quarta-feira, 18 de julho de 2018

manhã









passa pouco das oito horas quando encontro a marta, que varre, como de costume, os passeios que ladeiam os prédios das vizinhanças
bom dia, marta! está boa?
e a marta, com a carapinha resguardada num lenço vermelho, os olhos sábios de quem já viu muita vida e escapou a muita miséria, o rosto de pele preta com as marcas do grupo étnico a que pertencia em terras do quénia, reparte a atenção entre mim e as folhas que junta 
bom dia! está cansada, mulher?
ora... é um bocado cedo para já estar cansada, não é marta?
ó mulher... parece que carrega o mundo às costas...
despeço-me da marta e entro no café onde um homem grande feito pequenino, me aguarda preso num sorriso que pensa que trago, e que não sabe que carrego o mundo às costas










terça-feira, 17 de julho de 2018

superfície







murmuro num sopro o seu nome. e ele vem. e no lodo em que me encontro, sem ar e sem pé, a mão dele faz-me regressar à água límpida onde os pés se asseguram na areia e o ar que respiro me faz recuperar o sentido devido à vida.







sexta-feira, 13 de julho de 2018

o rapaz










o rapaz, que estava a ser aconselhado por uma mulher com um
se ela não te quer, deixa para lá, mulheres há muitas...
responde, como quem pensa com voz
até os meus amigos dizem isso, que mulheres há muitas, mas eu acho que isso é colocar as mulheres numa posição muito baixa... e depois, aquilo que ela é, que me fez gostar dela, não deixou de existir. ela não mudou...
eu, que ouço a conversa, tenho cá dentro no peito uma voz que diz que tomara que ele não fosse tão parecido comigo, até por dentro










segunda-feira, 9 de julho de 2018

ele e ela








o casal jovem espera a sua vez de pé. ele tem a mão pousada no ombro dela, daquela forma com que um adulto procura segurança na frágil mão de uma criança, e encontra-a. ela, inclina a cabeça para que a face roce nos dedos dele. com um dedo, ele desenha o contorno do seu nariz, e de novo descansa a mão, como se todo ele estivesse naquele toque. ela, inclina ligeiramente a cabeça, e beija discretamente os dedos que se sustêm, nela.

vejo na forma como ele pousa os braços e se curva no balcão de atendimento, que está frágil. vejo, na forma com que ela está sempre a tocar o seu corpo, o cuidado dela. 

ali, os corpos abarcam toda a fragilidade da vida.


















domingo, 8 de julho de 2018

a partir dali










     até podia ser, visto de fora, mas diz que não, que não se tratava do cansaço de recomeçar mais uma vez, daquela sensação  do seu corpo outra vez esgotado, do coração desgrenhado, de cada passo que dava voltar a ser uma conquista, da incessante oração ao anjo da guarda a ecoar-lhe no peito, da cor alegre no vestido para que lhe tinja a alma de azuis turquesas e corais de todas as tonalidades. não se tratava do cansaço de recomeçar, mas da oportunidade de o poder fazer mais uma vez, depois de se ter rompido de cima a baixo, ao conscientemente quebrar os seus limites. então, naquele domingo agradecia a deus por conseguir atravessar a rua para fazer compras no lidl, e por aquele momento em que despejava os plásticos no ecoponto, agradecia por lhe ter sido permitido quebrar a regra da fragilidade, e reconstruir-se dolorosamente, mais uma vez, tentando mentalmente retroceder no tempo aos dias antes da dor, e caminhar, a partir dali, como se tal fosse possível.









quinta-feira, 5 de julho de 2018

um cangalho chinado









um cangalho
diz o andré do talho, quando pergunto se tem visto a dona fernanda
nem os sacos pode levar...
...
toda chinada...
confirmam-me por outro lado
não escapa sem ir à faca...
...
do que me conta ela, interiorizou-se demais, e o corpo, que mal espaço tem para os seus próprios interiores, alargando-se quantas vezes em formas de gordura para abarcar desconsolos, teve que se acotovelar com os interiores da alma dela. e cristalizaram-se lágrimas em todos os recantos de dentro, e os amores não gritados, enrodilharam-se no coração, e as raivas contidas fizeram batalhas debaixo da pele, e os medos calados acossaram-lhe o corpo em dores. 

um cangalho...
confirmo
toda chinada...
nem encontro termo melhor
e como fazer correr essa alma?
pergunto eu à dona fernanda, numa esperança de poder aliviar-lhe os interiores do corpo
apenas uma coisa me faz chorar
confessa-me
e eu nem sei dizer porquê à vizinha... são os meninos na tailândia, presos naquela gruta. é pensar neles e choro...

fica aqui o conselho e a lição do que aconteceu à dona fernanda. os interiores são os interiores, os exteriores são para manifesto. declarem-se amores, gritem-se raivas, assumam-se medos, chorem-se dores. se o corpo tem a fronteira da pele, por alguma razão será.
e eu nem era para escrever isto, mas escrevi, que é uma forma de não me encher por dentro.




















segunda-feira, 2 de julho de 2018

domingo, 1 de julho de 2018

convite










perguntam-me como foi a sardinhada
foi tudo feito com muito boa vontade, tenho a certeza
mas as sardinhas eram boas?
congeladas...

decidindo à última da hora aceitar o convite, apareço para a sardinhada de são pedro com uma garrafa de lambrusco fresquinha [sei que gostam] que andei a passear na mão, enquanto esperava que me abrissem alguma porta de uma rua que eu desconhecia.

dona isaura quando está por casa, alivia-se dos dentes que não nasceram consigo, e que são quase todos. queixa-se a filha de que assim que passa a porta, os pousa no móvel da entrada. eu não os vi lá.
mas é dona isaura que trata das sardinhas. filha de homem do mar e mulher de homem do mar, ninguém lhes sabe dar as voltas nas brasas como ela.

acontece que dona isaura gostou do lambrusco. encheu um copo de refresco com ele, e tomou-o quase de um trago, que o calor da brasa faz sede. depois, foi um tal falar, enquanto depenicava com os dedos os lombos das sardinhas, que na travessa, esperavam para vir para os pratos. 

do monólogo, sobre os seus 75 anos de vida, lembro os pedaços de peixe nos cantos da boca, a voz rouca que saía ladeada por dois dentes no maxilar de cima e outros dois do lado oposto, no maxilar de baixo, e uma vida de trabalho e luta.

não recusarei o próximo convite.











sexta-feira, 29 de junho de 2018

palavras









Não te magoo sob qualquer forma de magoar, disse-lhe, e a mulher descansou o seu dia naquelas palavras, mesmo que não lhe servissem de nada.









quinta-feira, 28 de junho de 2018

centelha







olhara com desprezo para a mulher que considerava fraca
tu tens uma força....
dissera-lhe ela com os olhos cheios de lágrimas
mantens a calma, sabes o que fazer, acalmas os outros também...
ora...
respondera-lhe a outra
é a única coisa a fazer. não vamos entrar todos em desespero
e calava-se, e sorria, a tal mulher que a outra considerava forte

mas enganara-se. forte é quem mostra a sua fragilidade, a sua vulnerabilidade, o seu sentimento, quem coloca o seu lado de dentro, de fora. a mulher que a outra considerava forte, implodiu, o corpo desmoronou. agora procura um qualquer sinal que a faça lembrar de si, uma ponta de uma corda qualquer a que se agarre, talvez uma centelha divina. parece que uma centelha é coisa pequenina que salva.