segunda-feira, 11 de junho de 2018

chove








Ilmatecuhtli acordou ferida do seu sonho, asa tombada na queda do risco mal calculado, vertigem da profundidade de um peito aberto. Conta-se que terá trocado a deusa, a serenidade eterna, pela efemeridade das paixões terrenas. No desencanto certo de um amor desacertado, ferida a deusa e privada do brilho com que acendia a luz nas noites dos céus, quis Hury, o deus das tempestades, eterno protector de Ilmatecuhtli  cobrir o céu com um manto espesso de onde apenas trespassavam as gotas das lágrimas das estrelas, fazendo da primavera inverno.






quarta-feira, 6 de junho de 2018

do dia





chegar no momento oportuno ao local certo sendo o intruso que restaura o equilíbrio, ser o silêncio que quebra o ruído. 




das aves







a varanda nunca esteve tão suja. os filhotes saíram do ninho com a indicação de que o refeitório é aqui. por cada uma ave das cerca de 3 dezenas de pardais que já frequentavam a base rectangular de floreira cheia de aveia e a taça com água fresca, juntam-se agora mais cerca de três filhotes por casal. o pisco nunca mais apareceu e os melros vêem sobretudo de madrugada.








segunda-feira, 4 de junho de 2018

às sete








Aguardo pelas sete para pôr a batedeira a trabalhar. A manteiga está derretida, os ovos separados, a farinha pesada e a água já ferveu. Tudo aqui aguarda para ser som - os motores, a palavra, o coração, a raiva, a rendição.
A vizinhança só dormirá até às sete. Soltam-se os demónios às sete. Batem se portas às sete. Correm as águas às sete. Peço ajuda aos elementos às sete. O sono volta às sete. 










domingo, 3 de junho de 2018

18 metros quadrados











A mulher que dizem que carrega uma doença dorme. O seu corpo sobressai ligeiramente do colchão da cama articulada onde tem passado os dias.

Estou acamada
Costuma ela dizer, rindo. Rindo sempre.

Ontem foi um dia muito mau mas hoje está finalmente sem dores, e dorme. Cruza as mãos sobre o abdómen de uma forma que quando está acordada não é capaz. Elevam-se e baixam ritmadamente, enquanto eu vigio a sua respiração e leio o pequeno livro de capa azul que trouxe.

Disseram-me para ler esse livro
Diz o filho da mulher, enquanto prepara a medicação e o alimento
Deixo-te ficar, se quiseres
Dou por mim a dizer, sabendo que com isso largo pedaços de alguém que trago na pele como um furúnculo.  

Cada vez menos existe outra escolha para além do sono, ou a dor insuportável. Dou por mim a perguntar a Deus o porquê da necessidade da dor tremenda e contínua; deve ter sido um erro de cálculo, uma peça defeituosa na engrenagem da vida, uma porta enferrujada para a morte.
A vida neste quarto tão perto das gaivotas e das nuvens prateadas, com vista sobre toda a cidade tem sido assim. 18 metros quadrados de vida na profundeza da dor e da esperança.









da mulher







"A cura, tanto para a mulher ingénua, quanto para a mulher com os seus instintos feridos, é a mesma: praticar uma escuta atenta à nossa intuição, à nossa voz interior; fazer perguntas; ser curiosa; ver a realidade; entender o que se ouve; e depois agir em conformidade com o que se tem por verdade. Estes poderes intuitivos foram nos dados no nosso nascimento. É possível que estejam cobertos por camadas de cinza e excrementos acumulados ao longo de anos sem fim. Não é o fim do mundo, pois tudo isso se pode limpar. Esfregando, raspando e praticando, os nossos poderes perceptivos podem ser novamente retornados ao seu estado primitivo.

(...) Não importa de que forma a cultura, a personalidade, a psique ou outro elemento exigem que a mulher se vista ou se comporte (...), não importa quais as pressões com que se tente reprimir a vida espiritual de uma mulher, não conseguirão alterar o facto de que uma mulher é o que é, e que isto é comandado pelo inconsciente selvagem, e que isto é bom, muito, muito bom."


Clarissa Pinkola Estés, As mulheres que correm com os lobos







sexta-feira, 1 de junho de 2018

o telemóvel










à rita saem-lhe uns fios dos ouvidos, enquanto ela, sentada sozinha na mesa do café, não está na realidade sozinha. fala sorridente para o telemóvel pousado no lugar vazio. no ecrã estava o namorado emigrado em italia, ainda deitado na cama, ombros nus a escaparem do lençol e cabeça de lado, pousada na almofada. conta quem viu que assim estava, e poderá até ter visto mais do que aquilo que conta, dizem as más linguas.

as saudades já não são o que eram
garantem na mesa ao lado - aquela ânsia de ver as faces do ente querido ausente, quase a desvanecer na memória, as rugas que não se viram nascer, os cabelos subitamente prateados. não, as saudades já não são o que eram. rita, vive os dias em directo com o josé, telemóvel no bolso, durante as horas de trabalho, telemóvel na mesa da refeição, telemóvel no chuveiro, garante ela, telemóvel na cabeceira da cama até adormecer. 
e você nem sabe o que mais se pode fazer com o telemóvel ...
desafia-me ela
e nem quero saber
asseguro, vendo o casal de namorados aqui ao lado, com os ditos aparelhos nas mãos, a jogarem um qualquer jogo, cada um, um com o outro.
nem quero saber. 

















quinta-feira, 31 de maio de 2018

Pelos







O gato branco invadiu o meu colo e espalha pelos por toda base do meu corpo ronronando e olhando-me com um olho verde e outro azul.
Eu odeio pelos.
Lá dentro o filho da mulher que dizem que carrega uma doença, arruma a cozinha e faz um bolo de banana. Antes de eu chegar deu lhe banho, penteou-a, preparou lhe fruta e foi -lhe dando lentamente de comer para que ela não vomite.
'Estou cansada de tanta coisa, tenho saudades de ver mundo'
Tinha ela dito ontem antes de eu sair. Foi a primeira vez que a vi triste e entristeci também.
'Acordou bem disposta e já nos rimos muito'
Disse o rapaz pela manhã
Os dois resilientes, os dois resistentes, os dois esperançosos, os dois toda a força de vida.
Eu, cansada e cheia de pelos. Conto sete. Sete gatos. E espero. Disseram -me
'Vem às cinco'
E afinal já passa das seis e só cheguei eu. Eu e os gatos. A mulher lá dentro com o terapeuta. O rapaz a tomar banho.
Tomara à mulher queixar-se apenas dos pelos dos gatos. Pelos por todo lado.







quarta-feira, 30 de maio de 2018

pergunta





têm sido frequentes as vezes em que abro esta página e que escrevo e apago o que escrevo, como se me sentisse responsável pelo que dou a ler, limitando-me eu mesma, a minha liberdade de escrita, e invalidando a minha resposta 'escrevo porque transbordo' à pergunta 'porque escreves?'. 










ouvido







foi na caixa do supermercado, enquanto explicava ao rapaz que me tinha apaixonado por um cão, que deparo com o olhar do homem de calças verde garrafa e sapatos marron, pousado em mim. talvez ouvisse pelos olhos, o homem com quem sonhei toda a noite um sonho de deixar passar os dias sem conseguir tomar um banho de mar.