domingo, 17 de dezembro de 2017

ou peúgas








sento-me no chão em frente à lareira, a pontear meias. faz tanto tempo que não ponteio meias... ficaria ali a noite toda.
quando as mulheres costuravam a roupa dos seus, com calma, com amor, com saber, remendavam o mundo, consertavam a vida. 
ponteio meias por dentro de mim.









Caminho








É-lhe negada a entrada
- O caminho terás que o fazer descalça
Descalça-se
- Para atingires o que queres terás que seguir descalça e nua. Ser por fora o que és por dentro e viver com o ser inteiro
- Preciso de saber mais
- Isto é tudo








sobras de bolonhesa







acordas num domingo, deitas numa taça ou bacia, no meu caso, farinha, fermento padeiro seco (na proporção de um quilo para um pacote de 15 grs, mais ou menos. tudo mais ou menos) e azeite a olho (eu deito sempre muito azeite), amassas tudo com água morna até despegar da mão e deixas a descansar na dita bacia ou taça, durante pelo menos duas horas, mas podem ser mais. por exemplo vais caminhar ou tomar café e deixas isso a descansar. (coze ovos)
aqueces o forno, pincelas um tabuleiro com azeite, esticas a massa, colocas no tabuleiro, pincelas com azeite, polvilhas com alho seco e oregãos, e deitas as tais sobras de bolonhesa que já não davam para uma refeição. por cima da bolonhesa, queijo mozzarella, fiambre cortado com a tesoura e ovo cozido picado. se não quiseres isto, junta tudo o que te apetecer. 

e pronto. é daquelas coisas que são boas para quem come.

faz a mais para ficar para o lanche, jantar e ceia.

depois de lavares os tabuleiros, respira fundo e descansa. é domingo, dia de reconhecer o divino em tudo.









sábado, 16 de dezembro de 2017

os pés pelas mãos











- eu não o quero, mas sinto a falta dele. és capaz de me explicar?
- racionalmente não o queres...
- emocionalmente também não...não entendo. tu percebes?
eu, que também ando às voltas com umas formas de não quereres, meto os pés pelas mãos
- mas essa falta que tu sentes, achas que um outro homem, que não ele, poderia satisfazê-la?
10 segundos de silêncio
- acho. acho que sim
- então não é a falta dele que tu sentes
- tens razão. eu preciso de um companheiro, preciso de me sentir amparada, alguém com quem conversar, alguém para partilhar














sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

o Pedro












Nunca invejou ninguém: era livre. Nunca disse mal de ninguém: era livre. Nunca discutiu com ninguém: era livre. Fez sempre, desde criança, o que quis: era livre. Não lhe interessava o dinheiro, nem o sucesso, nem o aplauso dos outros. Não criticava fosse quem fosse. Não falava mal de ninguém.

antónio lobo antunes









linguagem gestual









acho que foi quando comecei a negligenciar os pardais que comecei a distanciar-me do que realmente é importante. também deixei morrer duas folhas de violetas já a prometer lançar raízes, não percebi o aniversário de uma amiga, deixei de oferecer bolachas e esqueci-me de que o amor também se fala com gestos.











quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

chi











- o que ele quer que eu coma?
a mulher doente responde-me com a mesma pergunta para recuar umas horas no dia
- olha, basicamente quer que eu coma o que me faz sentir feliz. mas também produtos frescos, sem serem congelados, e da época. porque têm chi, sabes? os produtos congelados perdem o chi, e agora eu preciso é de chi. e, sobre tudo ele quer que eu esteja alegre. disse-me que preciso de alegria. a alegria carrega o nosso chi e é a parte principal da cura.
estamos só as duas e conversamos enquanto ela me dá a aula de yoga. as posturas de equilíbrio são aquelas em que tenho dificuldade. enquanto tento fazer a da águia, o meu corpo balança como um carrossel. descubro que balançando, consigo manter-me dobrada sobre um pé.
- não pode o meu equilíbrio estar no meu desequilíbrio? 













quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

ela e os eles dele









ele é grande demais para caber num só, argumentou a mulher, ou então, serei eu que não tenho tamanho para tanta imensidão.
então decidiu seccioná-lo e dividiu-o 

nele, que fazia de conta, e brincava de ser corpo e de se passear pela pele. trocava as palavras e jogava às adivinhas fazendo do pequeno grande e das aparências barquinhos de cascas de noz. também gostava de a percorrer despertando desejos e depois sair por aí a colher poemas e distribuir músicas daquelas que já ninguém ouve. 
ele às vezes era alegre e outras triste. como as pessoas. e gostava de praia e sol e de flores e de fruta. também gostava de chocolate que comia às escondidas dele mesmo.
se tivesse um cheiro, ele cheiraria a relva cortada de fresco

numa velha caixa de charutos tinha guardado o sisudo. aquele que olhava para a vida com olhos de gente crescida e séria como se carregasse a história do mundo nos ombros. governos, amores, traições, derrotas e glórias. 
este também sofria de amor e raramente se alegrava, como se para amar não pudesse ser leve e feliz. 
passava dias debaixo de um candeeiro de leitura com os óculos na ponta do nariz mergulhado em livros
se tivesse cheiro, cheiraria a bafio, a corpo constipado

a este que vou descrever agora, ela guardou-o numa caixa de pau santo com tampa de madrepérola, de forma a que parecia ser transparente, mas não era. 
só de noite, no recato que antecede o dormir, se atrevia a levantar a tampa. então aí ela encontrava-o absorto dela, num mundo onde ela não existia. aí, ele movimentava-se com rapidez e falava com palavras que ela não entendia. 
sustentava-se em mecanismos metálicos e frios, usava a linguagem dos números e cada pormenor (da sua vida dele) tinha o encaixe perfeito nos mapas que ele próprio desenhava
se este homem tivesse um cheiro, cheiraria a metal oxidado.

num ninho feito com novelos de algodão, ela guardava a parte em que ele era família, era cuidado, era respeito, era fraterno, era amor velado. nesse ninho ela nunca mexera, mas tinha por ele muito carinho e se tivesse um cheiro, seria o aroma suave das rosas

de fora dos homens desse homem, estava guardado o coração que se lhes unia com artérias douradas providas de um passador que regulava a quantidade de amor que passava para dentro do seu peito.
10% para o primeiro, 1% para o segundo, 0,05% para o terceiro, 20% para o quarto e 67,95% para o seu eterno amor

foi no jogo da minha mãe dá licença, com o primeiro, que o terceiro ganhou força. no momento em que, obedecendo à ordem de dez passos à caranguejo, ela descaiu os pé no rubicão, aquele rio dourado que separava mundos.
só com 0,05% do líquido que lhe vinha do coração, cortar, separar, reduzir, anular, eram tarefas que o terceiro fazia com rapidez e aprumo. de tal forma rápido que os outros três não tinham tempo para intervir.
então foi assim que quando ela molhou o pé no rubicão, ele, com um tempo de reacção imediato, tomou controlo dos outros todos

sobre isso aí acima, conta a mulher, que sobre o rubicão, apenas conhecia a frase allea jacta est que o seu pai usava quando o único caminho que havia para tomar era para a frente, e sobre o homem









terça-feira, 12 de dezembro de 2017

impropérios










seguido de um extenso rol de impropérios, digno de uma nortenha, o meu telemóvel mergulhou, pela primeira, e, muito provavelmente, última vez, na sanita. repousa agora e quiçá por toda a eternidade, numa taça coberto de arroz carolino do continente. 
(alguém sabe por quanto tempo tem que estar assim em coma induzido?)
por largos minutos esqueci tudo o resto. tudinho. ufa... que bom...














Guilhermina










- o melhor fica sempre para nós, disse-mo a minha mãe desde que me lembro de ameaçar de ser mulher. viver não custa, o que custa é saber viver. era com esta máxima que a minha mãe justificava o que dizia, o que também servia para esconder acontecimentos da sua vida.
conta-me a Guilhermina
- mas eu nunca tive jeito para isso, sabe? esta mania da verdade... só me dei mal. como agora, veja... 
e a Guilhermina fala-me de supostos desnecessários verdadeiros que falou levando para longe algo que lhe amaciava os dias.
qualquer pessoa diria de ânimo leve que preferia a verdade, fico eu a pensar, mas nem todas têm ombros que aguentem a vida sem maquilhagem. lembro-me também eu da minha mãe
- se ele fica mais feliz com a mentira, porque lhe contas a verdade?
eu também, como a Guilhermina, vivendo sem saber viver