seguido de um extenso rol de impropérios, digno de uma nortenha, o meu telemóvel mergulhou, pela primeira, e, muito provavelmente, última vez, na sanita. repousa agora e quiçá por toda a eternidade, numa taça coberto de arroz carolino do continente.
(alguém sabe por quanto tempo tem que estar assim em coma induzido?)
por largos minutos esqueci tudo o resto. tudinho. ufa... que bom...
- o melhor fica sempre para nós, disse-mo a minha mãe desde que me lembro de ameaçar de ser mulher. viver não custa, o que custa é saber viver. era com esta máxima que a minha mãe justificava o que dizia, o que também servia para esconder acontecimentos da sua vida. conta-me a Guilhermina - mas eu nunca tive jeito para isso, sabe? esta mania da verdade... só me dei mal. como agora, veja... e a Guilhermina fala-me de supostos desnecessários verdadeiros que falou levando para longe algo que lhe amaciava os dias. qualquer pessoa diria de ânimo leve que preferia a verdade, fico eu a pensar, mas nem todas têm ombros que aguentem a vida sem maquilhagem. lembro-me também eu da minha mãe - se ele fica mais feliz com a mentira, porque lhe contas a verdade? eu também, como a Guilhermina, vivendo sem saber viver
a grandeza da nossa vida deve esconder-se em pormenores do quotidiano, penso eu muitas vezes, assim como quem puxa a brasa para a sua sardinha. o pai de jesus era carpinteiro, a mãe doméstica, ele seria desempregado, sem abrigo, sei lá. o homem-terra, que tanto me ajuda nos caminhos de dentro, vende peças de automóveis que compra em sucatas, e ele é tão fundo por dentro e tão tosco por fora. antecipo tudo o que posso antecipar para criar tempo para amanhã, sabendo que vai ser uma manhã de doidos. peso farinhas, separo ovos, preparo tigelas de água com manteiga, adianto merendas, distribuo dinheiro, traduzo textos, recuso a caminhada à beira-rio, calculo preços e faço contas de subtrair, até o resultado ser negativo. até tomo banho hoje, para não ter que o fazer de manhã. é durante o duche que canto orações e peço ajuda aos anjos. no duche e antes de adormecer 'façam com que a minha noite não seja em vão, que me lembre dos sonhos, e que eles me tragam respostas'. não quer dizer que resulte, porque os sonhos do dormir gostam de nos trocar as voltas. no fundo, são assim como os sonhos do acordar, mas às vezes resulta, mesmo. está bem, podem dizer que são coincidências, que eu quase que acredito. e agora, que aqui escrevo isto, que nem sei se agende para publicar amanhã, tento antecipar também a falta que ele me faz, de forma a que a sinta toda hoje, e me poupe amanhã.
dona fernanda diz que vem comer uma sopa comigo, e se ela diz 'sopa', é porque sabe que não faço mais nada para a refeição, quando estou sozinha. então ela chega e traz com ela pumpernickel. ela lá sabe que eu gosto, pumpernickel com espelta que aquecemos na torradeira e comemos com ovo estrelado, e sopa, temperada com miso. desta vez ela vem calada e encontra-me calada. nem reclama do miso. então, além do almoço, partilhamos o silêncio, assim como se nos encontrássemos por dentro, naquele lugar onde o entendimento não necessita de palavras. lá fora o dia está lavado e frio realçando a temperatura morna da sala. ambas vivemos a tempestade, maior a nossa do que a que o tempo trouxe, e o frio que está lá fora, tentamos aquecê-lo por dentro. - não há diferença, vizinha, não há. assim a terra e o céu, como nós, todos parte do mesmo turbilhão. a dona fernanda fala comigo de uma forma que não fala com ninguém, de uma forma que ela pensa que só eu não estranho, de uma forma que lhe serve o silêncio como resposta. às vezes chego a pensar que a minha vizinha podia ser minha irmã.
