segunda-feira, 16 de abril de 2018

do dia







a medicação que a mulher que dizem que carrega uma doença acredita que a poderá salvar está retida na alfândega, num braço de ferro contra o tempo que todos os dias a precipita em dores.
aconselham-me a que não me preocupe, mas não consigo, nem sei quais os mecanismos que comandam a preocupação para poder desligá-los. 











domingo, 15 de abril de 2018

razões









  às vezes penso que conhecendo o que ele lê, poderei conhecê-lo a ele também. mas, quando olho para a pilha de livros que estou a ler, espalhados pelo chão do quarto e da sala, penso que sim, que mostra muito de mim, mas não mostra, no entanto, as razões que mos levaram a ler - o amor por detrás de alguns, o querer entrar dentro de alguém, através das palavras de outros, a curiosidade que me levou a procurar outros saberes, a busca do conhecimento interior, a procura da salvação na sugestão de uma palestra, a cura do corpo num outro esquecido debaixo da cama, a ânsia de um espelho num poema em que me reveja. 










perhaps love




















passadeira








paro na passadeira para deixar atravessar uma mulher, absorta manuscrevendo num pequeno notebook de capa vermelha.
eu, que coloco os apontamentos no ecrã do telemóvel, fiquei com saudades da forma das letras desenhadas, com lentidão.







sexta-feira, 13 de abril de 2018

escreve
































não te esqueças de me escrever, peço-lhe. nem que seja apenas um olá, nem que seja um espaço em branco, nem que seja um absurdo. escreve-me. não cortes o fio, não apagues o livro de nós, não me deixas assim...tu sabes...

a pessoa com quem falo olha-me de forma distante num mundo tão longe do meu, e, apenas um ténue sorriso nos seus lábios encoraja as palavras que têm que ser ditas.
escreve. todos os dias.










quinta-feira, 12 de abril de 2018

sempre o mesmo








a mulher que segue ao meu lado tem quase 80 anos e aguarda-me dentro do carro enquanto eu entro e saio de vários estabelecimentos. nem um sinal de protesto, nem um sinal de impaciência. pelo contrário, um sorriso de satisfação no rosto. nada a apressa e o dia está bonito, o sol entra pelo vidro fazendo esquecer o vento norte que corre a marginal. enquanto percorro a beira-mar, varrendo com o olhar o mar prateado e o areal modificado pela força com que as ondas se espalharam no inverno, eu sinto aquela serenidade de quem sabe, que não importa quantos mares, quantas terras, quantos países se possam visitar, que o coração é só um e que é com ele que se vê e se sente o prazer de todos os dias poder sentir o mesmo sol no rosto, o mesmo imenso mar no olhar, o mesmo vento na pele.












facturar








o homem quer é facturar! a isabel deu-lhe uma tampa e ele não gostou, agora não esteja à espera que ele venha já a correr para si...
a mulher arregala os olhos, estica a base, passa os dedos pelo cabelo acabadinho de pintar, eu noto-lhe o couro cabeludo ainda vermelho, do mesmo tom da tinta, e diz
oh! a ana hoje está tão castiça...
só no momento do castiça é que percebi o meu estado de cansaço







terça-feira, 10 de abril de 2018

vestida do sorriso









com o prato de bacalhau à brás, o homem pousa sobre mim o seu sorriso amplo. lembro-me do frágil e eterno poeta que morou ali, tão perto do lugar onde almoço. aquele instante daquela refeição vagarosa, faz valer a pena o dia que se atropela à minha frente.










segunda-feira, 9 de abril de 2018

do dia









era aí, recolhida, ao final deste dia, numa palavra, como num ninho, que eu queria estar, que eu preciso estar, que eu não estou












domingo, 8 de abril de 2018

prometo








anunciou-me com voz receosa que o marido fez-se sócio de uma empresa e ia trabalhar para angola. 
o homem partiu, fez a cama com lençóis lavados, limpou a casa com esmero e convidou-me para jantar. comprou duas garrafas de vinho branco que estavam bem frescas, pasteis de nata do pingo doce e cozinhou uma travessa de bacalhau com broa.
- ele comentou que ainda não tinha saído e já eu estava a trocar os lençóis...
eu ria. somos amigas há cerca de vinte anos.
- por acaso devia ter esperado que ele fosse - e ria ela também - mas é que nem o cheiro eu queria nos lençóis...agora temos três meses! promete-me, vamos passar uns dias fora, por aí abaixo, ou vamos aos açores, ou a santiago!
- prometo! vamos para um tipo retiro, depois ele vem, e quando for embora outra vez, vamos a santiago
sonho eu mais do que ela
depois sentamo-nos no sofá com a garrafa e os copos de vinho no chão, cristina fuma vários cigarros, e suspira
- há quantos anos eu não fumo um cigarro nesta sala...
e rimos.
até a mim me sabe bem o fumo dos cigarros dela