quinta-feira, 5 de abril de 2018

dona maria josé











todas as manhãs bem cedo, quando regresso a casa, cruzo-me com a dona maria josé. ela desce a rua que ladeia o rio, e quando a vejo sei que ainda tem muito que andar até chegar ao trabalho. a dona maria josé deve ter uns sessenta e tal anos, estatura baixa, cabelo curto e prateado e rosto lavado de maquilhagem. onde costumo encontrá-la, sem ser ali, a descer a rua, vejo-a apenas da cintura para cima, sentada num balcão de atendimento, toda ela cuidado para comigo, toda ela atenção, sem esquecer um 'e a mãe, está bem?'.
quando quero chamá-la pelo nome, sai-me sempre um 'dona maria do céu' ou 'dona maria dos anjos'. custa-me sempre lembrar que o outro nome de maria, é josé, talvez pela serenidade, talvez pelo apaziguamento que ela inspira.
hoje de manhã, lá ia a dona maria josé, com a saia pelo joelho, sapato com um bocadinho de tacão, mala a condizer na mão, e toda ela vestida em tom de cor-de-rosa velho, este que se usa esta estação. e a dona maria josé é bonita, não sendo. onde ela passa, acredito que quem a vê sinta vontade de sorrir. é que a beleza da dona maria josé vem da maneira como ela gosta da vida e da forma como cuida de si, do sorriso que leva no rosto todas as manhãs frias ou chuvosas, pela calçada à beira-rio.
enquanto penso estas coisas, olho para o modo como me apresento, sapatilhas de estimação, calças e camisola alguns tamanhos acima do meu e o cabelo nem sei como...










quarta-feira, 4 de abril de 2018

se







se afastasse a mágoa que sinto, quando ele me falta, ficaria com o bem que ele me faz, sempre que chega










terça-feira, 3 de abril de 2018

e ele fala








O homem-terra, sentado como se fosse uma onda que se enrola sobre si mesma
Mas tu queres que eu te diga o que tu já sabes?
Sim
Mas porquê?
Para me ouvir através de ti
A silhueta do homem suspira, e fala …
Presta atenção ao que costumas dizer aos outros. É tudo o que precisas de ouvir
Mas diz-me…
E ele fala tudo o que já sei











dos dias














todos os meus dias começam de véspera, enquanto enumero o que tenho que fazer no dia seguinte. não vou conseguir, não é possível, penso invariavelmente. 
quando acordo a meio da noite, é a mesma previsão que me impede de dormir, e as horas passam tentando seleccionar pensamentos que me tragam o sono de volta. envio mails, respondo a comentários, e é quando melhor escrevo.
levanto-me sempre tarde demais, embora o dia ainda não tenha nascido, e então, é aí que começo a tentar não pensar no tempo, esse adamastor. e começo. tarefa após tarefa, saída após saída, regresso após regresso. e as peças encaixam, o puzzle forma-se, o dia cumpre-se, se eu não pensar no tempo. apenas eu não me cumpro, reconheço. 
vejo-o, ao tempo, como uma passadeira rolante, que passa a uma velocidade maior do que o meu passo, por baixo dos meus pés sem que eu tropece, e nem sei se isso é bom, ou mau. talvez eu me demore nos dias, apesar do tempo passar.










segunda-feira, 2 de abril de 2018

ela







aqui















o problema - conta-me ela - é que arrancá-lo de dentro de mim, é assim como arrancar o trevo pela raiz... sabe?
sim, eu sei. lembro tão bem dos dedos enfiados na terra escura, funda e fresca, extraindo lentamente a raiz do trevo, para que não quebrasse, para que não ficasse nenhum pedaço que pudesse germinar outra vez, ainda mais forte
sim, eu sei
respondi-lhe
e o pior - continuou ela - é que, como no trevo, é muito maior a raiz escondida, do que a planta visível
pergunto-lhe como foi aquele sentimento acontecer
foram as palavras, sabe? as palavras subtilmente despertando partes de mim que eu não conhecia, e tecendo raízes à volta da alegria, da vontade de viver, da sensualidade. aprofundando-se. depois, partiu, antes de chegar, e eu fiquei assim, toda eu em desalinho.
quis eu saber
e agora?
agora a terra secou, toda ela argilosa, toda ela árida. aconteceu-me... e eu não sei como torná-la arável.














