segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

vida








depois da tempestade vem o frio. na meteorologia como na vida.









domingo, 10 de dezembro de 2017

sabe?














- Eu sabia
Dizia-me a Guilhermina
- Que humaniza-lo seria um risco. Eu vivia-o tão bem no que eu sentia dele dentro de mim...
E o olhar da Guilhermina enevoa-se em paisagens que eu não vejo
- Depois vieram os pormenores, aquilo que faz de nós carne e osso, pele e sangue, desejo e vazio, espaço e tempo. Então, ele começou lentamente a tomar forma, e um dia tinha-o ali, humano, gente, pessoa, corpo, voz, cabelo, unhas, sabe? Perfume e cor. Quanto mais se aproximava, mais se distanciava, mais inacessível do que nunca, e eu mais distante do que os sonhos, daqueles que quando acordamos começam a apagar-se-nos da memória e vamos a correr escreve-los no primeiro pedaço de papel que encontrarmos, para que a noite não seja apenas um lugar negro e só.

















alívio








A mulher que dizem que carrega uma doença, está com um ar luminoso e um rosto radiante. Encontro-a na cozinha a preparar o seu remédio de fitoterapia.
- sabes
Explica-me, enquanto junta num copo colherinhas de diferentes pós.
- primeiro tratou-me das dores, depois fortaleceu-me, levou muito tempo... e só agora começamos a tratar a doença. É assim como se dessem prioridade à pessoa e a partir daí, à doença. Quando ele viu os tumores, disse 'isso é para sair', perguntei-lhe 'com cirurgia?' e ele, com expressão indignada, disse-me 'não! Com fitoterapia.' e é ele que faz praticamente todos os remédios. Os outros médicos ficam admirados quando me vêm. Como se não esperasse que eu ainda estivesse viva.
Na sala, as amigas defendem a mesa de jantar dos seus sete gatos, enquanto levamos a sopa.
- ficaste com dores na última aula?
Pergunta-me
- sim, no pescoço...
- ah...ainda bem. Eu também e fiquei a pensar se não seria algo novo...
Eu também respiro de alívio. Também eu tinha ficado a pensar...













sábado, 9 de dezembro de 2017

perder peso





























conta-me a mulher que arriscou tudo. que com aquele homem arriscou a verdade, a nudez da alma, a sua fragilidade, a sua vulnerabilidade, as suas fraquezas, as suas tentações, os medos, a força. que com isso, perdeu e ganhou, diz-me, rindo
- perdi peso, ganhei asas
- e ele?
- ele não sabe o que arrisquei









sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

torradas de azeite com queijo de cabra









Atravesso a garagem com um passo apressado, levando na mão um saco com três litros de leite. Reparo nas minhas pernas cobertas de ganga e nas velhas sapatilhas que protegem os meus pés. Os passos sucedem -se com facilidade, com equilíbrio, e sinto-me livre e grata por isso. Lembro de um tempo em que esse curto percurso era uma aventura, e lembro da mulher que precisa de apoiar-se na ponta da roupa do companheiro para andar. É tão bom poder caminhar.

Faço um chá de camomila e tomo com torradas de azeite e queijo de cabra, como se apenas agora tivesse descoberto o prazer dos sabores e das texturas e do aconchego da bebida quente. Parece-me que é nas pequenas coisas de todos os dias que consigo renascer, reencontrar-me, quando ando desencontrada de mim.














coisas do amor











foi a propósito de um vídeo que me enviou, que me escreveu
eu amo-te
eu não entendo como
foi a única resposta que encontrei para aquele homem que tanto quis 

todos os dias quando me levanto, e antes do primeiro copo de água morna, eu encho os ouvidos do criador. lamento, coitado, cheio de mim que ele deve estar. mas todos os dias eu peço-lhe, entre tantas outras coisas, para me ajudar nas coisas do amor. no amor que eu tenho por mim, no amor pelos outros, no amor que eu emano. que me ajude a aceitar o amor dos outros por mim, o amor dos outros uns pelos outros,  que me ajude a amar sem esperar nada em troca, a aceitar que eu também sinta amor, e que me ajude a respeitar o amor que sentem por mim. no entanto, no meio disto tudo, não me consigo livrar de um sentimento de culpa, por não retribuir de igual forma, o amor que têm por mim. por isso, ajuda-me a aceitar o desencontro de amor, e a não carregar em mim, o fardo do desencanto que causo. bastam-me os meus.















quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

da natureza











a mulher que me acompanha, mais velha do que eu, assistiu ao desabafo de carla. já longe dali, conta-me
- a andreia telefonou-me a contar que tinha acabado com o namorado. ela era mais velha do que ele 22 anos e tinham há muito combinado que se aparecesse outra pessoa que pudesse ser importante para eles, terminariam o namoro. e apareceu, a ela, um homem que insistiu, e conseguiu que ela quisesse ficar com ele
eu acompanho o que me conta com um 'ai sim?', 'e ele?', 'e ela?', 'e eles?', e 'estão bem?'
- sabes?
continua a mulher
- no fundo o que elas querem todas, é homem. não interessa como, é homem. devem gostar de lavar cuecas e fazer almoço e jantar, e ouvir ressonar. sei lá...não percebo!
- é natural que queiram
digo eu, sabendo que aquilo é tema delicado
- natural? natural como?
- natural de natureza. é da natureza...
- ora... da natureza... $%#$%&&=)(.....
- então, querem companhia, amparo, poder conversar, partilhar. esse tipo de coisas
embora sem proferir palavras, eu sei que continua a desenrolar o rosário de impropérios e quase pragas para aquilo que não quer entender, que não quer admitir










devias arranjar alguém










a carla, a que me adivinha os desejos na hora do café, de forma a que eu nem tenha que pensar naqueles vinte minutos de descanso, suspira
- agora sim, posso dizer que tenho alguém que gosta de mim...
ela fala do namorado que trabalha em itália e vem passar dezembro com ela
- estou ansiosa por aquele abraço...
e enquanto fala, abraça o peito com os seus próprios braços, e trinca o guardanapo de papel, fechando os olhos
naquele momento, ela é ela e é ele, o amor dos dois num só corpo. eu diria que o amor, todo ele
- é que faz falta, sabes? faz falta alguém que nos abrace, que nos dê aquele carinho, aquele apoio... devias arranjar alguém, ana, sabes? devias...faz falta...
e ela fala assim como se fosse fácil, sentir os dois num só, quebrar a distância, como os dois fazem. ela, trabalha no café e nas horas livres trabalha aos dias numa doutora, ele, instala aparelhos de ar condicionado por essa europa fora.













quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

a dedicatória




























leio a dedicatória de uma mulher ao seu companheiro de 22 anos, Amor meu Monádico forjado na combustão da Fonte... e lembro-me de outra mulher, em jardins de outros tempos, sentindo na sua mão o calor morno e macio, de outra mão, tão longínqua nos tempos e tão presente na sua ausência. o seu amor Monádico.














mensagens










o rapaz fica indignado quando eu reparo
- lá está o homem a mandar mensagens
- porque é que lhe respondes?
- eu não respondo. mas, coitado, já viste? todos os dias de manhã e à noite, e eu nem o conheço
o rapaz olha-me com ar de reprovação
- também aceitas amizade de todos!
- não é verdade! temos 60 amigos em comum...mas tens razão...
então todos os dias o tal amigo envia-me, acompanhadas com ramos de flores virtuais
- Um bondia hoje mais tarde do que o questume xao beijinho
- bon dia e um felis sabado
- Boua noite beijinho