segunda-feira, 21 de maio de 2018

das árvores






silencio a pergunta o que tenho que aprender com ele?, e enquanto o meu olhar se fixa nas árvores que ondulam diante mim, conforme o vento, conforme a resistência dos ramos, conforme as aves, é delas que me vem a resposta , a impermanência, a maleabilidade, a dança, a verticalidade.









domingo, 20 de maio de 2018

bem









estás bem?
sim, só tenho problemas de dinheiro. felizmente
e depois, reflectindo melhor, sorri
sim, é só problema de dinheiro. felizmente...
e ele também sorri, sem contradizer, sem argumentar como é seu hábito






fácil










enquanto deixo deslizar pelo meu corpo o fino vestido que me há-de cobrir a nudez, para ir encontrar o homem que fala com a alma, lembro da cecília do pomar, ao ver-me entrar na loja
ah...a dona ana hoje vem fácil
e eu parada a ouvir devagarinho o 
fácil
vestia eu uma saia comprida, duas túnicas e calçava uma alpergatas
fácil?
e demorei algum tempo a perceber o porquê. para mim, fáceis, são os vestidos porque dão-me pouco que pensar
estás bonita com esse vestido
disse-me o homem
pareces saída dos anos 60...
mas não disse que eu ia fácil, mas sim
serias uma hippy se alinhasses na filisofia de amor livre
sorri
mas alinho. eu defendo o amor livre









sexta-feira, 18 de maio de 2018

acha que é amor?











a mulher que finalmente conseguiu deitar-se com o homem que tem uma vida que ela quer para ela, diz que acha que mexeu com ele
ele agora fala mais comigo. mexi com ele
eu, que a ouço, penso que seria difícil ela deitar-se com ele sem mexer com ele mexendo nele, mas não lhe digo 
acha que é amor?
pergunta-me, ao que lhe respondo com o costume
ah...certamente o sentimento irá crescendo
já lhe ouvi a pergunta 
acha que é amor? 
referindo-se a uma dezena de homens diferentes, com os quais ela ficaria, se eles ficassem. homens que quiseram uma noite com ela, homens que a agrediram, homens com quem teve filhos, homens que quiseram o dinheiro dela, homens com vícios, homens prepotentes, homens manipuladores. a pergunta foi sempre a mesma
acha que é amor?
e eu ali, sem saber o que lhe dizer, porque de amor eu não percebo nada, mas admirando a persistência dela argumentando
sabe que eu sou sozinha para tudo, para tudo...
e o tudo dela, é ela e dois filhos que fez com dois desses homens. e então ela vem insistindo, a cada homem com que mexe
será que mexi com ele? acha que é amor?
e eu, comovida com aquela ingenuidade e esperançando, também eu, por ela, vou-lhe dizendo
ah... pode ser, o amor cultiva-se e pode ir crescendo
e depois com o tempo, ganhando coragem para a desiludir
não. não vá por aí
mas a mulher não desiste e ao longo de tantos anos, continua
acha que é amor?
e eu sem saber em que esquina da minha vida deixei de me perguntar se é amor ou se alguma vez vi o amor em mim, para poder identificar um possível amor, nela












quinta-feira, 17 de maio de 2018

talvez








eu não sei há quanto tempo as cores se tornaram tão vivas para mim, mas não foi há muito. um dia, ao aproximar-me da beira do rio, admirei-me com o verde da outra margem e surpreendi-me com a cor branca do kayak que cortava o cintilante escuro da água. também já há algum tempo que, sempre que posso, passo horas, neste aparvalhamento de não fazer nada, a olhar para os tons luminosos das folhas das árvores ao moverem-se ao sabor do vento, e nas tonalidades prateadas das nuvens no céu, quando o firmamento não me apresenta este azul monótono, como hoje.
...
esta manhã, com os raios do nascer do sol a incidir na mesa onde tomo o pequeno-almoço, reparava na cor de laranja da tangerina que descascava, e surpreendi-me com a perfeição dos gomos e o seu sumo doce ao desfazerem-se na minha boca. juntei os pequenos caroços, um a um, um potencial de vida, um pomar de tangerineiras.
- o que é isto?
pergunta-me um dos rapazes durante o almoço
- é um pomar de tangerineiras
arqueia as sobrancelhas, olha-me de lado, mas eu insisto
- não achas? já viste como é fantástico? a qualidade e a potencialidade de um pequenino caroço...
encolhe os ombros, emite um sei lá, e eu penso que chegará um dia em que ele verá, também, num amontoado de caroços, um pomar, e talvez pense que só por isso, por tamanha complexidade em algo tão simples, possa existir deus
















domingo, 13 de maio de 2018

sábado, 12 de maio de 2018

senão





a mulher é jovem, bonita, inteligente, perspicaz. é boa influência e sabe estar, adapta-se e sabe evitar com descrição situações em que possa estar em desvantagem. mas falta-lhe a leveza, a alegria, e o tempero da vida, a loucura e a infância.







quinta-feira, 10 de maio de 2018

do dia






poder andar, respirar, a cor das flores silvestres, a mansidão do rio, a neblina, as ondas do mar, os bandos de patos e de gaivotas que me sobrevoam, o aconchego das árvores, as pessoas amáveis, o filho que é uma esponja ao reiki que lhe envio sem que o saiba, o ansiolítico no bolso que nunca tomo, a areia dentro das sapatilhas desde domingo, a comida na mesa, a mãe, a gratidão, o telemóvel avariado, a temperatura amena, a pele, o sorrir da mulher doente, o duche quente, o abrigo, o aconchego, as lágrimas por ele, o cuidado.






quarta-feira, 9 de maio de 2018

terça-feira, 8 de maio de 2018

Do dia







Envergonho-me por apenas ter para contar
- acho que só trabalhei o dia todo
Quando a mulher que dizem que carrega uma doença me pergunta como foi o meu dia
- e acho que foi igual ao de ontem
Talvez se ela pudesse, o dia dela seria de se sentir bem. Mas
- eu nem isso. Não saí daqui
Fui levar-lhe uma canja da avó judia e acho que isso salvou o meu dia, apesar do vento que quase me impediu de caminhar
...
Preparo um banho com flores frescas de alfazema e as minhas intenções são tão de dentro, que o meu corpo ferve sem ainda ter sido tocado pela água