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a mulher que segue ao meu lado tem quase 80 anos e aguarda-me dentro do carro enquanto eu entro e saio de vários estabelecimentos. nem um sinal de protesto, nem um sinal de impaciência. pelo contrário, um sorriso de satisfação no rosto. nada a apressa e o dia está bonito, o sol entra pelo vidro fazendo esquecer o vento norte que corre a marginal. enquanto percorro a beira-mar, varrendo com o olhar o mar prateado e o areal modificado pela força com que as ondas se espalharam no inverno, eu sinto aquela serenidade de quem sabe, que não importa quantos mares, quantas terras, quantos países se possam visitar, que o coração é só um e que é com ele que se vê e se sente o prazer de todos os dias poder sentir o mesmo sol no rosto, o mesmo imenso mar no olhar, o mesmo vento na pele.
o homem quer é facturar! a isabel deu-lhe uma tampa e ele não gostou, agora não esteja à espera que ele venha já a correr para si...
a mulher arregala os olhos, estica a base, passa os dedos pelo cabelo acabadinho de pintar, eu noto-lhe o couro cabeludo ainda vermelho, do mesmo tom da tinta, e diz
oh! a ana hoje está tão castiça...
só no momento do castiça é que percebi o meu estado de cansaço
com o prato de bacalhau à brás, o homem pousa sobre mim o seu sorriso amplo. lembro-me do frágil e eterno poeta que morou ali, tão perto do lugar onde almoço. aquele instante daquela refeição vagarosa, faz valer a pena o dia que se atropela à minha frente.
era aí, recolhida, ao final deste dia, numa palavra, como num ninho, que eu queria estar, que eu preciso estar, que eu não estou
anunciou-me com voz receosa que o marido fez-se sócio de uma empresa e ia trabalhar para angola.
o homem partiu, fez a cama com lençóis lavados, limpou a casa com esmero e convidou-me para jantar. comprou duas garrafas de vinho branco que estavam bem frescas, pasteis de nata do pingo doce e cozinhou uma travessa de bacalhau com broa.
- ele comentou que ainda não tinha saído e já eu estava a trocar os lençóis...
eu ria. somos amigas há cerca de vinte anos.
- por acaso devia ter esperado que ele fosse - e ria ela também - mas é que nem o cheiro eu queria nos lençóis...agora temos três meses! promete-me, vamos passar uns dias fora, por aí abaixo, ou vamos aos açores, ou a santiago!
- prometo! vamos para um tipo retiro, depois ele vem, e quando for embora outra vez, vamos a santiago
sonho eu mais do que ela
depois sentamo-nos no sofá com a garrafa e os copos de vinho no chão, cristina fuma vários cigarros, e suspira
- há quantos anos eu não fumo um cigarro nesta sala...
e rimos.
até a mim me sabe bem o fumo dos cigarros dela
despeço-me da mulher que dizem que carrega uma doença com um invariável
se precisares de alguma coisa, telefona-me. não hesites
ela acena que sim e
se tu precisares telefona-me também
retribui ela, enquanto me afasto
faço-lhe um sinal que sim, que agradeço a disponibilidade
ao subir as escadas que me trazem a casa, eu penso que a mulher que dizem que carrega uma doença poderia ser salva se alguém precisasse dela para se sentir bem
raramente sei o motivo que me leva a ir. apenas uma força me empurra e nada tem a ver com vontade, pois a vontade também me falta. quando me perguntam 'porque vieste?', eu respondo que não sei, nunca sei. com sorte, quando regressar terei percebido a razão, ou apenas muito tempo depois.
hoje, trouxe comigo o coração aberto daquela mulher expondo a sua insegurança, admitindo a sua fragilidade. hoje, trouxe comigo aquela mulher indígena que quer fazer com que a vida que vive, tenha valido a pena viver. hoje, trouxe comigo o abraço apertado e longo daquela mulher que não me diz nada. hoje, trouxe comigo aquela mulher, que tal como eu, vai apenas porque sente que sim. a cada vez que vou, venho cada vez mais como sou, eu. é na diversidade que me identifico.
tantas pontes atravesso para chegar a mim.
foi quando o cigano me aconselhou a dedicar-me a alimentar pardais em vez de me bastar com a alegria que sinto de cada vez que ele chega [este ele não é o cigano], que eu resolvi tatuar ao longo da coluna vertebral um lembrete para me recordar que é mais fácil ir aos estados unidos do que à aguçadoura. atenta ao que te aparece nas prateleiras do supermercado, nas bermas das estradas e nas beiras dos passeios, tinha-me dito o índio que crescia à medida que fazia com que o meu plexo solar rodopiasse como um pião de feira espalhando entulho para todos os lados, são oráculos, é linguagem.
todas as manhãs bem cedo, quando regresso a casa, cruzo-me com a dona maria josé. ela desce a rua que ladeia o rio, e quando a vejo sei que ainda tem muito que andar até chegar ao trabalho. a dona maria josé deve ter uns sessenta e tal anos, estatura baixa, cabelo curto e prateado e rosto lavado de maquilhagem. onde costumo encontrá-la, sem ser ali, a descer a rua, vejo-a apenas da cintura para cima, sentada num balcão de atendimento, toda ela cuidado para comigo, toda ela atenção, sem esquecer um 'e a mãe, está bem?'.
quando quero chamá-la pelo nome, sai-me sempre um 'dona maria do céu' ou 'dona maria dos anjos'. custa-me sempre lembrar que o outro nome de maria, é josé, talvez pela serenidade, talvez pelo apaziguamento que ela inspira.
hoje de manhã, lá ia a dona maria josé, com a saia pelo joelho, sapato com um bocadinho de tacão, mala a condizer na mão, e toda ela vestida em tom de cor-de-rosa velho, este que se usa esta estação. e a dona maria josé é bonita, não sendo. onde ela passa, acredito que quem a vê sinta vontade de sorrir. é que a beleza da dona maria josé vem da maneira como ela gosta da vida e da forma como cuida de si, do sorriso que leva no rosto todas as manhãs frias ou chuvosas, pela calçada à beira-rio.
enquanto penso estas coisas, olho para o modo como me apresento, sapatilhas de estimação, calças e camisola alguns tamanhos acima do meu e o cabelo nem sei como...
se afastasse a mágoa que sinto, quando ele me falta, ficaria com o bem que ele me faz, sempre que chega