quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

da natureza











a mulher que me acompanha, mais velha do que eu, assistiu ao desabafo de carla. já longe dali, conta-me
- a andreia telefonou-me a contar que tinha acabado com o namorado. ela era mais velha do que ele 22 anos e tinham há muito combinado que se aparecesse outra pessoa que pudesse ser importante para eles, terminariam o namoro. e apareceu, a ela, um homem que insistiu, e conseguiu que ela quisesse ficar com ele
eu acompanho o que me conta com um 'ai sim?', 'e ele?', 'e ela?', 'e eles?', e 'estão bem?'
- sabes?
continua a mulher
- no fundo o que elas querem todas, é homem. não interessa como, é homem. devem gostar de lavar cuecas e fazer almoço e jantar, e ouvir ressonar. sei lá...não percebo!
- é natural que queiram
digo eu, sabendo que aquilo é tema delicado
- natural? natural como?
- natural de natureza. é da natureza...
- ora... da natureza... $%#$%&&=)(.....
- então, querem companhia, amparo, poder conversar, partilhar. esse tipo de coisas
embora sem proferir palavras, eu sei que continua a desenrolar o rosário de impropérios e quase pragas para aquilo que não quer entender, que não quer admitir










devias arranjar alguém










a carla, a que me adivinha os desejos na hora do café, de forma a que eu nem tenha que pensar naqueles vinte minutos de descanso, suspira
- agora sim, posso dizer que tenho alguém que gosta de mim...
ela fala do namorado que trabalha em itália e vem passar dezembro com ela
- estou ansiosa por aquele abraço...
e enquanto fala, abraça o peito com os seus próprios braços, e trinca o guardanapo de papel, fechando os olhos
naquele momento, ela é ela e é ele, o amor dos dois num só corpo. eu diria que o amor, todo ele
- é que faz falta, sabes? faz falta alguém que nos abrace, que nos dê aquele carinho, aquele apoio... devias arranjar alguém, ana, sabes? devias...faz falta...
e ela fala assim como se fosse fácil, sentir os dois num só, quebrar a distância, como os dois fazem. ela, trabalha no café e nas horas livres trabalha aos dias numa doutora, ele, instala aparelhos de ar condicionado por essa europa fora.













quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

a dedicatória




























leio a dedicatória de uma mulher ao seu companheiro de 22 anos, Amor meu Monádico forjado na combustão da Fonte... e lembro-me de outra mulher, em jardins de outros tempos, sentindo na sua mão o calor morno e macio, de outra mão, tão longínqua nos tempos e tão presente na sua ausência. o seu amor Monádico.














mensagens










o rapaz fica indignado quando eu reparo
- lá está o homem a mandar mensagens
- porque é que lhe respondes?
- eu não respondo. mas, coitado, já viste? todos os dias de manhã e à noite, e eu nem o conheço
o rapaz olha-me com ar de reprovação
- também aceitas amizade de todos!
- não é verdade! temos 60 amigos em comum...mas tens razão...
então todos os dias o tal amigo envia-me, acompanhadas com ramos de flores virtuais
- Um bondia hoje mais tarde do que o questume xao beijinho
- bon dia e um felis sabado
- Boua noite beijinho













terça-feira, 5 de dezembro de 2017

ciclo lunar










a mulher já não guarda as margens do rio. a lua mingou, e, se forem ver, talvez confirmem que tem pelo uns dez por cento a menos do que ontem. poderão até dizer que de facto a lua tem sempre o mesmo tamanho, mas não adianta, a mulher que guarda as margens do rio só percebe do que vê.
então, talvez seja por ao quarto dia a lua ter deixado de estar cheia, que o mundo desaba. talvez escoe pelo mesmo buraco por onde desaparece a luz da lua, não sei. sei que maldisse as bolachas. coitadas das bolachas sem culpa nenhuma, e acabei pedindo desculpa por isso a um tabuleiro de doze inocentes bolachas de amêndoa, por tantos impropérios. as dores das bolachas, como toda a gente sabe, acabam por se reflectir no corpo, e dói tudo, dói o que não é suposto doer. os vulcões de chocolate, esses calharam bem, e as empadas também. só não sobrou tempo para preparar as massas para amanhã. mas como a fechadura da porta da rua avariou, pode ser que nem consiga sair de casa. as pessoas da casa parece que fizeram um pacto de mau humor, e isto, ao fim de um dia de trabalho dá vontade de entrar no carro e sair sem destino, só para sentir a estrada a correr debaixo dos pneus. cocozices, é o que é, como a carta do hospital que nunca mais chega com a consulta marcada. mas eu acho que as desimportâncias escoam-se da mesma forma que vai desaparecendo a lua, para depois, quando pensamos que ela já nem está la, voltar a aparecer, assim, sem parar.












lua cheia























a mulher da beira do rio conta que foi o terceiro dia consecutivo em que a lua esteve cheia e imensa, sem que lhe faltasse sequer aquele bocadinho de quando começa logo no dia seguinte a minguar. ela guarda as margens virada para nordeste esperando mais dois dias.
- só mais dois dias de lua cheia, diz ela, e o norte unir-se-á ao sul, o este ao oeste, os mares abraçarão os céus, a  chuva acariciará a terra, as flores terão voz, as lágrimas serão apenas dos poemas, os amantes dormirão nus, vida e morte darão as mãos, as palavras serão dom do olhar, os velhos serão venerados, e por fim, os meus dedos tocarão a pele dele, os meus lábios, os seus.












segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

caixas de plástico







enquanto lavo caixas de plástico, e nem sei porque lavo as caixas de plástico porque detesto lavar caixas de plástico, mas comecei e parece que nem conseguia parar (havia muitas caixas de plástico sujas, mesmo), penso para quê a vida. e procuro lembrar-me de momentos em que pensei que valia a pena viver. sei lá, sentir a maresia, ver os filhos serem gente boa, ver os pais, a lua que ontem subia imensa mesmo em frente à porta da varanda, o sol na pele. não sei. lembro a mulher doente que se perguntava o que é suposto fazer com a minha vida? não sei... e acho que hoje acordei mais perdida do que ela. talvez seja por isso que me agarrei daquela maneira às caixas de plástico, como se fossem razão para estar viva.










domingo, 3 de dezembro de 2017

Medida









Vê a mesma lua que eu ao mesmo tempo que eu e ainda me fala de distância









Livro









Já leste?
Pergunta o homem segurando o pesado volume na mão
Não. Vou lendo. Abro ao acaso e leio.
Ele quer que o empreste. Nunca lhe direi que o li. Há livros que são muito mais do que páginas escritas. São almas, são vidas por dentro, somos nós aos pedaços, voláteis, voluveis, instáveis, profundos, nus. São a época da vida em que os compramos, quantas vezes com um amor dentro do peito, ou uma dor, ou uma esperança.












do sentir











a mulher que dizem que carrega uma doença no corpo, diz-me
- eu sinto-me tão bem!
ninguém que eu conheça, que se sinta bem, diz, daquela forma
- eu sinto-me tão bem!
e a mulher que dizem que carrega uma doença no corpo tem tumores espalhados por vários órgãos, um ou outro, visível, mesmo
- eu vou viver nesta forma de me sentir bem. os tumores estão cá, mas o que me interessa é que eu sinto-me tão bem!
a esta hora, já eu caio de sono enquanto ela resplandece de energia, mas fico tão feliz com aquele sentir-se tão bem, por ela, por mim, pela esperança, pela alternativa, pela vida