sexta-feira, 6 de abril de 2018

alimentar pardais









aqui


















foi quando o cigano me aconselhou a dedicar-me a alimentar pardais em vez de me bastar com a alegria que sinto de cada vez que ele chega [este ele não é o cigano], que eu resolvi tatuar ao longo da coluna vertebral um lembrete para me recordar que é mais fácil ir aos estados unidos do que à aguçadoura. atenta ao que te aparece nas prateleiras do supermercado, nas bermas das estradas e nas beiras dos passeios, tinha-me dito o índio que crescia à medida que fazia com que o meu plexo solar rodopiasse como um pião de feira espalhando entulho para todos os lados, são oráculos, é linguagem










quinta-feira, 5 de abril de 2018

dona maria josé











todas as manhãs bem cedo, quando regresso a casa, cruzo-me com a dona maria josé. ela desce a rua que ladeia o rio, e quando a vejo sei que ainda tem muito que andar até chegar ao trabalho. a dona maria josé deve ter uns sessenta e tal anos, estatura baixa, cabelo curto e prateado e rosto lavado de maquilhagem. onde costumo encontrá-la, sem ser ali, a descer a rua, vejo-a apenas da cintura para cima, sentada num balcão de atendimento, toda ela cuidado para comigo, toda ela atenção, sem esquecer um 'e a mãe, está bem?'.
quando quero chamá-la pelo nome, sai-me sempre um 'dona maria do céu' ou 'dona maria dos anjos'. custa-me sempre lembrar que o outro nome de maria, é josé, talvez pela serenidade, talvez pelo apaziguamento que ela inspira.
hoje de manhã, lá ia a dona maria josé, com a saia pelo joelho, sapato com um bocadinho de tacão, mala a condizer na mão, e toda ela vestida em tom de cor-de-rosa velho, este que se usa esta estação. e a dona maria josé é bonita, não sendo. onde ela passa, acredito que quem a vê sinta vontade de sorrir. é que a beleza da dona maria josé vem da maneira como ela gosta da vida e da forma como cuida de si, do sorriso que leva no rosto todas as manhãs frias ou chuvosas, pela calçada à beira-rio.
enquanto penso estas coisas, olho para o modo como me apresento, sapatilhas de estimação, calças e camisola alguns tamanhos acima do meu e o cabelo nem sei como...










quarta-feira, 4 de abril de 2018

se







se afastasse a mágoa que sinto, quando ele me falta, ficaria com o bem que ele me faz, sempre que chega










terça-feira, 3 de abril de 2018

e ele fala








O homem-terra, sentado como se fosse uma onda que se enrola sobre si mesma
Mas tu queres que eu te diga o que tu já sabes?
Sim
Mas porquê?
Para me ouvir através de ti
A silhueta do homem suspira, e fala …
Presta atenção ao que costumas dizer aos outros. É tudo o que precisas de ouvir
Mas diz-me…
E ele fala tudo o que já sei











dos dias














todos os meus dias começam de véspera, enquanto enumero o que tenho que fazer no dia seguinte. não vou conseguir, não é possível, penso invariavelmente. 
quando acordo a meio da noite, é a mesma previsão que me impede de dormir, e as horas passam tentando seleccionar pensamentos que me tragam o sono de volta. envio mails, respondo a comentários, e é quando melhor escrevo.
levanto-me sempre tarde demais, embora o dia ainda não tenha nascido, e então, é aí que começo a tentar não pensar no tempo, esse adamastor. e começo. tarefa após tarefa, saída após saída, regresso após regresso. e as peças encaixam, o puzzle forma-se, o dia cumpre-se, se eu não pensar no tempo. apenas eu não me cumpro, reconheço. 
vejo-o, ao tempo, como uma passadeira rolante, que passa a uma velocidade maior do que o meu passo, por baixo dos meus pés sem que eu tropece, e nem sei se isso é bom, ou mau. talvez eu me demore nos dias, apesar do tempo passar.










