esvaírem-se de vida, fico
a pensar se a alma partirá para algum lugar depois de deixar o corpo
a mulher que lava o futuro nas margens do rio mergulhou o
seu olhar no do homem inquieto e contou-lhe do que sabia e do que viu nas almas
já desprovidas de corpo que encontrou nas viagens pelos mundos fora do mundo
mostre-me mais, leve-me consigo
murmurou o homem que leva os dias ajardinando pessoas
difíceis são as viagens quando a distância vem de dentro do
peito, todas as outras são possíveis
quarta-feira, 18 de julho de 2018
manhã
bom dia, marta! está boa?
e a marta, com a carapinha resguardada num lenço vermelho, os olhos sábios de quem já viu muita vida e escapou a muita miséria, o rosto de pele preta com as marcas do grupo étnico a que pertencia em terras do quénia, reparte a atenção entre mim e as folhas que junta
bom dia! está cansada, mulher?
ora... é um bocado cedo para já estar cansada, não é marta?
ó mulher... parece que carrega o mundo às costas...
despeço-me da marta e entro no café onde um homem grande feito pequenino, me aguarda preso num sorriso que pensa que trago, e que não sabe que carrego o mundo às costas
terça-feira, 17 de julho de 2018
superfície
murmuro num sopro o seu nome. e ele vem. e no lodo em que me encontro, sem ar e sem pé, a mão dele faz-me regressar à água límpida onde os pés se asseguram na areia e o ar que respiro me faz recuperar o sentido devido à vida.
sexta-feira, 13 de julho de 2018
o rapaz
se ela não te quer, deixa para lá, mulheres há muitas...
responde, como quem pensa com voz
até os meus amigos dizem isso, que mulheres há muitas, mas eu acho que isso é colocar as mulheres numa posição muito baixa... e depois, aquilo que ela é, que me fez gostar dela, não deixou de existir. ela não mudou...
eu, que ouço a conversa, tenho cá dentro no peito uma voz que diz que tomara que ele não fosse tão parecido comigo, até por dentro
segunda-feira, 9 de julho de 2018
ele e ela
vejo na forma como ele pousa os braços e se curva no balcão de atendimento, que está frágil. vejo, na forma com que ela está sempre a tocar o seu corpo, o cuidado dela.
ali, os corpos abarcam toda a fragilidade da vida.
domingo, 8 de julho de 2018
a partir dali
quinta-feira, 5 de julho de 2018
um cangalho chinado
diz o andré do talho, quando pergunto se tem visto a dona fernanda
nem os sacos pode levar...
...
toda chinada...
confirmam-me por outro lado
não escapa sem ir à faca...
...
do que me conta ela, interiorizou-se demais, e o corpo, que mal espaço tem para os seus próprios interiores, alargando-se quantas vezes em formas de gordura para abarcar desconsolos, teve que se acotovelar com os interiores da alma dela. e cristalizaram-se lágrimas em todos os recantos de dentro, e os amores não gritados, enrodilharam-se no coração, e as raivas contidas fizeram batalhas debaixo da pele, e os medos calados acossaram-lhe o corpo em dores.
um cangalho...
confirmo
toda chinada...
nem encontro termo melhor
e como fazer correr essa alma?
pergunto eu à dona fernanda, numa esperança de poder aliviar-lhe os interiores do corpo
apenas uma coisa me faz chorar
confessa-me
e eu nem sei dizer porquê à vizinha... são os meninos na tailândia, presos naquela gruta. é pensar neles e choro...
fica aqui o conselho e a lição do que aconteceu à dona fernanda. os interiores são os interiores, os exteriores são para manifesto. declarem-se amores, gritem-se raivas, assumam-se medos, chorem-se dores. se o corpo tem a fronteira da pele, por alguma razão será.
e eu nem era para escrever isto, mas escrevi, que é uma forma de não me encher por dentro.
Subscrever:
Mensagens (Atom)

