sexta-feira, 30 de março de 2018

penduranço












a dona fernanda chega a minha casa, atira o telemóvel pelo ar e
- 0}[€# da %"ª@!
e arranca as palavras de tal maneira de dentro dela, que eu diria que ainda latejam e transpiram sangue vivo
fico surpreendida. pensava eu que ela andava serena e ajustada com a vida e
- &§;$#@-se! outra vez pendurada na porcaria do telemóvel...
e o aparelho voa outra vez saltando nas almofadas do sofá e indo estatelar-se no chão
a dona fernanda não é pessoa de impropérios, mas sim de encontrar atenuantes para todos comportamentos, para todos deslizes, dos outros, claro. então fico sentada, ouvindo-a reclamar contra aquilo que permite que lhe aconteça, sabendo que a fúria dela nasce, precisamente por reconhecer em si, a responsabilidade pelo seu penduranço.









longínquo







primeiro deixou de tomar café, depois espaçou longamente o que a pudesse inebriar, de seguida reduziu os hidratos de carbono, eliminou o sal, o açúcar, a carne, e os lacticínios, e afastou-se, dentro do que lhe era possível, de tudo o que pudesse colocar o coração naquele bater descontrolado. deixou também de ver televisão, ir ao cinema, e mesmo os percursos que fazia de automóvel, eram em silêncio, raros eram os momentos em que a música preenchia a ausência de sons. os livros amontoavam-se no chão do quarto e da sala, com a leitura inacabada. tinha desaparecido a poesia, mas o seu coração há muito que não batia de forma tão regular
também o perdeu nas palavras que lhe faltaram e quase esqueceu o seu nome. ele tinha-se transformado num paradoxo longínquo. no entanto, a cada mínimo sinal dele, ainda os olhos se humedecem de comoção.  










segunda-feira, 26 de março de 2018

o josé dela e o meu josé












sempre que a mariana, a minha florista, me fala do seu josé, fica com os olhos azuis alagados de lágrimas, e eu fico com o coração em tropeços de não saber o que lhe fazer.
- ainda hoje a minha mãe me telefonou - conta-me - a dizer 'vós não tirais esta alegria ao menino nunca, ele anda sempre feliz'! e é, sabe? o meu josé é uma alegria sempre, que só visto.
- o meu josé também era assim - sussurro eu, logo logo arrependida por ter falado aquela recordação tão bonita, do rosto do meu josé sempre brilhando do sorriso que ele ainda hoje tem.
- é que eu tenho medo de não ser capaz, de não conseguir protegê-lo de tudo...
e os olhos azuis da mariana aprofundam-se mais de água que quer transbordar. eu sei, já lho senti, que aquela mãe está com um esgotamento de si, por não esgotar a preocupação que tem por não poder ser chão e céu e limites, e, ela mesma, vida para o seu filho viver
- não podemos tudo, sabe... - digo-lhe com ternura, como se ternura fosse código que ela pudesse entender - não podemos. eles têm a vida toda para viver sem nós. 
então eu lembro que o meu josé perdeu a alegria quando foi obrigado a ir para a escola, e aquele desencanto levou do seu rosto o brilho da alegria da infância. então o meu josé andou desfasado de si porque o seu mundo era tão maior, tão mais livre, tão mais paz, tão mais solidário, do que aquela realidade que foi obrigado a vestir e que não lhe servia. tantos números abaixo do dele. 
quase vinte anos passados, o meu josé recomeçou a encontrar farripas da alegria perdida, na forma que conquistou de poder ser o seu próprio sonho.
preocupa-me a fragilidade da mariana, e revolta-me que a essência do ser humano, em vez de ser alimentada e alicerçada desde que nasce, tenha que ser amordaçada e formatada, desconstruindo a alegria original. educamos desconstruindo, em nome do sucesso que os outros impõem, em nome de quaisquer valores sociais, que nem sequer são os meus, eu, que sou uma mulher do campo.










domingo, 25 de março de 2018

como passei o domingo?
























Fiz uma pavlova com framboesas, amoras e morangos dentro. Ao trincar, senti a mistura do suspiro húmido e crocante, com a frescura dos frutos envolvidos em natas levemente adoçadas com iogurte grego. Depois fiquei a ver as nuvens a passar no céu. E ver as nuvens a passar no céu enche bem uma tarde de domingo.

o homem da palestra:

"O que fazes hoje?
Nada. Hoje é domingo.

(...) vocês têm esta divisão do tempo semanal em módulos, e sábado, para umas culturas, e domingo para outras, devia ser o dia em que o tempo terrestre se alinha com o tempo cósmico, em que kronos se alinha com kairos, e kairos e kronos se alinham com aéon.

