quarta-feira, 30 de maio de 2018
pergunta
têm sido frequentes as vezes em que abro esta página e que escrevo e apago o que escrevo, como se me sentisse responsável pelo que dou a ler, limitando-me eu mesma, a minha liberdade de escrita, e invalidando a minha resposta 'escrevo porque transbordo' à pergunta 'porque escreves?'.
ouvido
terça-feira, 29 de maio de 2018
um cortezinho e estava feito
a dona cecília tem insuficiência renal e há vários anos que vive na iminência de ter que se submeter a hemodiálise. no entanto, com cuidados de saúde, regras na alimentação e uma vida activa, a minha vizinha tem escapado a essa sina. entretanto, entendeu a médica por bem colocar-lhe um cateter para a eventualidade de precisar do tratamento. ficaria o trabalho adiantado, alegavam, alegação que não a convencia, pois, achava ela que no corpo dela mandava ela, e não queria tubos enfiados no abdómen. que não custava nada, diziam-lhe todos, que era só um cortezinho e estava feito, que no dia seguinte já estava de volta à sua casa, aos seus lavores, às suas amigas viúvas. e a dona cecília adiou por duas vezes, justificando com compromissos sociais, na esperança de que o assunto perdesse a validade.
mas os médicos continuavam, e filha e genro continuavam, que não custa nada, que entra num dia e sai no outro, que se não o fizer pode ter complicações, e a dona cecília concordou, por consideração a quem não considerava a vontade dela.
então afinal no corpo que era dela, e com a melhor das intenções, foi-lhe feito um grande corte, uma ferida que sangra sem aviso, e instalou-se-lhe um mal-estar que não se ajusta a um corpo de 86 anos.
que foi enganada, diz dona cecília, que caiu numa tristeza profunda, corpo aberto sem querer, mexido e remexido por dentro, sangrando em sinal de protesto.
foi com a melhor das intenções, sem dúvida, e um acto perfeitamente legal que leva a pensar a abrangência das leis, a desvalorização da capacidade de decidir, e as intenções dos outros.
segunda-feira, 28 de maio de 2018
voltas
quer levar? ... o preço que está aí é do genérico...
eu reconheci nele as tremuras que tinha o meu pai e o nome do medicamento para o parkinson. caro, muito caro
posso pagar depois...
hesitou, com o papel na mão, todo ele curvado sobre o valor do remédio, todo ele rendido à realidade da doença, todo ele incapacidade económica, todo ele solidão, perante isabel, que, sabe deus o coração dela doído de bondade e de tristezas lá da vida dela, e ao meu lado, também eu renitente em comprar o remédio que faz o meu coração não descompassar
levo o papel para saber quanto devo
tremeu-lhe a voz e a mão, enquanto guardava a dívida na carteira parca em dinheiro
e eu ali, silenciosa, a roçar de tantas formas a realidade dele, e a deixá-lo seguir, sem deitar-lhe a mão, com seus passos pequenos, para uma vida que certamente trocou-lhe as voltas
domingo, 27 de maio de 2018
rafeira outra vez
Claro que ao utilizar este termo, não quero de forma alguma insultar os cães rafeiros. Ontem conheci o Bongo, um cão encantador.
E se quiserem discordar do que escrevo, destes textos tão sem importância que aqui deixo sem ainda saber porquê, devem fazê-lo aqui, a caixa está aberta.
sexta-feira, 25 de maio de 2018
da distância
Nostalgia do Presente
Naquele preciso momento o homem disse:
«O que eu daria pela felicidade
de estar ao teu lado na Islândia
sob o grande dia imóvel
e de repartir o agora
como se reparte a música
ou o sabor de um fruto.»
Naquele preciso momento
o homem estava junto dela na Islândia.
Jorge Luís Borges
quinta-feira, 24 de maio de 2018
rafeira
murmuro falando sozinha
a porcaria das gajas
penso, sem dizê-lo em voz alta para não lhes rogar praga, e porque o termo é feio, mas espelha com precisão o que sinto
fazem deles gato-sapato, viram a cabeça do avesso, ridicularizam, desvalorizam, gozam. se lhes sai uma rafeira na rifa, eles caem que nem uns patos e andam a penar, a chorar baba e ranho.
os homens são uns frangalhos, um jogo nas mãos delas. a porcaria dos instintos, básicos, a necessidade do corpo a enublar-lhes a capacidade de raciocinar.
conto-lhes cinco dias. cinco dias com o coração fora do peito. cinco dias enclausurados. cinco dias calada. cinco dias vigilante.
e passa.
recolho o coração, desfaço a vigília, mantenho a atenção e cuido da minha ferida que secou, aberta, há tanto tempo.
quarta-feira, 23 de maio de 2018
dos dias
...
deixa-me ajudar-te, pai. deixa-me ajudar-tenão, não. leva a comida que eu levo os sacos
responde o homem que equilibra no guiador da bicicleta três sacos pesados demais. mas sorria, enquanto o filho ia insistindo
deixa-me ajudar-te, pai
e sorria. e eu sorri para ele. e o filho naquela aflição de querer ajudar o pai. e o pai a brincar
eu não morro nem perco as calças
e eu a pensar que deus está no meio de nós, naquela simplicidade, naquele amor, naquela alegria
...
foi quando a mulher perdeu a confiança, que a doença ganhou força e se mostrou
a mulher que amparava os seus desabafos ainda lhe disse
volta ao ponto em que pioraste. aí, repara o que mudaste em ti, e refaz
mas quando se perde a confiança não há retorno.
...
espaço
diz o homem terra quando lhe confesso que envio reiki à distância e que o rapaz no dia seguinte está
completamente diferente. fica um doce. ele não sabe, e absorve tudo ...
eu sei
diz ele com o olhar alagado de compaixão
mas não deves. ele tem que viver a sua dor, a sua revolta. ao fazeres isso, estás a interferir no processo dele, naquilo a que ele se propôs para esta vida, assim como no teu processo, também. impedes que ele cresça com a sua dor e impedes o teu crescimento também. não deves fazer isso
diz-me, enquanto eu penso que pelo sorriso de um filho eu recorreria a tudo. a reiki, magia branca ou negra, umbanda, candomblé ou vudu, promessas, Ho’Oponopono, juras e novenas, eu deitaria mão a tudo
[dizem que deus só nos dá a dor que nós conseguimos suportar, mas ele esqueceu-se de ajustar a isso o coração das mães ao fazer os filhos crescer dentro delas, ser carne da sua carne, alimentar-se do seu sangue, ocupar o seu corpo, ser fonte de todos os seus medos, de toda sua vulnerabilidade, ser o seu sono ou insónia. como é que pode um filho não ser da sua mãe?]
pede ao teu anjo da guarda que ajude o anjo da guarda dele a encaminhá-lo
diz o homem terra
terça-feira, 22 de maio de 2018
inútil
assim o fizesse com ele.
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