sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

o Pedro












Nunca invejou ninguém: era livre. Nunca disse mal de ninguém: era livre. Nunca discutiu com ninguém: era livre. Fez sempre, desde criança, o que quis: era livre. Não lhe interessava o dinheiro, nem o sucesso, nem o aplauso dos outros. Não criticava fosse quem fosse. Não falava mal de ninguém.

antónio lobo antunes









linguagem gestual









acho que foi quando comecei a negligenciar os pardais que comecei a distanciar-me do que realmente é importante. também deixei morrer duas folhas de violetas já a prometer lançar raízes, não percebi o aniversário de uma amiga, deixei de oferecer bolachas e esqueci-me de que o amor também se fala com gestos.











quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

chi











- o que ele quer que eu coma?
a mulher doente responde-me com a mesma pergunta para recuar umas horas no dia
- olha, basicamente quer que eu coma o que me faz sentir feliz. mas também produtos frescos, sem serem congelados, e da época. porque têm chi, sabes? os produtos congelados perdem o chi, e agora eu preciso é de chi. e, sobre tudo ele quer que eu esteja alegre. disse-me que preciso de alegria. a alegria carrega o nosso chi e é a parte principal da cura.
estamos só as duas e conversamos enquanto ela me dá a aula de yoga. as posturas de equilíbrio são aquelas em que tenho dificuldade. enquanto tento fazer a da águia, o meu corpo balança como um carrossel. descubro que balançando, consigo manter-me dobrada sobre um pé.
- não pode o meu equilíbrio estar no meu desequilíbrio? 













quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

ela e os eles dele









ele é grande demais para caber num só, argumentou a mulher, ou então, serei eu que não tenho tamanho para tanta imensidão.
então decidiu seccioná-lo e dividiu-o 

nele, que fazia de conta, e brincava de ser corpo e de se passear pela pele. trocava as palavras e jogava às adivinhas fazendo do pequeno grande e das aparências barquinhos de cascas de noz. também gostava de a percorrer despertando desejos e depois sair por aí a colher poemas e distribuir músicas daquelas que já ninguém ouve. 
ele às vezes era alegre e outras triste. como as pessoas. e gostava de praia e sol e de flores e de fruta. também gostava de chocolate que comia às escondidas dele mesmo.
se tivesse um cheiro, ele cheiraria a relva cortada de fresco

numa velha caixa de charutos tinha guardado o sisudo. aquele que olhava para a vida com olhos de gente crescida e séria como se carregasse a história do mundo nos ombros. governos, amores, traições, derrotas e glórias. 
este também sofria de amor e raramente se alegrava, como se para amar não pudesse ser leve e feliz. 
passava dias debaixo de um candeeiro de leitura com os óculos na ponta do nariz mergulhado em livros
se tivesse cheiro, cheiraria a bafio, a corpo constipado

a este que vou descrever agora, ela guardou-o numa caixa de pau santo com tampa de madrepérola, de forma a que parecia ser transparente, mas não era. 
só de noite, no recato que antecede o dormir, se atrevia a levantar a tampa. então aí ela encontrava-o absorto dela, num mundo onde ela não existia. aí, ele movimentava-se com rapidez e falava com palavras que ela não entendia. 
sustentava-se em mecanismos metálicos e frios, usava a linguagem dos números e cada pormenor (da sua vida dele) tinha o encaixe perfeito nos mapas que ele próprio desenhava
se este homem tivesse um cheiro, cheiraria a metal oxidado.

num ninho feito com novelos de algodão, ela guardava a parte em que ele era família, era cuidado, era respeito, era fraterno, era amor velado. nesse ninho ela nunca mexera, mas tinha por ele muito carinho e se tivesse um cheiro, seria o aroma suave das rosas

de fora dos homens desse homem, estava guardado o coração que se lhes unia com artérias douradas providas de um passador que regulava a quantidade de amor que passava para dentro do seu peito.
10% para o primeiro, 1% para o segundo, 0,05% para o terceiro, 20% para o quarto e 67,95% para o seu eterno amor

foi no jogo da minha mãe dá licença, com o primeiro, que o terceiro ganhou força. no momento em que, obedecendo à ordem de dez passos à caranguejo, ela descaiu os pé no rubicão, aquele rio dourado que separava mundos.
só com 0,05% do líquido que lhe vinha do coração, cortar, separar, reduzir, anular, eram tarefas que o terceiro fazia com rapidez e aprumo. de tal forma rápido que os outros três não tinham tempo para intervir.
então foi assim que quando ela molhou o pé no rubicão, ele, com um tempo de reacção imediato, tomou controlo dos outros todos

sobre isso aí acima, conta a mulher, que sobre o rubicão, apenas conhecia a frase allea jacta est que o seu pai usava quando o único caminho que havia para tomar era para a frente, e sobre o homem









terça-feira, 12 de dezembro de 2017

impropérios










seguido de um extenso rol de impropérios, digno de uma nortenha, o meu telemóvel mergulhou, pela primeira, e, muito provavelmente, última vez, na sanita. repousa agora e quiçá por toda a eternidade, numa taça coberto de arroz carolino do continente. 
(alguém sabe por quanto tempo tem que estar assim em coma induzido?)
por largos minutos esqueci tudo o resto. tudinho. ufa... que bom...














