sábado, 12 de maio de 2018

senão





a mulher é jovem, bonita, inteligente, perspicaz. é boa influência e sabe estar, adapta-se e sabe evitar com descrição situações em que possa estar em desvantagem. mas falta-lhe a leveza, a alegria, e o tempero da vida, a loucura e a infância.







quinta-feira, 10 de maio de 2018

do dia






poder andar, respirar, a cor das flores silvestres, a mansidão do rio, a neblina, as ondas do mar, os bandos de patos e de gaivotas que me sobrevoam, o aconchego das árvores, as pessoas amáveis, o filho que é uma esponja ao reiki que lhe envio sem que o saiba, o ansiolítico no bolso que nunca tomo, a areia dentro das sapatilhas desde domingo, a comida na mesa, a mãe, a gratidão, o telemóvel avariado, a temperatura amena, a pele, o sorrir da mulher doente, o duche quente, o abrigo, o aconchego, as lágrimas por ele, o cuidado.






quarta-feira, 9 de maio de 2018

terça-feira, 8 de maio de 2018

Do dia







Envergonho-me por apenas ter para contar
- acho que só trabalhei o dia todo
Quando a mulher que dizem que carrega uma doença me pergunta como foi o meu dia
- e acho que foi igual ao de ontem
Talvez se ela pudesse, o dia dela seria de se sentir bem. Mas
- eu nem isso. Não saí daqui
Fui levar-lhe uma canja da avó judia e acho que isso salvou o meu dia, apesar do vento que quase me impediu de caminhar
...
Preparo um banho com flores frescas de alfazema e as minhas intenções são tão de dentro, que o meu corpo ferve sem ainda ter sido tocado pela água









segunda-feira, 7 de maio de 2018

o homem-criança








quando cheguei a casa da mulher que dizem que carrega uma doença, ela estava sentada no sofá com a expressão de um pardal que caiu cedo demais do ninho. ao lado dela, o homem-criança descascava, e partia em pedacinhos, fruta, que ia caindo para uma taça, colocada entre os dois. 
ele descasca a fruta com a cabeça inclinada para o seu lado esquerdo trincando a língua, que tem ligeiramente fora da boca, dobrada, numa figura cómica. mas eu chego lá tão cansada que nem brinco com ele. de vez em quando, oferece-nos, com a ponta da faca, pedaços de morango, maçã, ou manga desfeita, por ser madura demais.
a mulher que dizem que carrega uma doença, vai-se movendo com cautela, sem sair do lugar, como se tentasse escapar às dores que, nos últimos tempos, têm tomado conta do seu corpo franzino. digo-lhe que está bonita, que tem o cabelo bem entrançado.
- foi ele
responde, com o olhar implorando alívio a algo invisível
- ele fez-me uma massagem com óleos, fez-me uma limpeza energética, penteou-me, deu de comer aos gatos, limpou a areia, separou o lixo, limpou-me a casa e agora está a fazer salada de fruta para o jantar.

o homem-criança, não lhe é nada, e é-lhe muitas vezes tudo
- ele recusa crescer
dizia-me ela frequentemente
- estou cansada disso, não quero ficar mais com ele
e foi por isso que eles se separaram
lembro-me de há tempos ela perguntar
- o que é que eu tenho que aprender com ele?
e o oráculo da dona fernanda, antes de ser enterrado por baixo das raízes da arruda, a responder-lhe
- a ser criança, aprender a infância com ele. a leveza, a alegria, o desprendimento
então eu, também
- aprende a infância com ele
a tentar que ela entendesse. e ela entendia, mas não sentia, e sentir é um entendimento maior, é um entendimento que fica por dentro, paredes meias com o coração

o homem-criança saltita na casa dela, numa alegria que tenta derrotar a tristeza
- eu acredito que ela se vai curar. vocês parecem uma múmias...
ralha-nos
e eu abraço aquele homem-criança e renovo em mim toda a inocência da infância, a esperança, e, com sorte, a confiança, também, e rio com ele.








domingo, 6 de maio de 2018

mãe





















e de manhã encaminho-me para o local onde sinto que eu e ela somos unas, e percorro o areal pela orla molhada que deixa as ondas mansas do mar. é o meu corpo todo que a sente, e deitada na areia húmida, ouço o ressoar do batimento do meu coração, no interior pulsante da terra. num gesto que trago, não sei de que vidas, colho o mar na concha das minhas mãos, e beijo a água com que molho o centro da minha testa. agradeço à mãe terra, útero da mãe divina, o acolhimento e o lar, agradeço esta encarnação num corpo feminino, agradeço a vida que já vivi e o que me é permitido sentir, agradeço a pele e a união, agradeço o caminho.










(blogo)Smile





















recordo-me que costumava ser o primeiro blogue da manhã. era raro o dia que não começasse lendo um texto da Miss Smile, e raro o texto que não me obrigasse a reflectir. é também uma das mulheres da minha (blogo)vida, e coincidimos nas (blogo)ligações que temos. 














sexta-feira, 4 de maio de 2018

net







conta-me amélia:
esqueci-me de lhe perguntar o sexo. na verdade, também nunca lhe tinha perguntado o nome, nem a idade, nem a profissão, nem o estado civil. enganei-me nas prioridades. primeiro construí um sentimento, depois uma imagem.
foi de noite, enquanto dormia, que recebi uma mensagem 'o meu nome é carmo, sou mulher'. mas o meu sentimento não tinha género.
















terça-feira, 1 de maio de 2018

a mulher









nunca falei sobre ela. não sei o seu nome nem a sua profissão.
conheço a mulher de vista há cerca de vinte anos. as nossas rotinas cruzam-se frequentemente, e, devido a isso, cumprimentamo-nos sempre com um bom dia ou uma boa tarde. dela, sei o que vejo - um sorriso, um braço defeituoso, uma aparência cuidada, e habituada a fazer as compras e a carregar os sacos apenas com o braço saudável.
depois de algum tempo sem a ver, acabo por a encontrar no supermercado, como de costume, mas com o rosto inchado e a pele com um tom avermelhado. o sorriso era o mesmo e o desembaraço com as compras, igual. em conversa de mim para mim, achei provável que se tratasse de uma alergia. o bom dia foi igual, a expressão do rosto a mesma de sempre.
ontem, encontrei-a na caixa do mesmo supermercado. o rosto ainda mais volumoso, o braço doente igualmente dilatado e a pele que estava visível, de cor vermelho escuro. a agravar, um dos olhos apresentava uma cor leitosa. já o sorriso, era o mesmo, assim como o desejo de um bom dia.
eu acho que o sorriso dela, é pela alegria de cada dia. enquanto a seguia com o olhar, à medida que se afastava, fiquei a pensar que há sorrisos que pousam em nós como bênçãos, como quem indica um caminho, como algo maior do que a vida.







segunda-feira, 30 de abril de 2018

das manhãs





não tenho memória de haver tanto tempo seguido de céus tão esplendorosos. tantos degradés de cinza luminosos, entre-cortados de azul, e tantas tonalidades de coral, a esta hora em que nasce o sol. e de vez em quando chove, graças aos céus que chove, que caem verdadeiras enxurradas para logo a seguir aparecer um sol limpo e alegre sacudido a vento. a terra está contente.
...
todos os dias me lembro da CC a propósito de um comentário onde me escreveu 'Viver é tão bom que nunca me ocorreu que precisasse de um sentido. É poder ver o amanhecer, o rio, o sol e a chuva, o anoitecer, um banho de mar, uma comida saborosa...'