sábado, 16 de junho de 2018

pontes






que me queres?
pergunto ao homem-terra quando atendo o telefone
não quero nada de ti mas sinto que estás cansada e liguei para te aliviar
diz ele à distância de várias pontes e algumas cidades
se sentisses o meu cansaço nem saías da cama
respondo-lhe comovida de uma comoção que tento disfarçar mas que ele também sente
eu sei, rapariga, eu sei
e eu, que vejo aquele homem bronco crescer em humanidade e compaixão, sinto-me aliviada, sinto-me acolhida, e falamos, e rimos, e eu descanso nele, e ele sossega em mim












quinta-feira, 14 de junho de 2018

lucidez





a mulher que dizem ter perdido a lucidez, vira, na cama, o seu corpo franzino e pálido, deixando entrever nas costas, na abertura da t-shirt cortada, as tatuagens coloridas das asas de borboleta
eu aprendi a não deixar que me desrespeitem
murmura






quarta-feira, 13 de junho de 2018

toino








precisas é de um pescador
diz a mulher saída daquela comunidade piscatória, povoada de mulheres que perderam os homens na faina
tu precisas é de um homem que saia para o mar durante seis meses e que venha a terra uma semana. de outra maneira não te aguentas







terça-feira, 12 de junho de 2018

Endireita





No local de espera, ao ar livre, onde debaixo de uma ramada de kiwis tento apanhar réstias de sol que amenizem o frio da nortada que finta o fino tecido do vestido que trago,  o homem ao meu lado enumera, para que o filho o ouça, diversas formas de matar pardais; no alpendre, um grilo enjaulado e um canário engaiolado soltam sons que se quer crer que sejam cantos, e não lamentos; o homem carrancudo à minha frente tem a unha do dedo mínimo enorme, assim como a unha do polegar do outro que se senta à minha esquerda, chego a pensar que seja um nail code.
Arrasto a minha cadeira de plástico para o sol e chego a sentir -me contente por não chover. A mulher do endireita passa com o seu avental debruado a galinhas, gemendo de dores e agarrada ao abdómen. Espero que não seja dos ossos que ela se queixa.





ordem nos dias





foi quando se esqueceu da magia dos milagres, que a sua vida bateu no fundo. o que até aí era possível, deixou de o ser. a matemática e a lógica ganharam terreno e o frio metálico reinou. a ordem foi restaurada, o riso infantil adulterou-se, o sonho deu lugar a vagas no agendamento dos dias. a justiça foi feita, o ser cedeu perante a proporção entre o ter e o haver. a paixão foi substituída por uma lista de requisitos a serem preenchidos.
reinou a calma e o calculo passou a ser exacto.







segunda-feira, 11 de junho de 2018

chove








Ilmatecuhtli acordou ferida do seu sonho, asa tombada na queda do risco mal calculado, vertigem da profundidade de um peito aberto. Conta-se que terá trocado a deusa, a serenidade eterna, pela efemeridade das paixões terrenas. No desencanto certo de um amor desacertado, ferida a deusa e privada do brilho com que acendia a luz nas noites dos céus, quis Hury, o deus das tempestades, eterno protector de Ilmatecuhtli  cobrir o céu com um manto espesso de onde apenas trespassavam as gotas das lágrimas das estrelas, fazendo da primavera inverno.






quarta-feira, 6 de junho de 2018

do dia





chegar no momento oportuno ao local certo sendo o intruso que restaura o equilíbrio, ser o silêncio que quebra o ruído. 




das aves







a varanda nunca esteve tão suja. os filhotes saíram do ninho com a indicação de que o refeitório é aqui. por cada uma ave das cerca de 3 dezenas de pardais que já frequentavam a base rectangular de floreira cheia de aveia e a taça com água fresca, juntam-se agora mais cerca de três filhotes por casal. o pisco nunca mais apareceu e os melros vêem sobretudo de madrugada.








segunda-feira, 4 de junho de 2018

às sete








Aguardo pelas sete para pôr a batedeira a trabalhar. A manteiga está derretida, os ovos separados, a farinha pesada e a água já ferveu. Tudo aqui aguarda para ser som - os motores, a palavra, o coração, a raiva, a rendição.
A vizinhança só dormirá até às sete. Soltam-se os demónios às sete. Batem se portas às sete. Correm as águas às sete. Peço ajuda aos elementos às sete. O sono volta às sete. 










domingo, 3 de junho de 2018

18 metros quadrados











A mulher que dizem que carrega uma doença dorme. O seu corpo sobressai ligeiramente do colchão da cama articulada onde tem passado os dias.

Estou acamada
Costuma ela dizer, rindo. Rindo sempre.

Ontem foi um dia muito mau mas hoje está finalmente sem dores, e dorme. Cruza as mãos sobre o abdómen de uma forma que quando está acordada não é capaz. Elevam-se e baixam ritmadamente, enquanto eu vigio a sua respiração e leio o pequeno livro de capa azul que trouxe.

Disseram-me para ler esse livro
Diz o filho da mulher, enquanto prepara a medicação e o alimento
Deixo-te ficar, se quiseres
Dou por mim a dizer, sabendo que com isso largo pedaços de alguém que trago na pele como um furúnculo.  

Cada vez menos existe outra escolha para além do sono, ou a dor insuportável. Dou por mim a perguntar a Deus o porquê da necessidade da dor tremenda e contínua; deve ter sido um erro de cálculo, uma peça defeituosa na engrenagem da vida, uma porta enferrujada para a morte.
A vida neste quarto tão perto das gaivotas e das nuvens prateadas, com vista sobre toda a cidade tem sido assim. 18 metros quadrados de vida na profundeza da dor e da esperança.