domingo, 3 de junho de 2018

18 metros quadrados











A mulher que dizem que carrega uma doença dorme. O seu corpo sobressai ligeiramente do colchão da cama articulada onde tem passado os dias.

Estou acamada
Costuma ela dizer, rindo. Rindo sempre.

Ontem foi um dia muito mau mas hoje está finalmente sem dores, e dorme. Cruza as mãos sobre o abdómen de uma forma que quando está acordada não é capaz. Elevam-se e baixam ritmadamente, enquanto eu vigio a sua respiração e leio o pequeno livro de capa azul que trouxe.

Disseram-me para ler esse livro
Diz o filho da mulher, enquanto prepara a medicação e o alimento
Deixo-te ficar, se quiseres
Dou por mim a dizer, sabendo que com isso largo pedaços de alguém que trago na pele como um furúnculo.  

Cada vez menos existe outra escolha para além do sono, ou a dor insuportável. Dou por mim a perguntar a Deus o porquê da necessidade da dor tremenda e contínua; deve ter sido um erro de cálculo, uma peça defeituosa na engrenagem da vida, uma porta enferrujada para a morte.
A vida neste quarto tão perto das gaivotas e das nuvens prateadas, com vista sobre toda a cidade tem sido assim. 18 metros quadrados de vida na profundeza da dor e da esperança.









da mulher







"A cura, tanto para a mulher ingénua, quanto para a mulher com os seus instintos feridos, é a mesma: praticar uma escuta atenta à nossa intuição, à nossa voz interior; fazer perguntas; ser curiosa; ver a realidade; entender o que se ouve; e depois agir em conformidade com o que se tem por verdade. Estes poderes intuitivos foram nos dados no nosso nascimento. É possível que estejam cobertos por camadas de cinza e excrementos acumulados ao longo de anos sem fim. Não é o fim do mundo, pois tudo isso se pode limpar. Esfregando, raspando e praticando, os nossos poderes perceptivos podem ser novamente retornados ao seu estado primitivo.

(...) Não importa de que forma a cultura, a personalidade, a psique ou outro elemento exigem que a mulher se vista ou se comporte (...), não importa quais as pressões com que se tente reprimir a vida espiritual de uma mulher, não conseguirão alterar o facto de que uma mulher é o que é, e que isto é comandado pelo inconsciente selvagem, e que isto é bom, muito, muito bom."


Clarissa Pinkola Estés, As mulheres que correm com os lobos







sexta-feira, 1 de junho de 2018

o telemóvel










à rita saem-lhe uns fios dos ouvidos, enquanto ela, sentada sozinha na mesa do café, não está na realidade sozinha. fala sorridente para o telemóvel pousado no lugar vazio. no ecrã estava o namorado emigrado em italia, ainda deitado na cama, ombros nus a escaparem do lençol e cabeça de lado, pousada na almofada. conta quem viu que assim estava, e poderá até ter visto mais do que aquilo que conta, dizem as más linguas.

as saudades já não são o que eram
garantem na mesa ao lado - aquela ânsia de ver as faces do ente querido ausente, quase a desvanecer na memória, as rugas que não se viram nascer, os cabelos subitamente prateados. não, as saudades já não são o que eram. rita, vive os dias em directo com o josé, telemóvel no bolso, durante as horas de trabalho, telemóvel na mesa da refeição, telemóvel no chuveiro, garante ela, telemóvel na cabeceira da cama até adormecer. 
e você nem sabe o que mais se pode fazer com o telemóvel ...
desafia-me ela
e nem quero saber
asseguro, vendo o casal de namorados aqui ao lado, com os ditos aparelhos nas mãos, a jogarem um qualquer jogo, cada um, um com o outro.
nem quero saber. 

















quinta-feira, 31 de maio de 2018

Pelos







O gato branco invadiu o meu colo e espalha pelos por toda base do meu corpo ronronando e olhando-me com um olho verde e outro azul.
Eu odeio pelos.
Lá dentro o filho da mulher que dizem que carrega uma doença, arruma a cozinha e faz um bolo de banana. Antes de eu chegar deu lhe banho, penteou-a, preparou lhe fruta e foi -lhe dando lentamente de comer para que ela não vomite.
'Estou cansada de tanta coisa, tenho saudades de ver mundo'
Tinha ela dito ontem antes de eu sair. Foi a primeira vez que a vi triste e entristeci também.
'Acordou bem disposta e já nos rimos muito'
Disse o rapaz pela manhã
Os dois resilientes, os dois resistentes, os dois esperançosos, os dois toda a força de vida.
Eu, cansada e cheia de pelos. Conto sete. Sete gatos. E espero. Disseram -me
'Vem às cinco'
E afinal já passa das seis e só cheguei eu. Eu e os gatos. A mulher lá dentro com o terapeuta. O rapaz a tomar banho.
Tomara à mulher queixar-se apenas dos pelos dos gatos. Pelos por todo lado.







