sexta-feira, 22 de junho de 2018

mulher borboleta







a dor acabou naqueles 18 metros quadrados. do amor, vestiu-se a mulher borboleta quando decidiu partir no dia da festa do solstício de Verão, da colheita, da fartura e prosperidade. agora, a mulher borboleta segue guiada pela loba branca e ladeada pelas tribos que fizeram parte de todas as suas vidas. todos os animais de poder a vêem passar, todos os mestres a reverenciam. dos seus pés descalços, que pisam a terra macia enquanto caminha, solta-se pó prateado das fadas, e eu que o conto, eu o vi. para o caminho, pediu amor, alegria e flores.


mas tem-me faltado a alegria neste meu corpo dorido de tanta dor a que assistiu, nesta alma cansada de tão rendida. doí-me demais, e doo-me, ainda.
a mulher que tinha as asas tatuadas nas costas era resiliência, era lucidez, era luta, era dúvida, era frontalidade, era fragilidade, era determinação, era luz, era cura. era vida com vontade de viver.
queria eu que as palavras que escrevo me ajudassem a ver, que fossem alívio, que fossem descanso. mas não são. mesmo assim escrevo, sem conseguir enfeitar de meninices este texto, que devia ser de gratidão, e é, embora não pareça.














terça-feira, 19 de junho de 2018

blog










este blog está cansado. vai aproveitar o calor para apanhar banhos de sol, e se o frio voltar, talvez aproveite para se aninhar.

até já.










domingo, 17 de junho de 2018

dar-lhe fim






...houve noites em que me julguei tão seguro de poder esquecê-la que voluntariamente a recordava. a verdade é que abusei destes bocados, dar-lhes início resultava mais fácil do que lhes dar fim....

jorge luis borges









oraculador













para variar digo que sim, que quero consultar o oráculo
é o quê?
é oráculo celta
diz o homem novo
boa! eu quero, fazemos uma troca
sugiro eu, agarrando a oportunidade 
seguras as pedras, dizes o que queres saber e depois largas as pedras
explica-me o homem novo
então eu seguro as pedras, penso com intensidade no que quero saber, digo-lhe, e deixo cair as pedras
ora bem
diz-me o oraculador
o que está para trás são as tuas experiências passadas, actualmente é o caminho que estás a fazer com o que aprendeste, e o futuro será o inevitável
concluiu o oraculador
eu olho para ele, ele olha para mim, e digo
faz todo sentido, fico muito grata








sábado, 16 de junho de 2018

pontes






que me queres?
pergunto ao homem-terra quando atendo o telefone
não quero nada de ti mas sinto que estás cansada e liguei para te aliviar
diz ele à distância de várias pontes e algumas cidades
se sentisses o meu cansaço nem saías da cama
respondo-lhe comovida de uma comoção que tento disfarçar mas que ele também sente
eu sei, rapariga, eu sei
e eu, que vejo aquele homem bronco crescer em humanidade e compaixão, sinto-me aliviada, sinto-me acolhida, e falamos, e rimos, e eu descanso nele, e ele sossega em mim












quinta-feira, 14 de junho de 2018

lucidez





a mulher que dizem ter perdido a lucidez, vira, na cama, o seu corpo franzino e pálido, deixando entrever nas costas, na abertura da t-shirt cortada, as tatuagens coloridas das asas de borboleta
eu aprendi a não deixar que me desrespeitem
murmura






quarta-feira, 13 de junho de 2018

toino








precisas é de um pescador
diz a mulher saída daquela comunidade piscatória, povoada de mulheres que perderam os homens na faina
tu precisas é de um homem que saia para o mar durante seis meses e que venha a terra uma semana. de outra maneira não te aguentas







terça-feira, 12 de junho de 2018

Endireita





No local de espera, ao ar livre, onde debaixo de uma ramada de kiwis tento apanhar réstias de sol que amenizem o frio da nortada que finta o fino tecido do vestido que trago,  o homem ao meu lado enumera, para que o filho o ouça, diversas formas de matar pardais; no alpendre, um grilo enjaulado e um canário engaiolado soltam sons que se quer crer que sejam cantos, e não lamentos; o homem carrancudo à minha frente tem a unha do dedo mínimo enorme, assim como a unha do polegar do outro que se senta à minha esquerda, chego a pensar que seja um nail code.
Arrasto a minha cadeira de plástico para o sol e chego a sentir -me contente por não chover. A mulher do endireita passa com o seu avental debruado a galinhas, gemendo de dores e agarrada ao abdómen. Espero que não seja dos ossos que ela se queixa.





ordem nos dias





foi quando se esqueceu da magia dos milagres, que a sua vida bateu no fundo. o que até aí era possível, deixou de o ser. a matemática e a lógica ganharam terreno e o frio metálico reinou. a ordem foi restaurada, o riso infantil adulterou-se, o sonho deu lugar a vagas no agendamento dos dias. a justiça foi feita, o ser cedeu perante a proporção entre o ter e o haver. a paixão foi substituída por uma lista de requisitos a serem preenchidos.
reinou a calma e o calculo passou a ser exacto.







segunda-feira, 11 de junho de 2018

chove








Ilmatecuhtli acordou ferida do seu sonho, asa tombada na queda do risco mal calculado, vertigem da profundidade de um peito aberto. Conta-se que terá trocado a deusa, a serenidade eterna, pela efemeridade das paixões terrenas. No desencanto certo de um amor desacertado, ferida a deusa e privada do brilho com que acendia a luz nas noites dos céus, quis Hury, o deus das tempestades, eterno protector de Ilmatecuhtli  cobrir o céu com um manto espesso de onde apenas trespassavam as gotas das lágrimas das estrelas, fazendo da primavera inverno.