este ardor no estômago que me provoca a ausência dele, humaniza-me, e torna-me mais compreensiva para com a tristeza que o outro sente, pela minha distância, conta-me a dona fernanda, numa tentativa de transformar a falta que ele lhe faz, em algo que a faça ser mais gente.
ele queria arrancar dela que sente saudades dele. mas ela foge - eu não te entendo. faltam-me peças no teu puzzle - tens que procurar mas acredito que te falte tempo ele sabe que o tempo que quer dela é terreno pantanoso - falta-me tempo para mim - para tudo continua ele, com cautela - sim. mas não arrasto ninguém comigo nesse sumidouro de tempo - pois não. tratas melhor os outros do que a ti naquele momento ela já se ausentara na falta da força da vontade para ouvir - mas há a criatividade tenta ele, sem perceber que a quem falava já tinha levado a alma para outras paragens - pouca responde, enquanto lá debaixo da pele sabe que inventaria tempo e espaço por um momento que a infinitivasse, que a parasse no tempo
- sabe, tenho mais confiança naquele, ausente, que não vejo, nem ouço, nem leio, do que neste que todos os dias me faz juras de amor e está sempre presente a dona fernanda veio tomar um café, bem cedo, pelo frio da manhã, e conta-me de si - pense bem, vizinha digo-lhe, ainda com um pé do lado de lá do sono - ah... tanto tempo para sentir a intuição, e agora hei-de rejeitá-la? enquanto aqueço as mãos na minha chávena de chá de camomila, penso enternecidamente na minha vizinha, não consigo evitar. cada passo que ela dá, cada charco, e continua, encharcada, enlameada, enregelada, amalgamada.
sento-me no chão em frente à lareira, a pontear meias. faz tanto tempo que não ponteio meias... ficaria ali a noite toda. quando as mulheres costuravam a roupa dos seus, com calma, com amor, com saber, remendavam o mundo, consertavam a vida. ponteio meias por dentro de mim.
acordas num domingo, deitas numa taça ou bacia, no meu caso, farinha, fermento padeiro seco (na proporção de um quilo para um pacote de 15 grs, mais ou menos. tudo mais ou menos) e azeite a olho (eu deito sempre muito azeite), amassas tudo com água morna até despegar da mão e deixas a descansar na dita bacia ou taça, durante pelo menos duas horas, mas podem ser mais. por exemplo vais caminhar ou tomar café e deixas isso a descansar. (coze ovos) aqueces o forno, pincelas um tabuleiro com azeite, esticas a massa, colocas no tabuleiro, pincelas com azeite, polvilhas com alho seco e oregãos, e deitas as tais sobras de bolonhesa que já não davam para uma refeição. por cima da bolonhesa, queijo mozzarella, fiambre cortado com a tesoura e ovo cozido picado. se não quiseres isto, junta tudo o que te apetecer. e pronto. é daquelas coisas que são boas para quem come. faz a mais para ficar para o lanche, jantar e ceia. depois de lavares os tabuleiros, respira fundo e descansa. é domingo, dia de reconhecer o divino em tudo.
- eu não o quero, mas sinto a falta dele. és capaz de me explicar? - racionalmente não o queres... - emocionalmente também não...não entendo. tu percebes? eu, que também ando às voltas com umas formas de não quereres, meto os pés pelas mãos - mas essa falta que tu sentes, achas que um outro homem, que não ele, poderia satisfazê-la? 10 segundos de silêncio - acho. acho que sim - então não é a falta dele que tu sentes - tens razão. eu preciso de um companheiro, preciso de me sentir amparada, alguém com quem conversar, alguém para partilhar
acho que foi quando comecei a negligenciar os pardais que comecei a distanciar-me do que realmente é importante. também deixei morrer duas folhas de violetas já a prometer lançar raízes, não percebi o aniversário de uma amiga, deixei de oferecer bolachas e esqueci-me de que o amor também se fala com gestos.