segunda-feira, 9 de abril de 2018

do dia









era aí, recolhida, ao final deste dia, numa palavra, como num ninho, que eu queria estar, que eu preciso estar, que eu não estou












domingo, 8 de abril de 2018

prometo








anunciou-me com voz receosa que o marido fez-se sócio de uma empresa e ia trabalhar para angola. 
o homem partiu, fez a cama com lençóis lavados, limpou a casa com esmero e convidou-me para jantar. comprou duas garrafas de vinho branco que estavam bem frescas, pasteis de nata do pingo doce e cozinhou uma travessa de bacalhau com broa.
- ele comentou que ainda não tinha saído e já eu estava a trocar os lençóis...
eu ria. somos amigas há cerca de vinte anos.
- por acaso devia ter esperado que ele fosse - e ria ela também - mas é que nem o cheiro eu queria nos lençóis...agora temos três meses! promete-me, vamos passar uns dias fora, por aí abaixo, ou vamos aos açores, ou a santiago!
- prometo! vamos para um tipo retiro, depois ele vem, e quando for embora outra vez, vamos a santiago
sonho eu mais do que ela
depois sentamo-nos no sofá com a garrafa e os copos de vinho no chão, cristina fuma vários cigarros, e suspira
- há quantos anos eu não fumo um cigarro nesta sala...
e rimos.
até a mim me sabe bem o fumo dos cigarros dela







sábado, 7 de abril de 2018

se precisares









despeço-me da mulher que dizem que carrega uma doença com um invariável
se precisares de alguma coisa, telefona-me. não hesites 
ela acena que sim e
se tu precisares telefona-me também
retribui ela, enquanto me afasto
faço-lhe um sinal que sim, que agradeço a disponibilidade
ao subir as escadas que me trazem a casa, eu penso que a mulher que dizem que carrega uma doença poderia ser salva se alguém precisasse dela para se sentir bem










pontes para mim








raramente sei o motivo que me leva a ir. apenas uma força me empurra e nada tem a ver com vontade, pois a vontade também me falta. quando me perguntam 'porque vieste?', eu respondo que não sei, nunca sei. com sorte, quando regressar terei percebido a razão, ou apenas muito tempo depois. 
hoje, trouxe comigo o coração aberto daquela mulher expondo a sua insegurança, admitindo a sua fragilidade. hoje, trouxe comigo aquela mulher indígena que quer fazer com que a vida que vive, tenha valido a pena viver. hoje, trouxe comigo o abraço apertado e longo daquela mulher que não me diz nada. hoje, trouxe comigo aquela mulher, que tal como eu, vai apenas porque sente que sim. a cada vez que vou, venho cada vez mais como sou, eu. é na diversidade que me identifico. 
tantas pontes atravesso para chegar a mim.









sexta-feira, 6 de abril de 2018

alimentar pardais









aqui


















foi quando o cigano me aconselhou a dedicar-me a alimentar pardais em vez de me bastar com a alegria que sinto de cada vez que ele chega [este ele não é o cigano], que eu resolvi tatuar ao longo da coluna vertebral um lembrete para me recordar que é mais fácil ir aos estados unidos do que à aguçadoura. atenta ao que te aparece nas prateleiras do supermercado, nas bermas das estradas e nas beiras dos passeios, tinha-me dito o índio que crescia à medida que fazia com que o meu plexo solar rodopiasse como um pião de feira espalhando entulho para todos os lados, são oráculos, é linguagem










