então, talvez seja por ao quarto dia a lua ter deixado de estar cheia, que o mundo desaba. talvez escoe pelo mesmo buraco por onde desaparece a luz da lua, não sei. sei que maldisse as bolachas. coitadas das bolachas sem culpa nenhuma, e acabei pedindo desculpa por isso a um tabuleiro de doze inocentes bolachas de amêndoa, por tantos impropérios. as dores das bolachas, como toda a gente sabe, acabam por se reflectir no corpo, e dói tudo, dói o que não é suposto doer. os vulcões de chocolate, esses calharam bem, e as empadas também. só não sobrou tempo para preparar as massas para amanhã. mas como a fechadura da porta da rua avariou, pode ser que nem consiga sair de casa. as pessoas da casa parece que fizeram um pacto de mau humor, e isto, ao fim de um dia de trabalho dá vontade de entrar no carro e sair sem destino, só para sentir a estrada a correr debaixo dos pneus. cocozices, é o que é, como a carta do hospital que nunca mais chega com a consulta marcada. mas eu acho que as desimportâncias escoam-se da mesma forma que vai desaparecendo a lua, para depois, quando pensamos que ela já nem está la, voltar a aparecer, assim, sem parar.
terça-feira, 5 de dezembro de 2017
ciclo lunar
então, talvez seja por ao quarto dia a lua ter deixado de estar cheia, que o mundo desaba. talvez escoe pelo mesmo buraco por onde desaparece a luz da lua, não sei. sei que maldisse as bolachas. coitadas das bolachas sem culpa nenhuma, e acabei pedindo desculpa por isso a um tabuleiro de doze inocentes bolachas de amêndoa, por tantos impropérios. as dores das bolachas, como toda a gente sabe, acabam por se reflectir no corpo, e dói tudo, dói o que não é suposto doer. os vulcões de chocolate, esses calharam bem, e as empadas também. só não sobrou tempo para preparar as massas para amanhã. mas como a fechadura da porta da rua avariou, pode ser que nem consiga sair de casa. as pessoas da casa parece que fizeram um pacto de mau humor, e isto, ao fim de um dia de trabalho dá vontade de entrar no carro e sair sem destino, só para sentir a estrada a correr debaixo dos pneus. cocozices, é o que é, como a carta do hospital que nunca mais chega com a consulta marcada. mas eu acho que as desimportâncias escoam-se da mesma forma que vai desaparecendo a lua, para depois, quando pensamos que ela já nem está la, voltar a aparecer, assim, sem parar.
lua cheia
a mulher da beira do rio conta que foi o terceiro dia consecutivo em que a lua esteve cheia e imensa, sem que lhe faltasse sequer aquele bocadinho de quando começa logo no dia seguinte a minguar. ela guarda as margens virada para nordeste esperando mais dois dias.
- só mais dois dias de lua cheia, diz ela, e o norte unir-se-á ao sul, o este ao oeste, os mares abraçarão os céus, a chuva acariciará a terra, as flores terão voz, as lágrimas serão apenas dos poemas, os amantes dormirão nus, vida e morte darão as mãos, as palavras serão dom do olhar, os velhos serão venerados, e por fim, os meus dedos tocarão a pele dele, os meus lábios, os seus.
segunda-feira, 4 de dezembro de 2017
caixas de plástico
domingo, 3 de dezembro de 2017
Livro
Já leste?
Pergunta o homem segurando o pesado volume na mão
Não. Vou lendo. Abro ao acaso e leio.
Ele quer que o empreste. Nunca lhe direi que o li. Há livros que são muito mais do que páginas escritas. São almas, são vidas por dentro, somos nós aos pedaços, voláteis, voluveis, instáveis, profundos, nus. São a época da vida em que os compramos, quantas vezes com um amor dentro do peito, ou uma dor, ou uma esperança.
do sentir
- eu sinto-me tão bem!
ninguém que eu conheça, que se sinta bem, diz, daquela forma
- eu sinto-me tão bem!
e a mulher que dizem que carrega uma doença no corpo tem tumores espalhados por vários órgãos, um ou outro, visível, mesmo
- eu vou viver nesta forma de me sentir bem. os tumores estão cá, mas o que me interessa é que eu sinto-me tão bem!
a esta hora, já eu caio de sono enquanto ela resplandece de energia, mas fico tão feliz com aquele sentir-se tão bem, por ela, por mim, pela esperança, pela alternativa, pela vida
sábado, 2 de dezembro de 2017
valhamedeus
aí
É esse desencontro de si que o faz grande, que o faz criativo, que o faz poeta, que o faz sedutor, que o faz lógico, que o faz técnica, que o faz sonho, que o faz desejo, que o faz solitário, que o faz mundano.
É nesse desencontro de si que o perco e o encontro e se evola e que me encontro.
sexta-feira, 1 de dezembro de 2017
Imagina
Imagina se pudéssemos ser verdadeiros, inteiros. Imagina se nos aceitassem. Imagina a imensidão, a completude. Imagina a grandeza. E imagina no meio disso tudo querermo-nos.
como uma criança
a cada resposta que ele me dá
- e para quê?
ele não critica, ele percebe que não piso chão algum, ele percebe que eu perco-me de mim, ele percebe a minha sede
- e para quê?
ele ouve-me de olhos fechados e abre-os apenas por escassos segundos
- então quando eu mudo, tudo muda à minha volta, e se deixar acontecer essa transmutação em mim, facilitará também a dos outros, mesmo que não se apercebam disso. se eu fizer o meu trabalho interior, estarei a abrir caminhos. como o bater das asas da borboleta...
o homem-terra apenas acena que sim com a cabeça
- é isso. tu sabes que sim. já o tens visto
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