sexta-feira, 1 de junho de 2018

o telemóvel










à rita saem-lhe uns fios dos ouvidos, enquanto ela, sentada sozinha na mesa do café, não está na realidade sozinha. fala sorridente para o telemóvel pousado no lugar vazio. no ecrã estava o namorado emigrado em italia, ainda deitado na cama, ombros nus a escaparem do lençol e cabeça de lado, pousada na almofada. conta quem viu que assim estava, e poderá até ter visto mais do que aquilo que conta, dizem as más linguas.

as saudades já não são o que eram
garantem na mesa ao lado - aquela ânsia de ver as faces do ente querido ausente, quase a desvanecer na memória, as rugas que não se viram nascer, os cabelos subitamente prateados. não, as saudades já não são o que eram. rita, vive os dias em directo com o josé, telemóvel no bolso, durante as horas de trabalho, telemóvel na mesa da refeição, telemóvel no chuveiro, garante ela, telemóvel na cabeceira da cama até adormecer. 
e você nem sabe o que mais se pode fazer com o telemóvel ...
desafia-me ela
e nem quero saber
asseguro, vendo o casal de namorados aqui ao lado, com os ditos aparelhos nas mãos, a jogarem um qualquer jogo, cada um, um com o outro.
nem quero saber. 

















quinta-feira, 31 de maio de 2018

Pelos







O gato branco invadiu o meu colo e espalha pelos por toda base do meu corpo ronronando e olhando-me com um olho verde e outro azul.
Eu odeio pelos.
Lá dentro o filho da mulher que dizem que carrega uma doença, arruma a cozinha e faz um bolo de banana. Antes de eu chegar deu lhe banho, penteou-a, preparou lhe fruta e foi -lhe dando lentamente de comer para que ela não vomite.
'Estou cansada de tanta coisa, tenho saudades de ver mundo'
Tinha ela dito ontem antes de eu sair. Foi a primeira vez que a vi triste e entristeci também.
'Acordou bem disposta e já nos rimos muito'
Disse o rapaz pela manhã
Os dois resilientes, os dois resistentes, os dois esperançosos, os dois toda a força de vida.
Eu, cansada e cheia de pelos. Conto sete. Sete gatos. E espero. Disseram -me
'Vem às cinco'
E afinal já passa das seis e só cheguei eu. Eu e os gatos. A mulher lá dentro com o terapeuta. O rapaz a tomar banho.
Tomara à mulher queixar-se apenas dos pelos dos gatos. Pelos por todo lado.







quarta-feira, 30 de maio de 2018

pergunta





têm sido frequentes as vezes em que abro esta página e que escrevo e apago o que escrevo, como se me sentisse responsável pelo que dou a ler, limitando-me eu mesma, a minha liberdade de escrita, e invalidando a minha resposta 'escrevo porque transbordo' à pergunta 'porque escreves?'. 










ouvido







foi na caixa do supermercado, enquanto explicava ao rapaz que me tinha apaixonado por um cão, que deparo com o olhar do homem de calças verde garrafa e sapatos marron, pousado em mim. talvez ouvisse pelos olhos, o homem com quem sonhei toda a noite um sonho de deixar passar os dias sem conseguir tomar um banho de mar.








terça-feira, 29 de maio de 2018

um cortezinho e estava feito










dona cecília tem 86 anos e vive aqui no prédio com uma senhora brasileira que lhe faz companhia a partir do fim das tardes de todos os dias. a minha vizinha, a dona cecília, é uma pessoa activa, dentro dos horários dela ,que a levam a deitar-se por volta das duas da manhã e, por isso, a levantar-se tarde. ela faz com muito gosto e talento, trabalhos de mãos, pinta, borda, constrói presépios e peças alegóricas à época que se estiver a atravessar. 
a dona cecília tem insuficiência renal e há vários anos que vive na iminência de ter que se submeter a hemodiálise. no entanto, com cuidados de saúde, regras na alimentação e uma vida activa, a minha vizinha tem escapado a essa sina. entretanto, entendeu a médica por bem colocar-lhe um cateter para a eventualidade de precisar do tratamento. ficaria o trabalho adiantado, alegavam, alegação que não a convencia, pois, achava ela que no corpo dela mandava ela, e não queria tubos enfiados no abdómen. que não custava nada, diziam-lhe todos, que era só um cortezinho e estava feito, que no dia seguinte já estava de volta à sua casa, aos seus lavores, às suas amigas viúvas. e a dona cecília adiou por duas vezes, justificando com compromissos sociais, na esperança de que o assunto perdesse a validade.
mas os médicos continuavam, e filha e genro continuavam, que não custa nada, que entra num dia e sai no outro, que se não o fizer pode ter complicações, e a dona cecília concordou, por consideração a quem não considerava a vontade dela.
então afinal no corpo que era dela, e com a melhor das intenções, foi-lhe feito um grande corte, uma ferida que sangra sem aviso, e instalou-se-lhe um mal-estar que não se ajusta a um corpo de 86 anos.
que foi enganada, diz dona cecília, que caiu numa tristeza profunda, corpo aberto sem querer, mexido e remexido por dentro, sangrando em sinal de protesto. 
foi com a melhor das intenções, sem dúvida, e um acto perfeitamente legal que leva a pensar a abrangência das leis, a desvalorização da capacidade de decidir, e as intenções dos outros.


















