terça-feira, 8 de maio de 2018
Do dia
Envergonho-me por apenas ter para contar
- acho que só trabalhei o dia todo
Quando a mulher que dizem que carrega uma doença me pergunta como foi o meu dia
- e acho que foi igual ao de ontem
Talvez se ela pudesse, o dia dela seria de se sentir bem. Mas
- eu nem isso. Não saí daqui
Fui levar-lhe uma canja da avó judia e acho que isso salvou o meu dia, apesar do vento que quase me impediu de caminhar
...
Preparo um banho com flores frescas de alfazema e as minhas intenções são tão de dentro, que o meu corpo ferve sem ainda ter sido tocado pela água
segunda-feira, 7 de maio de 2018
o homem-criança
ele descasca a fruta com a cabeça inclinada para o seu lado esquerdo trincando a língua, que tem ligeiramente fora da boca, dobrada, numa figura cómica. mas eu chego lá tão cansada que nem brinco com ele. de vez em quando, oferece-nos, com a ponta da faca, pedaços de morango, maçã, ou manga desfeita, por ser madura demais.
a mulher que dizem que carrega uma doença, vai-se movendo com cautela, sem sair do lugar, como se tentasse escapar às dores que, nos últimos tempos, têm tomado conta do seu corpo franzino. digo-lhe que está bonita, que tem o cabelo bem entrançado.
- foi ele
responde, com o olhar implorando alívio a algo invisível
- ele fez-me uma massagem com óleos, fez-me uma limpeza energética, penteou-me, deu de comer aos gatos, limpou a areia, separou o lixo, limpou-me a casa e agora está a fazer salada de fruta para o jantar.
o homem-criança, não lhe é nada, e é-lhe muitas vezes tudo
- ele recusa crescer
dizia-me ela frequentemente
- estou cansada disso, não quero ficar mais com ele
e foi por isso que eles se separaram
lembro-me de há tempos ela perguntar
- o que é que eu tenho que aprender com ele?
e o oráculo da dona fernanda, antes de ser enterrado por baixo das raízes da arruda, a responder-lhe
- a ser criança, aprender a infância com ele. a leveza, a alegria, o desprendimento
então eu, também
- aprende a infância com ele
a tentar que ela entendesse. e ela entendia, mas não sentia, e sentir é um entendimento maior, é um entendimento que fica por dentro, paredes meias com o coração
o homem-criança saltita na casa dela, numa alegria que tenta derrotar a tristeza
- eu acredito que ela se vai curar. vocês parecem uma múmias...
ralha-nos
e eu abraço aquele homem-criança e renovo em mim toda a inocência da infância, a esperança, e, com sorte, a confiança, também, e rio com ele.
domingo, 6 de maio de 2018
mãe
e de manhã encaminho-me para o local onde sinto que eu e ela somos unas, e percorro o areal pela orla molhada que deixa as ondas mansas do mar. é o meu corpo todo que a sente, e deitada na areia húmida, ouço o ressoar do batimento do meu coração, no interior pulsante da terra. num gesto que trago, não sei de que vidas, colho o mar na concha das minhas mãos, e beijo a água com que molho o centro da minha testa. agradeço à mãe terra, útero da mãe divina, o acolhimento e o lar, agradeço esta encarnação num corpo feminino, agradeço a vida que já vivi e o que me é permitido sentir, agradeço a pele e a união, agradeço o caminho.
(blogo)Smile
recordo-me que costumava ser o primeiro blogue da manhã. era raro o dia que não começasse lendo um texto da Miss Smile, e raro o texto que não me obrigasse a reflectir. é também uma das mulheres da minha (blogo)vida, e coincidimos nas (blogo)ligações que temos.
sexta-feira, 4 de maio de 2018
net
conta-me amélia:
esqueci-me de lhe perguntar o sexo. na verdade, também nunca lhe tinha perguntado o nome, nem a idade, nem a profissão, nem o estado civil. enganei-me nas prioridades. primeiro construí um sentimento, depois uma imagem.
foi de noite, enquanto dormia, que recebi uma mensagem 'o meu nome é carmo, sou mulher'. mas o meu sentimento não tinha género.
terça-feira, 1 de maio de 2018
a mulher
conheço a mulher de vista há cerca de vinte anos. as nossas rotinas cruzam-se frequentemente, e, devido a isso, cumprimentamo-nos sempre com um bom dia ou uma boa tarde. dela, sei o que vejo - um sorriso, um braço defeituoso, uma aparência cuidada, e habituada a fazer as compras e a carregar os sacos apenas com o braço saudável.
depois de algum tempo sem a ver, acabo por a encontrar no supermercado, como de costume, mas com o rosto inchado e a pele com um tom avermelhado. o sorriso era o mesmo e o desembaraço com as compras, igual. em conversa de mim para mim, achei provável que se tratasse de uma alergia. o bom dia foi igual, a expressão do rosto a mesma de sempre.
ontem, encontrei-a na caixa do mesmo supermercado. o rosto ainda mais volumoso, o braço doente igualmente dilatado e a pele que estava visível, de cor vermelho escuro. a agravar, um dos olhos apresentava uma cor leitosa. já o sorriso, era o mesmo, assim como o desejo de um bom dia.
eu acho que o sorriso dela, é pela alegria de cada dia. enquanto a seguia com o olhar, à medida que se afastava, fiquei a pensar que há sorrisos que pousam em nós como bênçãos, como quem indica um caminho, como algo maior do que a vida.
segunda-feira, 30 de abril de 2018
das manhãs
...
todos os dias me lembro da CC a propósito de um comentário onde me escreveu 'Viver é tão bom que nunca me ocorreu que precisasse de um sentido. É poder ver o amanhecer, o rio, o sol e a chuva, o anoitecer, um banho de mar, uma comida saborosa...'
domingo, 29 de abril de 2018
potinho
apesar de tudo, ele ainda espera.
enquanto, silenciosamente, tento justificar a minha indiferença com o potinho aromatizante que balança no retrovisor, procuro perceber o que é que eu vejo de mim nele, que me enerva tanto.
[ele irrita-te?
perguntaria o homem-terra
então diz-me, que parte de ti, tu vês nele, que não queres reconhecer?]
e é tudo. esta aceitação de tudo.
sábado, 28 de abril de 2018
termo-ventilador
a vida é simples. só se sente a falta de alguém quando nos podemos dar a esse luxo. quando temos garantido o funcionamento do dia-a-dia, a comida na mesa, o depósito do carro cheio, as mensalidades pagas, quando temos saúde e a casa aquecida.
sexta-feira, 27 de abril de 2018
consumições fernandinas
- dê-me destino a isto, vizinha! já que não posso deitá-lo fora...
e entrega-me, embrulhado em papel almaço, o oráculo que tantas vezes foi orientação, dela, e minha, confesso
- está a chegar a lua cheia e é altura para garantir sumiço crescente nos excedentes
resmunga
mas eu, que cá sei que em objectos consagrados só o dono pode tocar, pergunto o porquê daquela indignação
- é que me enganou, vizinha. ando eu há tempo demais com o peito apertado de preocupações com a saúde daqueloutro, e ao que parece, tem vigor para dar e vender. o oráculo, que lhe faça a si bom proveito. procure aí na net o modo de lidar com ele, ou então enterre-o num vaso e plante-lhe em cima uma arruda. ele é seu, vizinha
e ficou o embrulho pousado na mesa da varanda, e eu sem saber se pegar, se largar. a mim, cheira-me a presente envenenado, quanto à dona fernanda, não será dona fernanda sem oráculo, parece-me, mas está decidida a recusar clientela, ou ajuda a quem precisar
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