Guilhermina










- o melhor fica sempre para nós, disse-mo a minha mãe desde que me lembro de ameaçar de ser mulher. viver não custa, o que custa é saber viver. era com esta máxima que a minha mãe justificava o que dizia, o que também servia para esconder acontecimentos da sua vida.
conta-me a Guilhermina
- mas eu nunca tive jeito para isso, sabe? esta mania da verdade... só me dei mal. como agora, veja... 
e a Guilhermina fala-me de supostos desnecessários verdadeiros que falou levando para longe algo que lhe amaciava os dias.
qualquer pessoa diria de ânimo leve que preferia a verdade, fico eu a pensar, mas nem todas têm ombros que aguentem a vida sem maquilhagem. lembro-me também eu da minha mãe
- se ele fica mais feliz com a mentira, porque lhe contas a verdade?
eu também, como a Guilhermina, vivendo sem saber viver










segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

para amanhã











a grandeza da nossa vida deve esconder-se em pormenores do quotidiano, penso eu muitas vezes, assim como quem puxa a brasa para a sua sardinha. o pai de jesus era carpinteiro, a mãe doméstica, ele seria desempregado, sem abrigo, sei lá. o homem-terra, que tanto me ajuda nos caminhos de dentro, vende peças de automóveis que compra em sucatas, e ele é tão fundo por dentro e tão tosco por fora. 

antecipo tudo o que posso antecipar para criar tempo para amanhã, sabendo que vai ser uma manhã de doidos. peso farinhas, separo ovos, preparo tigelas de água com manteiga, adianto merendas, distribuo dinheiro, traduzo textos, recuso a caminhada à beira-rio, calculo preços e faço contas de subtrair, até o resultado ser negativo. até tomo banho hoje, para não ter que o fazer de manhã. 
é durante o duche que canto orações e peço ajuda aos anjos. no duche e antes de adormecer 'façam com que a minha noite não seja em vão, que me lembre dos sonhos, e que eles me tragam respostas'. não quer dizer que resulte, porque os sonhos do dormir gostam de nos trocar as voltas. no fundo, são  assim como os sonhos do acordar, mas às vezes resulta, mesmo. está bem, podem dizer que são coincidências, que eu quase que acredito.
e agora, que aqui escrevo isto, que nem sei se agende para publicar amanhã, tento antecipar também a falta que ele me faz, de forma a que a sinta toda hoje, e me poupe amanhã.












almoço











dona fernanda diz que vem comer uma sopa comigo, e se ela diz 'sopa', é porque sabe que não faço mais nada para a refeição, quando estou sozinha. então ela chega e traz com ela pumpernickel. ela lá sabe que eu gosto, pumpernickel com espelta que aquecemos na torradeira e comemos com ovo estrelado, e sopa, temperada com miso. 
desta vez ela vem calada e encontra-me calada. nem reclama do miso. então, além do almoço, partilhamos o silêncio, assim como se nos encontrássemos por dentro, naquele lugar onde o entendimento não necessita de palavras. 
lá fora o dia está lavado e frio realçando a temperatura morna da sala. ambas vivemos a tempestade, maior a nossa do que a que o tempo trouxe, e o frio que está lá fora, tentamos aquecê-lo por dentro.
- não há diferença, vizinha, não há. assim a terra e o céu, como nós, todos parte do mesmo turbilhão.
a dona fernanda fala comigo de uma forma que não fala com ninguém, de uma forma que ela pensa que só eu não estranho, de uma forma que lhe serve o silêncio como resposta. às vezes chego a pensar que a minha vizinha podia ser minha irmã.













vida








depois da tempestade vem o frio. na meteorologia como na vida.









domingo, 10 de dezembro de 2017

sabe?














- Eu sabia
Dizia-me a Guilhermina
- Que humaniza-lo seria um risco. Eu vivia-o tão bem no que eu sentia dele dentro de mim...
E o olhar da Guilhermina enevoa-se em paisagens que eu não vejo
- Depois vieram os pormenores, aquilo que faz de nós carne e osso, pele e sangue, desejo e vazio, espaço e tempo. Então, ele começou lentamente a tomar forma, e um dia tinha-o ali, humano, gente, pessoa, corpo, voz, cabelo, unhas, sabe? Perfume e cor. Quanto mais se aproximava, mais se distanciava, mais inacessível do que nunca, e eu mais distante do que os sonhos, daqueles que quando acordamos começam a apagar-se-nos da memória e vamos a correr escreve-los no primeiro pedaço de papel que encontrarmos, para que a noite não seja apenas um lugar negro e só.