Kairos, é o tempo que não é dos deuses nem dos homens, o tempo intermédio, o tempo mágico, a sensação de tempo quando estamos profundamente entusiasmados, empenhados e energizados. A percepção do tempo resulta do entusiasmo. (…) kairos é a experiência de estar com um pé no tempo, e com um pé fora do tempo. Kairos é o que acontece quando estás a ver uma bailarina, ou uma companhia inteira de ballet e a ultima coisa que pensas é em tempo. Mas o tempo está a passar, mas a nossa percepção é que é diferente. Acima de kairos e de kronos existe aéon, tempo que não passa."



















saltarello









      Então o salgueiro com cara de velha, levou o homem a pisar a terra, como quem reza, levou-o a dançar, como quem celebra, banhou-o com o mar e fez com que a sua pele nua amornasse, na caricia do sol. Ela levou-o, feito águia, a olhar-se de cima para a sua grandeza, e fê-lo reconhecer-se. Então ele aprendeu nos seus gestos o poder da borboleta e percebeu que o seu corpo é um templo sagrado. Então sossegou e adormeceu.











sábado, 24 de março de 2018

espera










foi quando o homem soube que o seu pâncreas não estava a funcionar normalmente, que resolveu quebrar a barreira e convidá-la para um concerto de jazz, um espectáculo que ele não poderia pagar, mas ainda assim arriscou um 
o que achas de vires comigo?
foi talvez nesse dia que ele percebeu que pode, de repente, ser muito muito frágil
estás bonita
inesperadamente é o corpo que urge no tempo, porque a alma, afinal de contas, pode esperar.










a alegria evita que os electrodomésticos avariem









agradeço aos animais de barbatanas e guelras, terem estado presentes neste circulo sagrado. agradeço o reencontro, a fluidez, agradeço a comunicação e a compreensão, agradeço a alegria e a cura.
o reencontro
tinha voltado ali para voltar a mim. tinha voltado àquele lugar para ouvir o que sempre me foi dito.
a alegria
a alegria é oração, a alegria é gratidão, a alegria é cura, a alegria expande o tempo, a alegria evita que os electrodomésticos avariem. é celebração.











sexta-feira, 23 de março de 2018

flor































foi quando me pousaram nas mãos um ramo de violetas, que percebi que se tinha tornado mais fácil para mim falar de política internacional. apesar da delicadeza da flor e da espontaneidade do gesto, continuei a defender a minha ideia de que o zimbabwe se está a tornar um exemplo de humanismo para os países europeus.












quinta-feira, 22 de março de 2018

tipo traça








a voz da mulher que dizem que carrega uma doença soou-me melhor esta manhã, quando lhe liguei com o coração pousado no outro sofá para não o sobrecarregar com a angústia da impotência.
[ainda bem que conservei a pequena borboleta dourada comigo.]
quando há dois dias a mulher que dizem que carrega uma doença, entrou em minha casa, à procura de comida e de um abraço e de uns ouvidos tipo ecoponto, vinha derrotada
- andei tanto para aqui chegar e agora morrer não pode ser... apareceram-me bolinhas em todo o lado que me doía estupidamente e não sei o que fazer.
ela vertia a alma dela para dentro do meu peito enquanto eu obrigava-a a levar empadas de frango e nuggets saudáveis para fazer no forno
- leva que é bom. são panados com iogurte e pão ralado feito cá em casa com pão fresco. tens que comer bem e descansar. 
ela ia rendendo-se ao que eu lhe pedia, enquanto a alma se tornava mais leve, e a borboleta lhe saltitava nos cabelos indo pousar na pálpebra.
- a minha borboleta pousou em ti...
alertei, para que ela não a magoasse, pensando cá para mim que era bom sinal
- tu tens uma borboleta?
- sim, vive comigo há tempo demais para ela
talvez à espera dela
[a mulher que dizem que carrega uma doença não estranha nenhuma das minhas estranhezas a não ser a disponibilidade para a ouvir]
na despedida
- dá-me um abraço. hoje preciso mesmo
- mas tenho medo de magoar as tuas bolinhas... 
enquanto fazia do meu abraço uma concha, e do meu peito um alívio











quarta-feira, 21 de março de 2018

podia ser deus










quis o altíssimo colocar-me logo de manhã, diante do olhar, um dia de sol, o pisco e um vaso de amores-perfeitos pequeninos. fragilidade, pensei eu, delicadeza e resiliência.

a sala de espera do hospital estava de tal maneira repleta de pessoas que era com dificuldade que se tirava a senha de atendimento.
[50 pessoas à minha frente, e onde está deus no meio destas pessoas todas que misturam doenças de tão encostadas que estão umas às outras]

uma mulher atira palavras como quem se agarra a uma bóia de salvamento, com o olhar preso no de um homem negro, que lhe respondia com calma, sorrindo. ela segurava-se à corda invisível que formavam as suas palavras até ao sorriso dele, como o náufrago se agarra a um bote desfeito.

não custa nada, respondo, perante o doeu? da mulher assustada. não se preocupe, não vai custar nada, digo-lhe, escondendo o meu desconforto, alimentando a esperança no meu peito de que ela consiga quebrar a frieza dos três médicos naquela sala gelada.
a cadeira de Humanidade devia constar do curso de medicina.