domingo, 15 de abril de 2018

passadeira








paro na passadeira para deixar atravessar uma mulher, absorta manuscrevendo num pequeno notebook de capa vermelha.
eu, que coloco os apontamentos no ecrã do telemóvel, fiquei com saudades da forma das letras desenhadas, com lentidão.







sexta-feira, 13 de abril de 2018

escreve
































não te esqueças de me escrever, peço-lhe. nem que seja apenas um olá, nem que seja um espaço em branco, nem que seja um absurdo. escreve-me. não cortes o fio, não apagues o livro de nós, não me deixas assim...tu sabes...

a pessoa com quem falo olha-me de forma distante num mundo tão longe do meu, e, apenas um ténue sorriso nos seus lábios encoraja as palavras que têm que ser ditas.
escreve. todos os dias.










quinta-feira, 12 de abril de 2018

sempre o mesmo








a mulher que segue ao meu lado tem quase 80 anos e aguarda-me dentro do carro enquanto eu entro e saio de vários estabelecimentos. nem um sinal de protesto, nem um sinal de impaciência. pelo contrário, um sorriso de satisfação no rosto. nada a apressa e o dia está bonito, o sol entra pelo vidro fazendo esquecer o vento norte que corre a marginal. enquanto percorro a beira-mar, varrendo com o olhar o mar prateado e o areal modificado pela força com que as ondas se espalharam no inverno, eu sinto aquela serenidade de quem sabe, que não importa quantos mares, quantas terras, quantos países se possam visitar, que o coração é só um e que é com ele que se vê e se sente o prazer de todos os dias poder sentir o mesmo sol no rosto, o mesmo imenso mar no olhar, o mesmo vento na pele.












facturar








o homem quer é facturar! a isabel deu-lhe uma tampa e ele não gostou, agora não esteja à espera que ele venha já a correr para si...
a mulher arregala os olhos, estica a base, passa os dedos pelo cabelo acabadinho de pintar, eu noto-lhe o couro cabeludo ainda vermelho, do mesmo tom da tinta, e diz
oh! a ana hoje está tão castiça...
só no momento do castiça é que percebi o meu estado de cansaço







terça-feira, 10 de abril de 2018

vestida do sorriso









com o prato de bacalhau à brás, o homem pousa sobre mim o seu sorriso amplo. lembro-me do frágil e eterno poeta que morou ali, tão perto do lugar onde almoço. aquele instante daquela refeição vagarosa, faz valer a pena o dia que se atropela à minha frente.










segunda-feira, 9 de abril de 2018

do dia









era aí, recolhida, ao final deste dia, numa palavra, como num ninho, que eu queria estar, que eu preciso estar, que eu não estou












domingo, 8 de abril de 2018

prometo








anunciou-me com voz receosa que o marido fez-se sócio de uma empresa e ia trabalhar para angola. 
o homem partiu, fez a cama com lençóis lavados, limpou a casa com esmero e convidou-me para jantar. comprou duas garrafas de vinho branco que estavam bem frescas, pasteis de nata do pingo doce e cozinhou uma travessa de bacalhau com broa.
- ele comentou que ainda não tinha saído e já eu estava a trocar os lençóis...
eu ria. somos amigas há cerca de vinte anos.
- por acaso devia ter esperado que ele fosse - e ria ela também - mas é que nem o cheiro eu queria nos lençóis...agora temos três meses! promete-me, vamos passar uns dias fora, por aí abaixo, ou vamos aos açores, ou a santiago!
- prometo! vamos para um tipo retiro, depois ele vem, e quando for embora outra vez, vamos a santiago
sonho eu mais do que ela
depois sentamo-nos no sofá com a garrafa e os copos de vinho no chão, cristina fuma vários cigarros, e suspira
- há quantos anos eu não fumo um cigarro nesta sala...
e rimos.
até a mim me sabe bem o fumo dos cigarros dela







sábado, 7 de abril de 2018

se precisares









despeço-me da mulher que dizem que carrega uma doença com um invariável
se precisares de alguma coisa, telefona-me. não hesites 
ela acena que sim e
se tu precisares telefona-me também
retribui ela, enquanto me afasto
faço-lhe um sinal que sim, que agradeço a disponibilidade
ao subir as escadas que me trazem a casa, eu penso que a mulher que dizem que carrega uma doença poderia ser salva se alguém precisasse dela para se sentir bem










pontes para mim








raramente sei o motivo que me leva a ir. apenas uma força me empurra e nada tem a ver com vontade, pois a vontade também me falta. quando me perguntam 'porque vieste?', eu respondo que não sei, nunca sei. com sorte, quando regressar terei percebido a razão, ou apenas muito tempo depois. 
hoje, trouxe comigo o coração aberto daquela mulher expondo a sua insegurança, admitindo a sua fragilidade. hoje, trouxe comigo aquela mulher indígena que quer fazer com que a vida que vive, tenha valido a pena viver. hoje, trouxe comigo o abraço apertado e longo daquela mulher que não me diz nada. hoje, trouxe comigo aquela mulher, que tal como eu, vai apenas porque sente que sim. a cada vez que vou, venho cada vez mais como sou, eu. é na diversidade que me identifico. 
tantas pontes atravesso para chegar a mim.









sexta-feira, 6 de abril de 2018

alimentar pardais









aqui


















foi quando o cigano me aconselhou a dedicar-me a alimentar pardais em vez de me bastar com a alegria que sinto de cada vez que ele chega [este ele não é o cigano], que eu resolvi tatuar ao longo da coluna vertebral um lembrete para me recordar que é mais fácil ir aos estados unidos do que à aguçadoura. atenta ao que te aparece nas prateleiras do supermercado, nas bermas das estradas e nas beiras dos passeios, tinha-me dito o índio que crescia à medida que fazia com que o meu plexo solar rodopiasse como um pião de feira espalhando entulho para todos os lados, são oráculos, é linguagem