domingo, 8 de julho de 2018
a partir dali
quinta-feira, 5 de julho de 2018
um cangalho chinado
diz o andré do talho, quando pergunto se tem visto a dona fernanda
nem os sacos pode levar...
...
toda chinada...
confirmam-me por outro lado
não escapa sem ir à faca...
...
do que me conta ela, interiorizou-se demais, e o corpo, que mal espaço tem para os seus próprios interiores, alargando-se quantas vezes em formas de gordura para abarcar desconsolos, teve que se acotovelar com os interiores da alma dela. e cristalizaram-se lágrimas em todos os recantos de dentro, e os amores não gritados, enrodilharam-se no coração, e as raivas contidas fizeram batalhas debaixo da pele, e os medos calados acossaram-lhe o corpo em dores.
um cangalho...
confirmo
toda chinada...
nem encontro termo melhor
e como fazer correr essa alma?
pergunto eu à dona fernanda, numa esperança de poder aliviar-lhe os interiores do corpo
apenas uma coisa me faz chorar
confessa-me
e eu nem sei dizer porquê à vizinha... são os meninos na tailândia, presos naquela gruta. é pensar neles e choro...
fica aqui o conselho e a lição do que aconteceu à dona fernanda. os interiores são os interiores, os exteriores são para manifesto. declarem-se amores, gritem-se raivas, assumam-se medos, chorem-se dores. se o corpo tem a fronteira da pele, por alguma razão será.
e eu nem era para escrever isto, mas escrevi, que é uma forma de não me encher por dentro.
segunda-feira, 2 de julho de 2018
domingo, 1 de julho de 2018
convite
foi tudo feito com muito boa vontade, tenho a certeza
mas as sardinhas eram boas?
congeladas...
decidindo à última da hora aceitar o convite, apareço para a sardinhada de são pedro com uma garrafa de lambrusco fresquinha [sei que gostam] que andei a passear na mão, enquanto esperava que me abrissem alguma porta de uma rua que eu desconhecia.
dona isaura quando está por casa, alivia-se dos dentes que não nasceram consigo, e que são quase todos. queixa-se a filha de que assim que passa a porta, os pousa no móvel da entrada. eu não os vi lá.
mas é dona isaura que trata das sardinhas. filha de homem do mar e mulher de homem do mar, ninguém lhes sabe dar as voltas nas brasas como ela.
acontece que dona isaura gostou do lambrusco. encheu um copo de refresco com ele, e tomou-o quase de um trago, que o calor da brasa faz sede. depois, foi um tal falar, enquanto depenicava com os dedos os lombos das sardinhas, que na travessa, esperavam para vir para os pratos.
do monólogo, sobre os seus 75 anos de vida, lembro os pedaços de peixe nos cantos da boca, a voz rouca que saía ladeada por dois dentes no maxilar de cima e outros dois do lado oposto, no maxilar de baixo, e uma vida de trabalho e luta.
não recusarei o próximo convite.
sexta-feira, 29 de junho de 2018
palavras
quinta-feira, 28 de junho de 2018
centelha
olhara com desprezo para a mulher que considerava fraca
tu tens uma força....
dissera-lhe ela com os olhos cheios de lágrimas
mantens a calma, sabes o que fazer, acalmas os outros também...
ora...
respondera-lhe a outra
é a única coisa a fazer. não vamos entrar todos em desespero
e calava-se, e sorria, a tal mulher que a outra considerava forte
mas enganara-se. forte é quem mostra a sua fragilidade, a sua vulnerabilidade, o seu sentimento, quem coloca o seu lado de dentro, de fora. a mulher que a outra considerava forte, implodiu, o corpo desmoronou. agora procura um qualquer sinal que a faça lembrar de si, uma ponta de uma corda qualquer a que se agarre, talvez uma centelha divina. parece que uma centelha é coisa pequenina que salva.
quarta-feira, 27 de junho de 2018
terça-feira, 26 de junho de 2018
afinal
segunda-feira, 25 de junho de 2018
sucateiro
[se escrevo, é para que não me esqueça, pois eu sou de memória curta]
fazia naquele dia quatro anos que o conheço, que quando o vi, ponderei sair dali, daquele lugar, no mesmo instante
o que é aquilo?
questionei quem me acompanhava
parece um trolha...
continuei, com todos os preconceitos de que sou feita
o homem-terra também faz serviço de trolha, de sucateiro, de curandeiro. mas naquele dia, tinha-me sentado ao seu lado para lhe falar da dor e da morte e do meu corpo. da doença que galgou o corpo da mulher borboleta e todos os dias o transformava em algo diferente; para lhe falar da aceitação da mulher debilitada, da dependência, da forma de a alimentar, da higiene, da dor, da dor e da dor.
e chorei. caramba, chorei. finalmente as lágrimas encontraram uma saída para fora de mim.
