terça-feira, 19 de dezembro de 2017
segunda-feira, 18 de dezembro de 2017
chá de camomila
a dona fernanda veio tomar um café, bem cedo, pelo frio da manhã, e conta-me de si
- pense bem, vizinha
digo-lhe, ainda com um pé do lado de lá do sono
- ah... tanto tempo para sentir a intuição, e agora hei-de rejeitá-la?
enquanto aqueço as mãos na minha chávena de chá de camomila, penso enternecidamente na minha vizinha, não consigo evitar. cada passo que ela dá, cada charco, e continua, encharcada, enlameada, enregelada, amalgamada.
domingo, 17 de dezembro de 2017
ou peúgas
quando as mulheres costuravam a roupa dos seus, com calma, com amor, com saber, remendavam o mundo, consertavam a vida.
ponteio meias por dentro de mim.
Caminho
É-lhe negada a entrada
- O caminho terás que o fazer descalça
Descalça-se
- Para atingires o que queres terás que seguir descalça e nua. Ser por fora o que és por dentro e viver com o ser inteiro
- Preciso de saber mais
- Isto é tudo
sobras de bolonhesa
acordas num domingo, deitas numa taça ou bacia, no meu caso, farinha, fermento padeiro seco (na proporção de um quilo para um pacote de 15 grs, mais ou menos. tudo mais ou menos) e azeite a olho (eu deito sempre muito azeite), amassas tudo com água morna até despegar da mão e deixas a descansar na dita bacia ou taça, durante pelo menos duas horas, mas podem ser mais. por exemplo vais caminhar ou tomar café e deixas isso a descansar. (coze ovos)
aqueces o forno, pincelas um tabuleiro com azeite, esticas a massa, colocas no tabuleiro, pincelas com azeite, polvilhas com alho seco e oregãos, e deitas as tais sobras de bolonhesa que já não davam para uma refeição. por cima da bolonhesa, queijo mozzarella, fiambre cortado com a tesoura e ovo cozido picado. se não quiseres isto, junta tudo o que te apetecer.
e pronto. é daquelas coisas que são boas para quem come.
faz a mais para ficar para o lanche, jantar e ceia.
depois de lavares os tabuleiros, respira fundo e descansa. é domingo, dia de reconhecer o divino em tudo.
sábado, 16 de dezembro de 2017
os pés pelas mãos
- racionalmente não o queres...
- emocionalmente também não...não entendo. tu percebes?
eu, que também ando às voltas com umas formas de não quereres, meto os pés pelas mãos
- mas essa falta que tu sentes, achas que um outro homem, que não ele, poderia satisfazê-la?
10 segundos de silêncio
- acho. acho que sim
- então não é a falta dele que tu sentes
- tens razão. eu preciso de um companheiro, preciso de me sentir amparada, alguém com quem conversar, alguém para partilhar
sexta-feira, 15 de dezembro de 2017
linguagem gestual
quinta-feira, 14 de dezembro de 2017
chi
a mulher doente responde-me com a mesma pergunta para recuar umas horas no dia
- olha, basicamente quer que eu coma o que me faz sentir feliz. mas também produtos frescos, sem serem congelados, e da época. porque têm chi, sabes? os produtos congelados perdem o chi, e agora eu preciso é de chi. e, sobre tudo ele quer que eu esteja alegre. disse-me que preciso de alegria. a alegria carrega o nosso chi e é a parte principal da cura.
estamos só as duas e conversamos enquanto ela me dá a aula de yoga. as posturas de equilíbrio são aquelas em que tenho dificuldade. enquanto tento fazer a da águia, o meu corpo balança como um carrossel. descubro que balançando, consigo manter-me dobrada sobre um pé.
- não pode o meu equilíbrio estar no meu desequilíbrio?
quarta-feira, 13 de dezembro de 2017
ela e os eles dele
ele é grande demais para caber num só, argumentou a mulher, ou então, serei eu que não tenho tamanho para tanta imensidão.
então decidiu seccioná-lo e dividiu-o
nele, que fazia de conta, e brincava de ser corpo e de se passear pela pele. trocava as palavras e jogava às adivinhas fazendo do pequeno grande e das aparências barquinhos de cascas de noz. também gostava de a percorrer despertando desejos e depois sair por aí a colher poemas e distribuir músicas daquelas que já ninguém ouve.
ele às vezes era alegre e outras triste. como as pessoas. e gostava de praia e sol e de flores e de fruta. também gostava de chocolate que comia às escondidas dele mesmo.
se tivesse um cheiro, ele cheiraria a relva cortada de fresco
numa velha caixa de charutos tinha guardado o sisudo. aquele que olhava para a vida com olhos de gente crescida e séria como se carregasse a história do mundo nos ombros. governos, amores, traições, derrotas e glórias.
este também sofria de amor e raramente se alegrava, como se para amar não pudesse ser leve e feliz.
passava dias debaixo de um candeeiro de leitura com os óculos na ponta do nariz mergulhado em livros
se tivesse cheiro, cheiraria a bafio, a corpo constipado
a este que vou descrever agora, ela guardou-o numa caixa de pau santo com tampa de madrepérola, de forma a que parecia ser transparente, mas não era.
só de noite, no recato que antecede o dormir, se atrevia a levantar a tampa. então aí ela encontrava-o absorto dela, num mundo onde ela não existia. aí, ele movimentava-se com rapidez e falava com palavras que ela não entendia.
sustentava-se em mecanismos metálicos e frios, usava a linguagem dos números e cada pormenor (da sua vida dele) tinha o encaixe perfeito nos mapas que ele próprio desenhava
se este homem tivesse um cheiro, cheiraria a metal oxidado.
num ninho feito com novelos de algodão, ela guardava a parte em que ele era família, era cuidado, era respeito, era fraterno, era amor velado. nesse ninho ela nunca mexera, mas tinha por ele muito carinho e se tivesse um cheiro, seria o aroma suave das rosas
de fora dos homens desse homem, estava guardado o coração que se lhes unia com artérias douradas providas de um passador que regulava a quantidade de amor que passava para dentro do seu peito.
10% para o primeiro, 1% para o segundo, 0,05% para o terceiro, 20% para o quarto e 67,95% para o seu eterno amor
foi no jogo da minha mãe dá licença, com o primeiro, que o terceiro ganhou força. no momento em que, obedecendo à ordem de dez passos à caranguejo, ela descaiu os pé no rubicão, aquele rio dourado que separava mundos.
só com 0,05% do líquido que lhe vinha do coração, cortar, separar, reduzir, anular, eram tarefas que o terceiro fazia com rapidez e aprumo. de tal forma rápido que os outros três não tinham tempo para intervir.
então foi assim que quando ela molhou o pé no rubicão, ele, com um tempo de reacção imediato, tomou controlo dos outros todos
sobre isso aí acima, conta a mulher, que sobre o rubicão, apenas conhecia a frase allea jacta est que o seu pai usava quando o único caminho que havia para tomar era para a frente, e sobre o homem
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