- Eu sabia Dizia-me a Guilhermina - Que humaniza-lo seria um risco. Eu vivia-o tão bem no que eu sentia dele dentro de mim... E o olhar da Guilhermina enevoa-se em paisagens que eu não vejo - Depois vieram os pormenores, aquilo que faz de nós carne e osso, pele e sangue, desejo e vazio, espaço e tempo. Então, ele começou lentamente a tomar forma, e um dia tinha-o ali, humano, gente, pessoa, corpo, voz, cabelo, unhas, sabe? Perfume e cor. Quanto mais se aproximava, mais se distanciava, mais inacessível do que nunca, e eu mais distante do que os sonhos, daqueles que quando acordamos começam a apagar-se-nos da memória e vamos a correr escreve-los no primeiro pedaço de papel que encontrarmos, para que a noite não seja apenas um lugar negro e só.
A mulher que dizem que carrega uma doença, está com um ar luminoso e um rosto radiante. Encontro-a na cozinha a preparar o seu remédio de fitoterapia. - sabes Explica-me, enquanto junta num copo colherinhas de diferentes pós. - primeiro tratou-me das dores, depois fortaleceu-me, levou muito tempo... e só agora começamos a tratar a doença. É assim como se dessem prioridade à pessoa e a partir daí, à doença. Quando ele viu os tumores, disse 'isso é para sair', perguntei-lhe 'com cirurgia?' e ele, com expressão indignada, disse-me 'não! Com fitoterapia.' e é ele que faz praticamente todos os remédios. Os outros médicos ficam admirados quando me vêm. Como se não esperasse que eu ainda estivesse viva. Na sala, as amigas defendem a mesa de jantar dos seus sete gatos, enquanto levamos a sopa. - ficaste com dores na última aula? Pergunta-me - sim, no pescoço... - ah...ainda bem. Eu também e fiquei a pensar se não seria algo novo... Eu também respiro de alívio. Também eu tinha ficado a pensar...
conta-me a mulher que arriscou tudo. que com aquele homem arriscou a verdade, a nudez da alma, a sua fragilidade, a sua vulnerabilidade, as suas fraquezas, as suas tentações, os medos, a força. que com isso, perdeu e ganhou, diz-me, rindo - perdi peso, ganhei asas - e ele? - ele não sabe o que arrisquei
Atravesso a garagem com um passo apressado, levando na mão um saco com três litros de leite. Reparo nas minhas pernas cobertas de ganga e nas velhas sapatilhas que protegem os meus pés. Os passos sucedem -se com facilidade, com equilíbrio, e sinto-me livre e grata por isso. Lembro de um tempo em que esse curto percurso era uma aventura, e lembro da mulher que precisa de apoiar-se na ponta da roupa do companheiro para andar. É tão bom poder caminhar.
Faço um chá de camomila e tomo com torradas de azeite e queijo de cabra, como se apenas agora tivesse descoberto o prazer dos sabores e das texturas e do aconchego da bebida quente. Parece-me que é nas pequenas coisas de todos os dias que consigo renascer, reencontrar-me, quando ando desencontrada de mim.
foi a propósito de um vídeo que me enviou, que me escreveu eu amo-te eu não entendo como foi a única resposta que encontrei para aquele homem que tanto quis todos os dias quando me levanto, e antes do primeiro copo de água morna, eu encho os ouvidos do criador. lamento, coitado, cheio de mim que ele deve estar. mas todos os dias eu peço-lhe, entre tantas outras coisas, para me ajudar nas coisas do amor. no amor que eu tenho por mim, no amor pelos outros, no amor que eu emano. que me ajude a aceitar o amor dos outros por mim, o amor dos outros uns pelos outros, que me ajude a amar sem esperar nada em troca, a aceitar que eu também sinta amor, e que me ajude a respeitar o amor que sentem por mim. no entanto, no meio disto tudo, não me consigo livrar de um sentimento de culpa, por não retribuir de igual forma, o amor que têm por mim. por isso, ajuda-me a aceitar o desencontro de amor, e a não carregar em mim, o fardo do desencanto que causo. bastam-me os meus.