sexta-feira, 27 de abril de 2018

consumições fernandinas









dona fernanda passa cá em consumições. vem esbaforida, com as faces ruborizadas, não sei se pela pressa, se pela indignação
- dê-me destino a isto, vizinha! já que não posso deitá-lo fora...
e entrega-me, embrulhado em papel almaço, o oráculo que tantas vezes foi orientação, dela, e minha, confesso
- está a chegar a lua cheia e é altura para garantir sumiço crescente nos excedentes
resmunga
mas eu, que cá sei que em objectos consagrados só o dono pode tocar, pergunto o porquê daquela indignação
- é que me enganou, vizinha. ando eu há tempo demais com o peito apertado de preocupações com a saúde daqueloutro, e ao que parece, tem vigor para dar e vender. o oráculo, que lhe faça a si bom proveito. procure aí na net o modo de lidar com ele, ou então enterre-o num vaso e plante-lhe em cima uma arruda. ele é seu, vizinha
e ficou o embrulho pousado na mesa da varanda, e eu sem saber se pegar, se largar. a mim, cheira-me a presente envenenado, quanto à dona fernanda, não será dona fernanda sem oráculo, parece-me, mas está decidida a recusar clientela, ou ajuda a quem precisar









quinta-feira, 26 de abril de 2018

das margens do rio











custa-me a acreditar
murmura a mulher que lava o futuro nas margens do rio, enquanto eu passo, apressada
que a força que dá à flor a cor, a forma, a harmonia, a delicadeza, a suavidade, o perfume, não tenha um propósito igualmente elevado para os humanos, que desperdiçam o tempo que lhes é dado com o olhar de costas para o céu, debruçados em tarefas para ganhar a vida que perdem











terça-feira, 24 de abril de 2018

do dia











o passado, o presente e o futuro, todos fazem parte do agora
diz o homem-terra
aqui do que se trata, é perceber o que é que, no passado, provocou a situação que tens agora. ir lá, entenderes, trazer para cá, e
e ele coloca, vagarosamente, a mão no centro do peito, respirando fundo
e tudo se reestrutura. assim como quando atiras uma pedra para o centro do lago e vêm aquelas ondinhas todas até ti e se espalham. entendes?












segunda-feira, 23 de abril de 2018

ela não anda, ela desfila










    a mulher que eu espero tem 79 anos. quando aparece no corredor do elevador, sei que vem a falar sozinha. vem sempre. fala com ela mesma
deixa-te dessas coisas! toca lá a andar! pensa no que há de bom!
e mexe com a cabeça, e revira os olhos, e encolhe os ombros
hoje, aparece com uma blusa florida, de calças de ganga e uma sapatilhas confortáveis
vem muito desportiva!
digo-lhe rindo
ela aproveita os faróis do carro, que esqueço sempre de apagar, rodopia em frente a mim 
e agora com holofotes!
diz, enquanto se equilibra na perna que lhe dói, no joelho com as articulações desfeitas pela idade. e ri.













domingo, 22 de abril de 2018

conversa










na conversa que eu tenho com o homem apenas porque ele ligou por um número desconhecido, ele acaba dizendo 
gostei de falar contigo. encontro-te diferente, melhor. a voz diz muito das pessoas, e a tua diz-me que estás feliz
eu, que carrego uma tristeza funda que apenas os dedos do homem-terra, quando se passeiam nas minhas costelas, conseguem sentir
(os teus pulmões carregam muita tristeza. uma tristeza de muito tempo)
respondo
que bom que sentes isso, mas acho que é paz, estou em paz
e agora que leio isto, acho que é a paz que vem da rendição












sábado, 21 de abril de 2018

o sofá









foi quando finalmente as minhas lágrimas encontraram uma forma de aliviar a minha alma, que eu disfarcei a humidade líquida no meu rosto de todas as maneiras que me foi possível. era sobretudo cansaço, um grande cansaço, como diz o poeta, e uma enorme impotência perante o homem tão longe e doente, e a amiga tão próxima e doente. então, vim para casa e descobri que o sofá da sala é o melhor sítio para se estar, fiz uma tosta de queijo regada com azeite e orégãos, tomei o resto do espumante, já aberto na garrafa há duas semanas, por uma chávena de chá, estiquei as pernas para aliviar as varizes, e, caramba, descansei. a voz do homem-terra ainda me ecoa na cabeça 'tu não podes viver os problemas dos outros. não são teus'. eu sei, se sei, passo a vida a pregar isso aos outros, mas bolas, é ele e é ela. 
o sofá da sala é o melhor sítio do mundo para se estar. asseguro-te










canja










faço-te a canja das avós judias. queres? 
ela quis. então coloco numa panela pedaços de talos de aipo, de cenoura, de cebola e dentes de alhos, cortados, louro, salsa e um frango do campo inteiro (coitado do frango). cubro com água fria, e fica a ferver lentamente durante cerca de seis horas. depois tiro o frango, que sai praticamente inteiro, e coo o caldo. há quem não aproveite o frango, mas eu desfaço-o em lascas e uso na canja ou noutros pratos. quando fria, a canja fica gelatina. as avós curavam as constipações, gripes e outras maleitas dos netos com esta canja.
todas as semanas uma canja, para ela.
[Ana, faz-te bem. come-a quente.]













sexta-feira, 20 de abril de 2018

amanhecer























Hoje o sol nasceu com a cor apropriada para uma alvorada de primavera. Talvez seja um bom prenúncio. Talvez as peças do puzzle dos dias comecem a encontrar o seu lugar.















quinta-feira, 19 de abril de 2018

na caixa







- o puorto está podre
queixa-se o homem na caixa do supermercado
- já nem sabe marcar penaltis...
e é assim que eu sei dos resultados da bola
- deixe lá, não se enerve
responde-lhe a mulher
- eu não me enervo. só me enervo quando não tenho dinheiro
filosofou o homem, em resposta, que eu achei muito acertada
- olhe, às tantas o sporting ganha...
entretanto paguei a conta e saí.
[às tantas...seria um prémio de consolação. o pipoco iria ficar contente...]
















às vezes a vida








- ah...é por causa das taxas. são estupidamente altas e ele arriscou e mandou vir mais de 30 quilos de medicação porque está muita gente a precisar desesperadamente dela. agora, está a negociar a ver se baixam o valor, se paga o menos possível para desalfandegar
- e é por isso que ainda não tens o medicamento?
- sim... mas ele é fantástico. é muito humano, tratou-me muito bem quando eu não consegui levantar-me da marquesa com as dores. deixou-me ficar em casa dele, deu-me de almoçar...
conta ela do médico que diz que ainda não conseguiu desalfandegar a medicação que poderia curar a doença que ela tem, enquanto eu penso que é uma corrida contra o tempo.