segunda-feira, 2 de abril de 2018

ela







aqui















o problema - conta-me ela - é que arrancá-lo de dentro de mim, é assim como arrancar o trevo pela raiz... sabe?
sim, eu sei. lembro tão bem dos dedos enfiados na terra escura, funda e fresca, extraindo lentamente a raiz do trevo, para que não quebrasse, para que não ficasse nenhum pedaço que pudesse germinar outra vez, ainda mais forte
sim, eu sei
respondi-lhe
e o pior - continuou ela - é que, como no trevo, é muito maior a raiz escondida, do que a planta visível
pergunto-lhe como foi aquele sentimento acontecer
foram as palavras, sabe? as palavras subtilmente despertando partes de mim que eu não conhecia, e tecendo raízes à volta da alegria, da vontade de viver, da sensualidade. aprofundando-se. depois, partiu, antes de chegar, e eu fiquei assim, toda eu em desalinho.
quis eu saber
e agora?
agora a terra secou, toda ela argilosa, toda ela árida. aconteceu-me... e eu não sei como torná-la arável.














domingo, 1 de abril de 2018

sardinheiras







no horto, o funcionário do costume, coloca as três floreiras, com três vasos de sardinheiras cada uma, dentro da mala do carro, e diz naquele modo rude dele, ele, um ucraniano de semblante duro e fechado, de onde sai um sorriso a custo
a dona está a ver? três vasos em cada floreira, são na realidade dois. percebeu?
eu sorrio. percebi. parece-me que é a forma dele de mostrar revolta por um trabalho pouco reconhecido, e colaboro. agrada-me de várias formas a maneira de ele reclamar da injustiça
são três floreiras e seis sardinheiras
diz ele à dona do horto, uma mulher de olhar camaleónico e expressão baça. ela faz a conta, oferece-me um desconto de uns cêntimos, e eu pago, enquanto o homem passa por mim, sorrindo
pudesse eu, reagir à falta de respeito por mim, oferecendo flores aos outros. 










sábado, 31 de março de 2018

sexta-feira, 30 de março de 2018

penduranço












a dona fernanda chega a minha casa, atira o telemóvel pelo ar e
- 0}[€# da %"ª@!
e arranca as palavras de tal maneira de dentro dela, que eu diria que ainda latejam e transpiram sangue vivo
fico surpreendida. pensava eu que ela andava serena e ajustada com a vida e
- &§;$#@-se! outra vez pendurada na porcaria do telemóvel...
e o aparelho voa outra vez saltando nas almofadas do sofá e indo estatelar-se no chão
a dona fernanda não é pessoa de impropérios, mas sim de encontrar atenuantes para todos comportamentos, para todos deslizes, dos outros, claro. então fico sentada, ouvindo-a reclamar contra aquilo que permite que lhe aconteça, sabendo que a fúria dela nasce, precisamente por reconhecer em si, a responsabilidade pelo seu penduranço.









longínquo







primeiro deixou de tomar café, depois espaçou longamente o que a pudesse inebriar, de seguida reduziu os hidratos de carbono, eliminou o sal, o açúcar, a carne, e os lacticínios, e afastou-se, dentro do que lhe era possível, de tudo o que pudesse colocar o coração naquele bater descontrolado. deixou também de ver televisão, ir ao cinema, e mesmo os percursos que fazia de automóvel, eram em silêncio, raros eram os momentos em que a música preenchia a ausência de sons. os livros amontoavam-se no chão do quarto e da sala, com a leitura inacabada. tinha desaparecido a poesia, mas o seu coração há muito que não batia de forma tão regular
também o perdeu nas palavras que lhe faltaram e quase esqueceu o seu nome. ele tinha-se transformado num paradoxo longínquo. no entanto, a cada mínimo sinal dele, ainda os olhos se humedecem de comoção.