quinta-feira, 14 de junho de 2018
lucidez
a mulher que dizem ter perdido a lucidez, vira, na cama, o seu corpo franzino e pálido, deixando entrever nas costas, na abertura da t-shirt cortada, as tatuagens coloridas das asas de borboleta
eu aprendi a não deixar que me desrespeitem
murmura
quarta-feira, 13 de junho de 2018
toino
diz a mulher saída daquela comunidade piscatória, povoada de mulheres que perderam os homens na faina
tu precisas é de um homem que saia para o mar durante seis meses e que venha a terra uma semana. de outra maneira não te aguentas
terça-feira, 12 de junho de 2018
Endireita
No local de espera, ao ar livre, onde debaixo de uma ramada
de kiwis tento apanhar réstias de sol que amenizem o frio da nortada que finta o
fino tecido do vestido que trago, o
homem ao meu lado enumera, para que o filho o ouça, diversas formas de matar
pardais; no alpendre, um grilo enjaulado e um canário engaiolado soltam sons
que se quer crer que sejam cantos, e não lamentos; o homem carrancudo à minha
frente tem a unha do dedo mínimo enorme, assim como a unha do polegar do outro que
se senta à minha esquerda, chego a pensar que seja um nail code.
Arrasto a minha cadeira de plástico para o sol e chego a
sentir -me contente por não chover. A mulher do endireita passa com o seu
avental debruado a galinhas, gemendo de dores e agarrada ao abdómen. Espero que
não seja dos ossos que ela se queixa.
ordem nos dias
reinou a calma e o calculo passou a ser exacto.
segunda-feira, 11 de junho de 2018
chove
Ilmatecuhtli acordou ferida do seu sonho, asa tombada na queda do risco mal calculado, vertigem da profundidade de um peito aberto. Conta-se que terá trocado a deusa, a serenidade eterna, pela efemeridade das paixões terrenas. No desencanto certo de um amor desacertado, ferida a deusa e privada do brilho com que acendia a luz nas noites dos céus, quis Hury, o deus das tempestades, eterno protector de Ilmatecuhtli cobrir o céu com um manto espesso de onde apenas trespassavam as gotas das lágrimas das estrelas, fazendo da primavera inverno.
quarta-feira, 6 de junho de 2018
do dia
chegar no momento oportuno ao local certo sendo o intruso que restaura o equilíbrio, ser o silêncio que quebra o ruído.
das aves
segunda-feira, 4 de junho de 2018
às sete
Aguardo pelas sete para pôr a batedeira a trabalhar. A
manteiga está derretida, os ovos separados, a farinha pesada e a água já
ferveu. Tudo aqui aguarda para ser som - os motores, a palavra, o coração, a
raiva, a rendição.
A vizinhança só dormirá até às sete. Soltam-se os demónios
às sete. Batem se portas às sete. Correm as águas às sete. Peço ajuda aos
elementos às sete. O sono volta às sete.
domingo, 3 de junho de 2018
18 metros quadrados
A mulher que dizem que carrega uma doença
dorme. O seu corpo sobressai ligeiramente do colchão da cama articulada onde tem
passado os dias.
Estou acamada
Costuma ela dizer, rindo. Rindo sempre.
Ontem foi um dia muito mau mas hoje está finalmente sem
dores, e dorme. Cruza as mãos sobre o abdómen de uma forma que quando está
acordada não é capaz. Elevam-se e baixam ritmadamente, enquanto eu vigio a sua
respiração e leio o pequeno livro de capa azul que trouxe.
Disseram-me para ler esse livro
Diz o filho da mulher, enquanto prepara a medicação e o
alimento
Deixo-te ficar, se quiseres
Dou por mim a dizer, sabendo que com isso largo pedaços de
alguém que trago na pele como um furúnculo.
Cada vez menos existe outra escolha para além do sono, ou a
dor insuportável. Dou por mim a perguntar a Deus o porquê da necessidade da dor
tremenda e contínua; deve ter sido um erro de cálculo, uma peça defeituosa na
engrenagem da vida, uma porta enferrujada para a morte.
A vida neste quarto tão perto das gaivotas e das nuvens
prateadas, com vista sobre toda a cidade tem sido assim. 18 metros quadrados de vida
na profundeza da dor e da esperança.
da mulher
(...) Não importa de que forma a cultura, a personalidade, a psique ou outro elemento exigem que a mulher se vista ou se comporte (...), não importa quais as pressões com que se tente reprimir a vida espiritual de uma mulher, não conseguirão alterar o facto de que uma mulher é o que é, e que isto é comandado pelo inconsciente selvagem, e que isto é bom, muito, muito bom."
Clarissa Pinkola Estés, As mulheres que correm com os lobos
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