domingo, 6 de maio de 2018

(blogo)Smile





















recordo-me que costumava ser o primeiro blogue da manhã. era raro o dia que não começasse lendo um texto da Miss Smile, e raro o texto que não me obrigasse a reflectir. é também uma das mulheres da minha (blogo)vida, e coincidimos nas (blogo)ligações que temos. 














sexta-feira, 4 de maio de 2018

net







conta-me amélia:
esqueci-me de lhe perguntar o sexo. na verdade, também nunca lhe tinha perguntado o nome, nem a idade, nem a profissão, nem o estado civil. enganei-me nas prioridades. primeiro construí um sentimento, depois uma imagem.
foi de noite, enquanto dormia, que recebi uma mensagem 'o meu nome é carmo, sou mulher'. mas o meu sentimento não tinha género.
















terça-feira, 1 de maio de 2018

a mulher









nunca falei sobre ela. não sei o seu nome nem a sua profissão.
conheço a mulher de vista há cerca de vinte anos. as nossas rotinas cruzam-se frequentemente, e, devido a isso, cumprimentamo-nos sempre com um bom dia ou uma boa tarde. dela, sei o que vejo - um sorriso, um braço defeituoso, uma aparência cuidada, e habituada a fazer as compras e a carregar os sacos apenas com o braço saudável.
depois de algum tempo sem a ver, acabo por a encontrar no supermercado, como de costume, mas com o rosto inchado e a pele com um tom avermelhado. o sorriso era o mesmo e o desembaraço com as compras, igual. em conversa de mim para mim, achei provável que se tratasse de uma alergia. o bom dia foi igual, a expressão do rosto a mesma de sempre.
ontem, encontrei-a na caixa do mesmo supermercado. o rosto ainda mais volumoso, o braço doente igualmente dilatado e a pele que estava visível, de cor vermelho escuro. a agravar, um dos olhos apresentava uma cor leitosa. já o sorriso, era o mesmo, assim como o desejo de um bom dia.
eu acho que o sorriso dela, é pela alegria de cada dia. enquanto a seguia com o olhar, à medida que se afastava, fiquei a pensar que há sorrisos que pousam em nós como bênçãos, como quem indica um caminho, como algo maior do que a vida.







segunda-feira, 30 de abril de 2018

das manhãs





não tenho memória de haver tanto tempo seguido de céus tão esplendorosos. tantos degradés de cinza luminosos, entre-cortados de azul, e tantas tonalidades de coral, a esta hora em que nasce o sol. e de vez em quando chove, graças aos céus que chove, que caem verdadeiras enxurradas para logo a seguir aparecer um sol limpo e alegre sacudido a vento. a terra está contente.
...
todos os dias me lembro da CC a propósito de um comentário onde me escreveu 'Viver é tão bom que nunca me ocorreu que precisasse de um sentido. É poder ver o amanhecer, o rio, o sol e a chuva, o anoitecer, um banho de mar, uma comida saborosa...'








domingo, 29 de abril de 2018

potinho








o homem faz-se à estrada. primeiro, acendeu-se uma luz vermelha no tablier do carro e teve que voltar a casa, depois foi o trânsito infernal de sábado, de seguida, o benfica começou a perder com o tondela, e em vez de ficar em casa a beber vários gins enquanto assiste ao jogo, chega até mim ao final de mais de seis meses bem contados. 
apesar de tudo, ele ainda espera. 
enquanto, silenciosamente, tento justificar a minha indiferença com o potinho aromatizante que balança no retrovisor, procuro perceber o que é que eu vejo de mim nele, que me enerva tanto. 
[ele irrita-te?
perguntaria o homem-terra
então diz-me, que parte de ti, tu vês nele, que não queres reconhecer?]
e é tudo. esta aceitação de tudo. 








sábado, 28 de abril de 2018

termo-ventilador









foi quando avariou o termo-ventilador que percebi que tenho sobrevalorizado a falta que ele me faz. quando me arrepiei toda depois do banho quente no final do dia, percebi que era o ar que o aparelho expelia que me trazia o conforto à pele, e não as palavras com que ele moldava o desejo no meu corpo.
a vida é simples. só se sente a falta de alguém quando nos podemos dar a esse luxo. quando temos garantido o funcionamento do dia-a-dia, a comida na mesa, o depósito do carro cheio, as mensalidades pagas, quando temos saúde e a casa aquecida.












sexta-feira, 27 de abril de 2018

consumições fernandinas









dona fernanda passa cá em consumições. vem esbaforida, com as faces ruborizadas, não sei se pela pressa, se pela indignação
- dê-me destino a isto, vizinha! já que não posso deitá-lo fora...
e entrega-me, embrulhado em papel almaço, o oráculo que tantas vezes foi orientação, dela, e minha, confesso
- está a chegar a lua cheia e é altura para garantir sumiço crescente nos excedentes
resmunga
mas eu, que cá sei que em objectos consagrados só o dono pode tocar, pergunto o porquê daquela indignação
- é que me enganou, vizinha. ando eu há tempo demais com o peito apertado de preocupações com a saúde daqueloutro, e ao que parece, tem vigor para dar e vender. o oráculo, que lhe faça a si bom proveito. procure aí na net o modo de lidar com ele, ou então enterre-o num vaso e plante-lhe em cima uma arruda. ele é seu, vizinha
e ficou o embrulho pousado na mesa da varanda, e eu sem saber se pegar, se largar. a mim, cheira-me a presente envenenado, quanto à dona fernanda, não será dona fernanda sem oráculo, parece-me, mas está decidida a recusar clientela, ou ajuda a quem precisar









quinta-feira, 26 de abril de 2018

das margens do rio











custa-me a acreditar
murmura a mulher que lava o futuro nas margens do rio, enquanto eu passo, apressada
que a força que dá à flor a cor, a forma, a harmonia, a delicadeza, a suavidade, o perfume, não tenha um propósito igualmente elevado para os humanos, que desperdiçam o tempo que lhes é dado com o olhar de costas para o céu, debruçados em tarefas para ganhar a vida que perdem











terça-feira, 24 de abril de 2018

do dia











o passado, o presente e o futuro, todos fazem parte do agora
diz o homem-terra
aqui do que se trata, é perceber o que é que, no passado, provocou a situação que tens agora. ir lá, entenderes, trazer para cá, e
e ele coloca, vagarosamente, a mão no centro do peito, respirando fundo
e tudo se reestrutura. assim como quando atiras uma pedra para o centro do lago e vêm aquelas ondinhas todas até ti e se espalham. entendes?












segunda-feira, 23 de abril de 2018

ela não anda, ela desfila










    a mulher que eu espero tem 79 anos. quando aparece no corredor do elevador, sei que vem a falar sozinha. vem sempre. fala com ela mesma
deixa-te dessas coisas! toca lá a andar! pensa no que há de bom!
e mexe com a cabeça, e revira os olhos, e encolhe os ombros
hoje, aparece com uma blusa florida, de calças de ganga e uma sapatilhas confortáveis
vem muito desportiva!
digo-lhe rindo
ela aproveita os faróis do carro, que esqueço sempre de apagar, rodopia em frente a mim 
e agora com holofotes!
diz, enquanto se equilibra na perna que lhe dói, no joelho com as articulações desfeitas pela idade. e ri.