domingo, 22 de abril de 2018

conversa










na conversa que eu tenho com o homem apenas porque ele ligou por um número desconhecido, ele acaba dizendo 
gostei de falar contigo. encontro-te diferente, melhor. a voz diz muito das pessoas, e a tua diz-me que estás feliz
eu, que carrego uma tristeza funda que apenas os dedos do homem-terra, quando se passeiam nas minhas costelas, conseguem sentir
(os teus pulmões carregam muita tristeza. uma tristeza de muito tempo)
respondo
que bom que sentes isso, mas acho que é paz, estou em paz
e agora que leio isto, acho que é a paz que vem da rendição












sábado, 21 de abril de 2018

o sofá









foi quando finalmente as minhas lágrimas encontraram uma forma de aliviar a minha alma, que eu disfarcei a humidade líquida no meu rosto de todas as maneiras que me foi possível. era sobretudo cansaço, um grande cansaço, como diz o poeta, e uma enorme impotência perante o homem tão longe e doente, e a amiga tão próxima e doente. então, vim para casa e descobri que o sofá da sala é o melhor sítio para se estar, fiz uma tosta de queijo regada com azeite e orégãos, tomei o resto do espumante, já aberto na garrafa há duas semanas, por uma chávena de chá, estiquei as pernas para aliviar as varizes, e, caramba, descansei. a voz do homem-terra ainda me ecoa na cabeça 'tu não podes viver os problemas dos outros. não são teus'. eu sei, se sei, passo a vida a pregar isso aos outros, mas bolas, é ele e é ela. 
o sofá da sala é o melhor sítio do mundo para se estar. asseguro-te










canja










faço-te a canja das avós judias. queres? 
ela quis. então coloco numa panela pedaços de talos de aipo, de cenoura, de cebola e dentes de alhos, cortados, louro, salsa e um frango do campo inteiro (coitado do frango). cubro com água fria, e fica a ferver lentamente durante cerca de seis horas. depois tiro o frango, que sai praticamente inteiro, e coo o caldo. há quem não aproveite o frango, mas eu desfaço-o em lascas e uso na canja ou noutros pratos. quando fria, a canja fica gelatina. as avós curavam as constipações, gripes e outras maleitas dos netos com esta canja.
todas as semanas uma canja, para ela.
[Ana, faz-te bem. come-a quente.]













sexta-feira, 20 de abril de 2018

amanhecer























Hoje o sol nasceu com a cor apropriada para uma alvorada de primavera. Talvez seja um bom prenúncio. Talvez as peças do puzzle dos dias comecem a encontrar o seu lugar.















quinta-feira, 19 de abril de 2018

na caixa







- o puorto está podre
queixa-se o homem na caixa do supermercado
- já nem sabe marcar penaltis...
e é assim que eu sei dos resultados da bola
- deixe lá, não se enerve
responde-lhe a mulher
- eu não me enervo. só me enervo quando não tenho dinheiro
filosofou o homem, em resposta, que eu achei muito acertada
- olhe, às tantas o sporting ganha...
entretanto paguei a conta e saí.
[às tantas...seria um prémio de consolação. o pipoco iria ficar contente...]
















às vezes a vida








- ah...é por causa das taxas. são estupidamente altas e ele arriscou e mandou vir mais de 30 quilos de medicação porque está muita gente a precisar desesperadamente dela. agora, está a negociar a ver se baixam o valor, se paga o menos possível para desalfandegar
- e é por isso que ainda não tens o medicamento?
- sim... mas ele é fantástico. é muito humano, tratou-me muito bem quando eu não consegui levantar-me da marquesa com as dores. deixou-me ficar em casa dele, deu-me de almoçar...
conta ela do médico que diz que ainda não conseguiu desalfandegar a medicação que poderia curar a doença que ela tem, enquanto eu penso que é uma corrida contra o tempo.






coisas











Amor é procurar que cada coisa encontre o seu lugar e a sua máxima expressão


ala








segunda-feira, 16 de abril de 2018

do dia







a medicação que a mulher que dizem que carrega uma doença acredita que a poderá salvar está retida na alfândega, num braço de ferro contra o tempo que todos os dias a precipita em dores.
aconselham-me a que não me preocupe, mas não consigo, nem sei quais os mecanismos que comandam a preocupação para poder desligá-los. 











domingo, 15 de abril de 2018

razões









  às vezes penso que conhecendo o que ele lê, poderei conhecê-lo a ele também. mas, quando olho para a pilha de livros que estou a ler, espalhados pelo chão do quarto e da sala, penso que sim, que mostra muito de mim, mas não mostra, no entanto, as razões que mos levaram a ler - o amor por detrás de alguns, o querer entrar dentro de alguém, através das palavras de outros, a curiosidade que me levou a procurar outros saberes, a busca do conhecimento interior, a procura da salvação na sugestão de uma palestra, a cura do corpo num outro esquecido debaixo da cama, a ânsia de um espelho num poema em que me reveja. 










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