domingo, 1 de abril de 2018

sardinheiras







no horto, o funcionário do costume, coloca as três floreiras, com três vasos de sardinheiras cada uma, dentro da mala do carro, e diz naquele modo rude dele, ele, um ucraniano de semblante duro e fechado, de onde sai um sorriso a custo
a dona está a ver? três vasos em cada floreira, são na realidade dois. percebeu?
eu sorrio. percebi. parece-me que é a forma dele de mostrar revolta por um trabalho pouco reconhecido, e colaboro. agrada-me de várias formas a maneira de ele reclamar da injustiça
são três floreiras e seis sardinheiras
diz ele à dona do horto, uma mulher de olhar camaleónico e expressão baça. ela faz a conta, oferece-me um desconto de uns cêntimos, e eu pago, enquanto o homem passa por mim, sorrindo
pudesse eu, reagir à falta de respeito por mim, oferecendo flores aos outros. 










sábado, 31 de março de 2018

sexta-feira, 30 de março de 2018

penduranço












a dona fernanda chega a minha casa, atira o telemóvel pelo ar e
- 0}[€# da %"ª@!
e arranca as palavras de tal maneira de dentro dela, que eu diria que ainda latejam e transpiram sangue vivo
fico surpreendida. pensava eu que ela andava serena e ajustada com a vida e
- &§;$#@-se! outra vez pendurada na porcaria do telemóvel...
e o aparelho voa outra vez saltando nas almofadas do sofá e indo estatelar-se no chão
a dona fernanda não é pessoa de impropérios, mas sim de encontrar atenuantes para todos comportamentos, para todos deslizes, dos outros, claro. então fico sentada, ouvindo-a reclamar contra aquilo que permite que lhe aconteça, sabendo que a fúria dela nasce, precisamente por reconhecer em si, a responsabilidade pelo seu penduranço.









longínquo







primeiro deixou de tomar café, depois espaçou longamente o que a pudesse inebriar, de seguida reduziu os hidratos de carbono, eliminou o sal, o açúcar, a carne, e os lacticínios, e afastou-se, dentro do que lhe era possível, de tudo o que pudesse colocar o coração naquele bater descontrolado. deixou também de ver televisão, ir ao cinema, e mesmo os percursos que fazia de automóvel, eram em silêncio, raros eram os momentos em que a música preenchia a ausência de sons. os livros amontoavam-se no chão do quarto e da sala, com a leitura inacabada. tinha desaparecido a poesia, mas o seu coração há muito que não batia de forma tão regular
também o perdeu nas palavras que lhe faltaram e quase esqueceu o seu nome. ele tinha-se transformado num paradoxo longínquo. no entanto, a cada mínimo sinal dele, ainda os olhos se humedecem de comoção.  










segunda-feira, 26 de março de 2018

o josé dela e o meu josé












sempre que a mariana, a minha florista, me fala do seu josé, fica com os olhos azuis alagados de lágrimas, e eu fico com o coração em tropeços de não saber o que lhe fazer.
- ainda hoje a minha mãe me telefonou - conta-me - a dizer 'vós não tirais esta alegria ao menino nunca, ele anda sempre feliz'! e é, sabe? o meu josé é uma alegria sempre, que só visto.
- o meu josé também era assim - sussurro eu, logo logo arrependida por ter falado aquela recordação tão bonita, do rosto do meu josé sempre brilhando do sorriso que ele ainda hoje tem.
- é que eu tenho medo de não ser capaz, de não conseguir protegê-lo de tudo...
e os olhos azuis da mariana aprofundam-se mais de água que quer transbordar. eu sei, já lho senti, que aquela mãe está com um esgotamento de si, por não esgotar a preocupação que tem por não poder ser chão e céu e limites, e, ela mesma, vida para o seu filho viver
- não podemos tudo, sabe... - digo-lhe com ternura, como se ternura fosse código que ela pudesse entender - não podemos. eles têm a vida toda para viver sem nós. 
então eu lembro que o meu josé perdeu a alegria quando foi obrigado a ir para a escola, e aquele desencanto levou do seu rosto o brilho da alegria da infância. então o meu josé andou desfasado de si porque o seu mundo era tão maior, tão mais livre, tão mais paz, tão mais solidário, do que aquela realidade que foi obrigado a vestir e que não lhe servia. tantos números abaixo do dele. 
quase vinte anos passados, o meu josé recomeçou a encontrar farripas da alegria perdida, na forma que conquistou de poder ser o seu próprio sonho.
preocupa-me a fragilidade da mariana, e revolta-me que a essência do ser humano, em vez de ser alimentada e alicerçada desde que nasce, tenha que ser amordaçada e formatada, desconstruindo a alegria original. educamos desconstruindo, em nome do sucesso que os outros impõem, em nome de quaisquer valores sociais, que nem sequer são os meus, eu, que sou uma mulher do campo.