quarta-feira, 30 de maio de 2018

pergunta





têm sido frequentes as vezes em que abro esta página e que escrevo e apago o que escrevo, como se me sentisse responsável pelo que dou a ler, limitando-me eu mesma, a minha liberdade de escrita, e invalidando a minha resposta 'escrevo porque transbordo' à pergunta 'porque escreves?'. 










ouvido







foi na caixa do supermercado, enquanto explicava ao rapaz que me tinha apaixonado por um cão, que deparo com o olhar do homem de calças verde garrafa e sapatos marron, pousado em mim. talvez ouvisse pelos olhos, o homem com quem sonhei toda a noite um sonho de deixar passar os dias sem conseguir tomar um banho de mar.








terça-feira, 29 de maio de 2018

um cortezinho e estava feito










dona cecília tem 86 anos e vive aqui no prédio com uma senhora brasileira que lhe faz companhia a partir do fim das tardes de todos os dias. a minha vizinha, a dona cecília, é uma pessoa activa, dentro dos horários dela ,que a levam a deitar-se por volta das duas da manhã e, por isso, a levantar-se tarde. ela faz com muito gosto e talento, trabalhos de mãos, pinta, borda, constrói presépios e peças alegóricas à época que se estiver a atravessar. 
a dona cecília tem insuficiência renal e há vários anos que vive na iminência de ter que se submeter a hemodiálise. no entanto, com cuidados de saúde, regras na alimentação e uma vida activa, a minha vizinha tem escapado a essa sina. entretanto, entendeu a médica por bem colocar-lhe um cateter para a eventualidade de precisar do tratamento. ficaria o trabalho adiantado, alegavam, alegação que não a convencia, pois, achava ela que no corpo dela mandava ela, e não queria tubos enfiados no abdómen. que não custava nada, diziam-lhe todos, que era só um cortezinho e estava feito, que no dia seguinte já estava de volta à sua casa, aos seus lavores, às suas amigas viúvas. e a dona cecília adiou por duas vezes, justificando com compromissos sociais, na esperança de que o assunto perdesse a validade.
mas os médicos continuavam, e filha e genro continuavam, que não custa nada, que entra num dia e sai no outro, que se não o fizer pode ter complicações, e a dona cecília concordou, por consideração a quem não considerava a vontade dela.
então afinal no corpo que era dela, e com a melhor das intenções, foi-lhe feito um grande corte, uma ferida que sangra sem aviso, e instalou-se-lhe um mal-estar que não se ajusta a um corpo de 86 anos.
que foi enganada, diz dona cecília, que caiu numa tristeza profunda, corpo aberto sem querer, mexido e remexido por dentro, sangrando em sinal de protesto. 
foi com a melhor das intenções, sem dúvida, e um acto perfeitamente legal que leva a pensar a abrangência das leis, a desvalorização da capacidade de decidir, e as intenções dos outros.


















segunda-feira, 28 de maio de 2018

voltas







o homem ao meu lado, no balcão da farmácia, tremia ao segurar na receita enquanto a farmacêutica perguntava-lhe, notando-lhe a dificuldade em decidir
quer levar? ... o preço que está aí é do genérico...
eu reconheci nele as tremuras que tinha o meu pai e o nome do medicamento para o parkinson. caro, muito caro
posso pagar depois...
hesitou, com o papel na mão, todo ele curvado sobre o valor do remédio, todo ele rendido à realidade da doença, todo ele incapacidade económica, todo ele solidão, perante isabel, que, sabe deus o coração dela doído de bondade e de tristezas lá da vida dela, e ao meu lado, também eu renitente em comprar o remédio que faz o meu coração não descompassar
levo o papel para saber quanto devo
tremeu-lhe a voz e a mão, enquanto guardava a dívida na carteira parca em dinheiro
e eu ali, silenciosa, a roçar de tantas formas a realidade dele, e a deixá-lo seguir, sem deitar-lhe a mão, com seus passos pequenos, para uma vida que certamente trocou-lhe as voltas









domingo, 27 de maio de 2018

rafeira outra vez








E sim, há mulheres rafeiras, e homens rafeiros também. E, neste caso, se utilizo o termo rafeiro, eu que não sou capaz de metáforas nem de figuras de estilo, é porque me refiro a mulheres (ou homens) que não respeitam no outro, os sentimentos, as emoções, os ideais, a condição física e as circunstâncias de vida. Aqui, especificamente, referia-me a uma criatura feminina.

Claro que ao utilizar este termo, não quero de forma alguma insultar os cães rafeiros. Ontem conheci o Bongo, um cão encantador.

E se quiserem discordar do que escrevo, destes textos tão sem importância que aqui deixo sem ainda saber porquê, devem fazê-lo aqui, a caixa está aberta.








sexta-feira, 25 de maio de 2018

da distância







Nostalgia do Presente

Naquele preciso momento o homem disse:
«O que eu daria pela felicidade
de estar ao teu lado na Islândia
sob o grande dia imóvel
e de repartir o agora
como se reparte a música
ou o sabor de um fruto.»
Naquele preciso momento
o homem estava junto dela na Islândia.



Jorge Luís Borges