domingo, 1 de abril de 2018

sardinheiras







no horto, o funcionário do costume, coloca as três floreiras, com três vasos de sardinheiras cada uma, dentro da mala do carro, e diz naquele modo rude dele, ele, um ucraniano de semblante duro e fechado, de onde sai um sorriso a custo
a dona está a ver? três vasos em cada floreira, são na realidade dois. percebeu?
eu sorrio. percebi. parece-me que é a forma dele de mostrar revolta por um trabalho pouco reconhecido, e colaboro. agrada-me de várias formas a maneira de ele reclamar da injustiça
são três floreiras e seis sardinheiras
diz ele à dona do horto, uma mulher de olhar camaleónico e expressão baça. ela faz a conta, oferece-me um desconto de uns cêntimos, e eu pago, enquanto o homem passa por mim, sorrindo
pudesse eu, reagir à falta de respeito por mim, oferecendo flores aos outros. 










sábado, 31 de março de 2018

sexta-feira, 30 de março de 2018

penduranço












a dona fernanda chega a minha casa, atira o telemóvel pelo ar e
- 0}[€# da %"ª@!
e arranca as palavras de tal maneira de dentro dela, que eu diria que ainda latejam e transpiram sangue vivo
fico surpreendida. pensava eu que ela andava serena e ajustada com a vida e
- &§;$#@-se! outra vez pendurada na porcaria do telemóvel...
e o aparelho voa outra vez saltando nas almofadas do sofá e indo estatelar-se no chão
a dona fernanda não é pessoa de impropérios, mas sim de encontrar atenuantes para todos comportamentos, para todos deslizes, dos outros, claro. então fico sentada, ouvindo-a reclamar contra aquilo que permite que lhe aconteça, sabendo que a fúria dela nasce, precisamente por reconhecer em si, a responsabilidade pelo seu penduranço.









longínquo







primeiro deixou de tomar café, depois espaçou longamente o que a pudesse inebriar, de seguida reduziu os hidratos de carbono, eliminou o sal, o açúcar, a carne, e os lacticínios, e afastou-se, dentro do que lhe era possível, de tudo o que pudesse colocar o coração naquele bater descontrolado. deixou também de ver televisão, ir ao cinema, e mesmo os percursos que fazia de automóvel, eram em silêncio, raros eram os momentos em que a música preenchia a ausência de sons. os livros amontoavam-se no chão do quarto e da sala, com a leitura inacabada. tinha desaparecido a poesia, mas o seu coração há muito que não batia de forma tão regular
também o perdeu nas palavras que lhe faltaram e quase esqueceu o seu nome. ele tinha-se transformado num paradoxo longínquo. no entanto, a cada mínimo sinal dele, ainda os olhos se humedecem de comoção.  










segunda-feira, 26 de março de 2018

o josé dela e o meu josé












sempre que a mariana, a minha florista, me fala do seu josé, fica com os olhos azuis alagados de lágrimas, e eu fico com o coração em tropeços de não saber o que lhe fazer.
- ainda hoje a minha mãe me telefonou - conta-me - a dizer 'vós não tirais esta alegria ao menino nunca, ele anda sempre feliz'! e é, sabe? o meu josé é uma alegria sempre, que só visto.
- o meu josé também era assim - sussurro eu, logo logo arrependida por ter falado aquela recordação tão bonita, do rosto do meu josé sempre brilhando do sorriso que ele ainda hoje tem.
- é que eu tenho medo de não ser capaz, de não conseguir protegê-lo de tudo...
e os olhos azuis da mariana aprofundam-se mais de água que quer transbordar. eu sei, já lho senti, que aquela mãe está com um esgotamento de si, por não esgotar a preocupação que tem por não poder ser chão e céu e limites, e, ela mesma, vida para o seu filho viver
- não podemos tudo, sabe... - digo-lhe com ternura, como se ternura fosse código que ela pudesse entender - não podemos. eles têm a vida toda para viver sem nós. 
então eu lembro que o meu josé perdeu a alegria quando foi obrigado a ir para a escola, e aquele desencanto levou do seu rosto o brilho da alegria da infância. então o meu josé andou desfasado de si porque o seu mundo era tão maior, tão mais livre, tão mais paz, tão mais solidário, do que aquela realidade que foi obrigado a vestir e que não lhe servia. tantos números abaixo do dele. 
quase vinte anos passados, o meu josé recomeçou a encontrar farripas da alegria perdida, na forma que conquistou de poder ser o seu próprio sonho.
preocupa-me a fragilidade da mariana, e revolta-me que a essência do ser humano, em vez de ser alimentada e alicerçada desde que nasce, tenha que ser amordaçada e formatada, desconstruindo a alegria original. educamos desconstruindo, em nome do sucesso que os outros impõem, em nome de quaisquer valores sociais, que nem sequer são os meus, eu, que sou uma mulher do campo.