quinta-feira, 5 de abril de 2018

dona maria josé











todas as manhãs bem cedo, quando regresso a casa, cruzo-me com a dona maria josé. ela desce a rua que ladeia o rio, e quando a vejo sei que ainda tem muito que andar até chegar ao trabalho. a dona maria josé deve ter uns sessenta e tal anos, estatura baixa, cabelo curto e prateado e rosto lavado de maquilhagem. onde costumo encontrá-la, sem ser ali, a descer a rua, vejo-a apenas da cintura para cima, sentada num balcão de atendimento, toda ela cuidado para comigo, toda ela atenção, sem esquecer um 'e a mãe, está bem?'.
quando quero chamá-la pelo nome, sai-me sempre um 'dona maria do céu' ou 'dona maria dos anjos'. custa-me sempre lembrar que o outro nome de maria, é josé, talvez pela serenidade, talvez pelo apaziguamento que ela inspira.
hoje de manhã, lá ia a dona maria josé, com a saia pelo joelho, sapato com um bocadinho de tacão, mala a condizer na mão, e toda ela vestida em tom de cor-de-rosa velho, este que se usa esta estação. e a dona maria josé é bonita, não sendo. onde ela passa, acredito que quem a vê sinta vontade de sorrir. é que a beleza da dona maria josé vem da maneira como ela gosta da vida e da forma como cuida de si, do sorriso que leva no rosto todas as manhãs frias ou chuvosas, pela calçada à beira-rio.
enquanto penso estas coisas, olho para o modo como me apresento, sapatilhas de estimação, calças e camisola alguns tamanhos acima do meu e o cabelo nem sei como...










quarta-feira, 4 de abril de 2018

se







se afastasse a mágoa que sinto, quando ele me falta, ficaria com o bem que ele me faz, sempre que chega










terça-feira, 3 de abril de 2018

e ele fala








O homem-terra, sentado como se fosse uma onda que se enrola sobre si mesma
Mas tu queres que eu te diga o que tu já sabes?
Sim
Mas porquê?
Para me ouvir através de ti
A silhueta do homem suspira, e fala …
Presta atenção ao que costumas dizer aos outros. É tudo o que precisas de ouvir
Mas diz-me…
E ele fala tudo o que já sei











dos dias














todos os meus dias começam de véspera, enquanto enumero o que tenho que fazer no dia seguinte. não vou conseguir, não é possível, penso invariavelmente. 
quando acordo a meio da noite, é a mesma previsão que me impede de dormir, e as horas passam tentando seleccionar pensamentos que me tragam o sono de volta. envio mails, respondo a comentários, e é quando melhor escrevo.
levanto-me sempre tarde demais, embora o dia ainda não tenha nascido, e então, é aí que começo a tentar não pensar no tempo, esse adamastor. e começo. tarefa após tarefa, saída após saída, regresso após regresso. e as peças encaixam, o puzzle forma-se, o dia cumpre-se, se eu não pensar no tempo. apenas eu não me cumpro, reconheço. 
vejo-o, ao tempo, como uma passadeira rolante, que passa a uma velocidade maior do que o meu passo, por baixo dos meus pés sem que eu tropece, e nem sei se isso é bom, ou mau. talvez eu me demore nos dias, apesar do tempo passar.










segunda-feira, 2 de abril de 2018

ela







aqui















o problema - conta-me ela - é que arrancá-lo de dentro de mim, é assim como arrancar o trevo pela raiz... sabe?
sim, eu sei. lembro tão bem dos dedos enfiados na terra escura, funda e fresca, extraindo lentamente a raiz do trevo, para que não quebrasse, para que não ficasse nenhum pedaço que pudesse germinar outra vez, ainda mais forte
sim, eu sei
respondi-lhe
e o pior - continuou ela - é que, como no trevo, é muito maior a raiz escondida, do que a planta visível
pergunto-lhe como foi aquele sentimento acontecer
foram as palavras, sabe? as palavras subtilmente despertando partes de mim que eu não conhecia, e tecendo raízes à volta da alegria, da vontade de viver, da sensualidade. aprofundando-se. depois, partiu, antes de chegar, e eu fiquei assim, toda eu em desalinho.
quis eu saber
e agora?
agora a terra secou, toda ela argilosa, toda ela árida. aconteceu-me... e eu não sei como torná-la arável.