[não se consegue impedir o curso da água
costumava dizer o meu pai, quando alguma construção aluía]
[não se consegue impedir o curso da água
costumava dizer o meu pai, quando alguma construção aluía]
não é com a morte que tu lidas mal
diz-me o homem-terra, sentado no chão
é o apego que te faz sofrer
e não é por mal. as pessoas tomam o apego, o controlo e o medo, e chamam-lhe amor. mas o amor não é isso. isso cria uma barreira. como uma parede, percebes?
e eu percebo
que impede a circulação de energia e então tudo estagna. o sentimento estagna, a vontade estagna, a força para prosseguir estagna, o trabalho estagna, até o dinheiro e os estudos estagnam. amor é deixar fluir, deixar circular, é estar cá mas deixar ir, e ir também, é deixar ser, e ser também. e não estou a falar do amor de casal, do amor amoroso, estou a falar de amor mesmo. então, tudo se movimenta, a vida, a saúde, as emoções e a alegria. e tudo muda. mas esta mudança é a partir de dentro de ti que tens que a fazer, não esperar que os outros o façam. é a partir de ti. quando os deixares ser, eles serão, e isso é amor. muda, e tudo muda à tua volta. tu sabes bem, já o viste acontecer tantas vezes.
diz-me o homem-terra, sentado no chão
é o apego que te faz sofrer
e não é por mal. as pessoas tomam o apego, o controlo e o medo, e chamam-lhe amor. mas o amor não é isso. isso cria uma barreira. como uma parede, percebes?
e eu percebo
que impede a circulação de energia e então tudo estagna. o sentimento estagna, a vontade estagna, a força para prosseguir estagna, o trabalho estagna, até o dinheiro e os estudos estagnam. amor é deixar fluir, deixar circular, é estar cá mas deixar ir, e ir também, é deixar ser, e ser também. e não estou a falar do amor de casal, do amor amoroso, estou a falar de amor mesmo. então, tudo se movimenta, a vida, a saúde, as emoções e a alegria. e tudo muda. mas esta mudança é a partir de dentro de ti que tens que a fazer, não esperar que os outros o façam. é a partir de ti. quando os deixares ser, eles serão, e isso é amor. muda, e tudo muda à tua volta. tu sabes bem, já o viste acontecer tantas vezes.
domingo, 24 de junho de 2018
caminho
diz o homem-terra
amélia esperava-me inquieta. já antes de eu chegar, ela sabe porque vou, onde vou, ao que vou. tem o costume de corrigir a minha indumentária, solta-me os cabelos, coloca-me uma grinalda e veste-me de vestidos compridos e fluidos. os pés, esses deixa-mos nus. já ela, apresenta-se de lenço amarrado sob o queixo e óculos redondos.
temos que ir a uma gruta no deserto
explico-lhe, mas já ela me coloca um turbante na cabeça, equipa-me de lanterna, bússola, cantil e outros apetrechos de que não me lembro
para onde fores, vai preparada para o que te espera. prepara-te sempre para a ocasião. isto são ferramentas.
um tuareg já me aguardava mesmo antes de eu ter partido para aquele deserto árido e tórrido de areia dourada, e a gruta para onde me dirigia elevava-se no solo, em vez de mergulhar nas profundezas da terra.
era escuro, o espaço onde eu devia entrar, e habitado por uma família de javalis que entravam e saíam sem cuidado algum. serviu-me de bom uso a lanterna que amélia me colocara na cabeça, e sentei-me. não tardou que fossem chegando membros dos grupos do tuareg com pergaminhos para que eu lhes escrevesse orientações. não me perguntes sobre o quê, pois não cheguei a sabê-lo.
e agora?
perguntei ao homem escuro de turbante azul-noite que me acompanhava
agora?
sim, agora? isto não me basta. e eu? terei que ficar aqui, na escuridão e só? não quero...
tens o deserto todo lá fora...
disse-me, pausadamente
mas o deserto é árido e tórrido...
respondi, tentando ocultar que tinha medo da imensidão que se me apresentava por todo o lado
tens as ferramentas todas. usa-as.
então digo-te que as usei. ousei sair da gruta, deixando para trás o medo, e a cada passo que eu dava, a areia onde eu pousava o pé, transformava-se em terreno fértil e povoado de flores, como se o caminho fosse fertilidade em si mesmo. sem o medo, tinha começado o caminho que me levava à terra da infância, da leveza, do sem-tempo. ao chegar lá, rompendo a gosma que me prendia os movimentos e atava os passos, as crianças correram para o meu abraço e trouxeram-me a alegria genuina.
aceito o que de bom me é dado
ecoava eu mesma dentro de mim, como se outra fosse sussurrando nos meus ouvidos.
é a tua essência
murmurava-me o homem-terra sobre as crianças
és tu, quando te soltas do medo e confias
Subscrever:
Mensagens (Atom)