domingo, 25 de março de 2018

como passei o domingo?
























Fiz uma pavlova com framboesas, amoras e morangos dentro. Ao trincar, senti a mistura do suspiro húmido e crocante, com a frescura dos frutos envolvidos em natas levemente adoçadas com iogurte grego. Depois fiquei a ver as nuvens a passar no céu. E ver as nuvens a passar no céu enche bem uma tarde de domingo.

o homem da palestra:

"O que fazes hoje?
Nada. Hoje é domingo.

(...) vocês têm esta divisão do tempo semanal em módulos, e sábado, para umas culturas, e domingo para outras, devia ser o dia em que o tempo terrestre se alinha com o tempo cósmico, em que kronos se alinha com kairos, e kairos e kronos se alinham com aéon.

Kairos, é o tempo que não é dos deuses nem dos homens, o tempo intermédio, o tempo mágico, a sensação de tempo quando estamos profundamente entusiasmados, empenhados e energizados. A percepção do tempo resulta do entusiasmo. (…) kairos é a experiência de estar com um pé no tempo, e com um pé fora do tempo. Kairos é o que acontece quando estás a ver uma bailarina, ou uma companhia inteira de ballet e a ultima coisa que pensas é em tempo. Mas o tempo está a passar, mas a nossa percepção é que é diferente. Acima de kairos e de kronos existe aéon, tempo que não passa."



















saltarello









      Então o salgueiro com cara de velha, levou o homem a pisar a terra, como quem reza, levou-o a dançar, como quem celebra, banhou-o com o mar e fez com que a sua pele nua amornasse, na caricia do sol. Ela levou-o, feito águia, a olhar-se de cima para a sua grandeza, e fê-lo reconhecer-se. Então ele aprendeu nos seus gestos o poder da borboleta e percebeu que o seu corpo é um templo sagrado. Então sossegou e adormeceu.











sábado, 24 de março de 2018

espera










foi quando o homem soube que o seu pâncreas não estava a funcionar normalmente, que resolveu quebrar a barreira e convidá-la para um concerto de jazz, um espectáculo que ele não poderia pagar, mas ainda assim arriscou um 
o que achas de vires comigo?
foi talvez nesse dia que ele percebeu que pode, de repente, ser muito muito frágil
estás bonita
inesperadamente é o corpo que urge no tempo, porque a alma, afinal de contas, pode esperar.










a alegria evita que os electrodomésticos avariem









agradeço aos animais de barbatanas e guelras, terem estado presentes neste circulo sagrado. agradeço o reencontro, a fluidez, agradeço a comunicação e a compreensão, agradeço a alegria e a cura.
o reencontro
tinha voltado ali para voltar a mim. tinha voltado àquele lugar para ouvir o que sempre me foi dito.
a alegria
a alegria é oração, a alegria é gratidão, a alegria é cura, a alegria expande o tempo, a alegria evita que os electrodomésticos avariem. é celebração.











sexta-feira, 23 de março de 2018

flor































foi quando me pousaram nas mãos um ramo de violetas, que percebi que se tinha tornado mais fácil para mim falar de política internacional. apesar da delicadeza da flor e da espontaneidade do gesto, continuei a defender a minha ideia de que o zimbabwe se está a tornar um exemplo de humanismo para os países europeus.