segunda-feira, 28 de maio de 2018

voltas







o homem ao meu lado, no balcão da farmácia, tremia ao segurar na receita enquanto a farmacêutica perguntava-lhe, notando-lhe a dificuldade em decidir
quer levar? ... o preço que está aí é do genérico...
eu reconheci nele as tremuras que tinha o meu pai e o nome do medicamento para o parkinson. caro, muito caro
posso pagar depois...
hesitou, com o papel na mão, todo ele curvado sobre o valor do remédio, todo ele rendido à realidade da doença, todo ele incapacidade económica, todo ele solidão, perante isabel, que, sabe deus o coração dela doído de bondade e de tristezas lá da vida dela, e ao meu lado, também eu renitente em comprar o remédio que faz o meu coração não descompassar
levo o papel para saber quanto devo
tremeu-lhe a voz e a mão, enquanto guardava a dívida na carteira parca em dinheiro
e eu ali, silenciosa, a roçar de tantas formas a realidade dele, e a deixá-lo seguir, sem deitar-lhe a mão, com seus passos pequenos, para uma vida que certamente trocou-lhe as voltas









domingo, 27 de maio de 2018

rafeira outra vez








E sim, há mulheres rafeiras, e homens rafeiros também. E, neste caso, se utilizo o termo rafeiro, eu que não sou capaz de metáforas nem de figuras de estilo, é porque me refiro a mulheres (ou homens) que não respeitam no outro, os sentimentos, as emoções, os ideais, a condição física e as circunstâncias de vida. Aqui, especificamente, referia-me a uma criatura feminina.

Claro que ao utilizar este termo, não quero de forma alguma insultar os cães rafeiros. Ontem conheci o Bongo, um cão encantador.

E se quiserem discordar do que escrevo, destes textos tão sem importância que aqui deixo sem ainda saber porquê, devem fazê-lo aqui, a caixa está aberta.








sexta-feira, 25 de maio de 2018

da distância







Nostalgia do Presente

Naquele preciso momento o homem disse:
«O que eu daria pela felicidade
de estar ao teu lado na Islândia
sob o grande dia imóvel
e de repartir o agora
como se reparte a música
ou o sabor de um fruto.»
Naquele preciso momento
o homem estava junto dela na Islândia.



Jorge Luís Borges






quinta-feira, 24 de maio de 2018

rafeira








é gaja
murmuro falando sozinha
a porcaria das gajas
penso, sem dizê-lo em voz alta para não lhes rogar praga, e porque o termo é feio, mas espelha com precisão o que sinto
fazem deles gato-sapato, viram a cabeça do avesso, ridicularizam, desvalorizam, gozam. se lhes sai uma rafeira na rifa, eles caem que nem uns patos e andam a penar, a chorar baba e ranho. 
os homens são uns frangalhos, um jogo nas mãos delas. a porcaria dos instintos, básicos, a necessidade do corpo a enublar-lhes a capacidade de raciocinar.
conto-lhes cinco dias. cinco dias com o coração fora do peito. cinco dias enclausurados. cinco dias calada. cinco dias vigilante. 
e passa.
recolho o coração, desfaço a vigília, mantenho a atenção e cuido da minha ferida que secou, aberta, há tanto tempo. 










quarta-feira, 23 de maio de 2018

dos dias






...
deixa-me ajudar-te, pai. deixa-me ajudar-te
não, não. leva a comida que eu levo os sacos
responde o homem que equilibra no guiador da bicicleta três sacos pesados demais. mas sorria, enquanto o filho ia insistindo
deixa-me ajudar-te, pai
e sorria. e eu sorri para ele. e o filho naquela aflição de querer ajudar o pai. e o pai a brincar
eu não morro nem perco as calças
e eu a pensar que deus está no meio de nós, naquela simplicidade, naquele amor, naquela alegria
...
foi quando a mulher perdeu a confiança, que a doença ganhou força e se mostrou
a mulher que amparava os seus desabafos ainda lhe disse
volta ao ponto em que pioraste. aí, repara o que mudaste em ti, e refaz
mas quando se perde a confiança não há retorno. 
...