segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Colo






A mulher adormece enquanto segura uma garrafa de água em cima do peito. Acorda para colocar lenha na lareira e torna a adormecer. A vela do menino Jesus está acesa, as luzes da árvore de Natal, alternam suavemente os tons. Apenas ela dorme. Dir-se-ia que naquela tarde descansa todos os cansaços dos dias, para poder recomeçar de novo, com esperança nalguma leveza, nalguma magia, nalgum milagre. Entretanto, dorme, e aninha-se no colo de deus.







Mudem os ventos








As nuvens passam desenfreadas vindas de terras onde apenas mora o frio. São tantos os dias em que a mulher da beira do rio espera, que os seus olhos derramaram todo verde na correnteza plumea do rio, sequiosa do sabor do sal nos lábios, que lhe traz aquele constante fundir-se no mar.
A mulher da beira do rio murmura promessas ao vento para que venha de sul, para que traga carícia, para que traga mansidão, para que traga repouso, para que traga abraço.








domingo, 24 de dezembro de 2017

Manjedoura









Senhor, de todas as perguntas com que Tu me deixas, há uma que cresce dentro de mim:" que fazes do teu tempo?". Sabes, perco-me nas tarefas, nas voltas a dar, nesta e naquela responsabilidade, num imprevisto... E no meio disso tudo, confesso, o tempo da minha vida assemelha-se mais a uma fuga que a uma sementeira. Neste Advento queria pedir-te luz, para o modo de viver e repartir o meu tempo. Ajuda-me a realizar o meu trabalho e o meu lazer, o meu esforço e a minha pausa como tempos de dádiva e encontro. Como tempos que sejam apenas tempo, mas circulação de entusiasmoe afecto, circulação de vida. Peço-Te que a minha mão aberta, se torne muitas vezes manjedoura.

José Tolentino Mendonça 







sábado, 23 de dezembro de 2017

A noite mais longa do ano









também houve um tempo em que eu esperava com ansiedade que dezembro passasse, que o natal passasse, que os fretes passassem, que as compras passassem, que o faz-de-conta passasse.
mas agora, desde que ficaram para trás essas grandezas, peço a kairos que a noite de consoada seja lenta, que se demore, que seja gerundio.
é na noite de consoada que aqui estamos sem pressas, que jantamos devagar, que sabemos que ninguém vai sair, que conversamos toda a noite, contamos anedotas e rimos, que nos prolongamos, e estamos, juntos. todos nós estamos inteiros nesta noite inteira. esta sim, é a noite mais longa do ano, é a noite em que sou mãe, sou filha, sou humana, sou terra, sou abrigo, sou graça e sou grata.









sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

sentem?









a mulher conta do homem que falava na palestra e que de vez em quando perguntava sentem o que estou a dizer?
diz ela
eu sinto. antes de entender, eu sinto. assim como o sinto antes de o conhecer, e sei que o sentir vai mais fundo, fundo dentro de mim e fundo dentro dele. o conhecer fica à tona, eu mergulho quando sinto.










quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

stars











     ele faria anos hoje, doutor, sabe? 60... e não consigo imaginá-lo com 60 anos embora na altura ele já tivesse muitos cabelos brancos.
- obrigada por lhe teres dado anos de vida
disseram-me na altura, enquanto eu pensava que se não me tivesse zangado na véspera, por ele ter recomeçado a beber e ter deitado fora todas as garrafas de álcool que encontrei, talvez ele apenas tivesse bebido uma garrafa, tivesse adormecido, e no dia seguinte continuasse por mais um dia, e outro dia atrás de outro, em vez daquele beijo de bom dia e de fico a dormir mais um bocado, vai indo, para depois resolver partir mais cedo, sem uma justificação, sem nada.
a vida é tão estranha, doutor, e quando penso nisto fico tão pesada outra vez, como naquele dia em que me ria enquanto a polícia me obrigava a dar a notícia à mãe dele. e os dias a fio sem querer fechar os olhos para dormir. e a vida toda sem chorar morte nenhuma, sem chorar a minha vida do avesso.
agora, doutor? já passou tanto tempo que ele já está bonito outra vez, e já é luz outra vez, e segreda-me avisos ao ouvido, sem que eu o veja. e eu só fico pesada quando penso nisto outra vez, como agora. e se lhe digo isto aqui, a si, é porque ainda não sei onde arrumar aquele dia, aqueles dias, aquelas máquinas no hospital, a chacota dos médicos enquanto as desligavam, eu ali.
mas agora esta tudo bem. só que eu que esqueço tudo, e isto, olhe...








quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

dona fernanda recicla









este ardor no estômago que me provoca a ausência dele, humaniza-me, e torna-me mais compreensiva para com a tristeza que o outro sente, pela minha distância, conta-me a dona fernanda, numa tentativa de transformar a falta que ele lhe faz, em algo que a faça ser mais gente.









terça-feira, 19 de dezembro de 2017

infinitivo











ele queria arrancar dela que sente saudades dele. mas ela foge
- eu não te entendo. faltam-me peças no teu puzzle
- tens que procurar mas acredito que te falte tempo
ele sabe que o tempo que quer dela é terreno pantanoso
- falta-me tempo para mim
- para tudo
continua ele, com cautela
- sim. mas não arrasto ninguém comigo nesse sumidouro de tempo
- pois não. tratas melhor os outros do que a ti
naquele momento ela já se ausentara na falta da força da vontade para ouvir
- mas há a criatividade
tenta ele, sem perceber que a quem falava já tinha levado a alma para outras paragens
- pouca
responde, enquanto lá debaixo da pele sabe que inventaria tempo e espaço por um momento que a infinitivasse, que a parasse no tempo














fragilidade








disse ao homem forte que estava bonito e ele fragilizou










segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

chá de camomila





- sabe, tenho mais confiança naquele, ausente, que não vejo, nem ouço, nem leio, do que neste que todos os dias me faz juras de amor e está sempre presente
a dona fernanda veio tomar um café, bem cedo, pelo frio da manhã, e conta-me de si
- pense bem, vizinha
digo-lhe, ainda com um pé do lado de lá do sono
- ah... tanto tempo para sentir a intuição, e agora hei-de rejeitá-la?
enquanto aqueço as mãos na minha chávena de chá de camomila, penso enternecidamente na minha vizinha, não consigo evitar. cada passo que ela dá, cada charco, e continua, encharcada, enlameada, enregelada, amalgamada.