terça-feira, 5 de dezembro de 2017

ciclo lunar










a mulher já não guarda as margens do rio. a lua mingou, e, se forem ver, talvez confirmem que tem pelo uns dez por cento a menos do que ontem. poderão até dizer que de facto a lua tem sempre o mesmo tamanho, mas não adianta, a mulher que guarda as margens do rio só percebe do que vê.
então, talvez seja por ao quarto dia a lua ter deixado de estar cheia, que o mundo desaba. talvez escoe pelo mesmo buraco por onde desaparece a luz da lua, não sei. sei que maldisse as bolachas. coitadas das bolachas sem culpa nenhuma, e acabei pedindo desculpa por isso a um tabuleiro de doze inocentes bolachas de amêndoa, por tantos impropérios. as dores das bolachas, como toda a gente sabe, acabam por se reflectir no corpo, e dói tudo, dói o que não é suposto doer. os vulcões de chocolate, esses calharam bem, e as empadas também. só não sobrou tempo para preparar as massas para amanhã. mas como a fechadura da porta da rua avariou, pode ser que nem consiga sair de casa. as pessoas da casa parece que fizeram um pacto de mau humor, e isto, ao fim de um dia de trabalho dá vontade de entrar no carro e sair sem destino, só para sentir a estrada a correr debaixo dos pneus. cocozices, é o que é, como a carta do hospital que nunca mais chega com a consulta marcada. mas eu acho que as desimportâncias escoam-se da mesma forma que vai desaparecendo a lua, para depois, quando pensamos que ela já nem está la, voltar a aparecer, assim, sem parar.












lua cheia























a mulher da beira do rio conta que foi o terceiro dia consecutivo em que a lua esteve cheia e imensa, sem que lhe faltasse sequer aquele bocadinho de quando começa logo no dia seguinte a minguar. ela guarda as margens virada para nordeste esperando mais dois dias.
- só mais dois dias de lua cheia, diz ela, e o norte unir-se-á ao sul, o este ao oeste, os mares abraçarão os céus, a  chuva acariciará a terra, as flores terão voz, as lágrimas serão apenas dos poemas, os amantes dormirão nus, vida e morte darão as mãos, as palavras serão dom do olhar, os velhos serão venerados, e por fim, os meus dedos tocarão a pele dele, os meus lábios, os seus.












segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

caixas de plástico







enquanto lavo caixas de plástico, e nem sei porque lavo as caixas de plástico porque detesto lavar caixas de plástico, mas comecei e parece que nem conseguia parar (havia muitas caixas de plástico sujas, mesmo), penso para quê a vida. e procuro lembrar-me de momentos em que pensei que valia a pena viver. sei lá, sentir a maresia, ver os filhos serem gente boa, ver os pais, a lua que ontem subia imensa mesmo em frente à porta da varanda, o sol na pele. não sei. lembro a mulher doente que se perguntava o que é suposto fazer com a minha vida? não sei... e acho que hoje acordei mais perdida do que ela. talvez seja por isso que me agarrei daquela maneira às caixas de plástico, como se fossem razão para estar viva.










domingo, 3 de dezembro de 2017

Medida









Vê a mesma lua que eu ao mesmo tempo que eu e ainda me fala de distância









Livro









Já leste?
Pergunta o homem segurando o pesado volume na mão
Não. Vou lendo. Abro ao acaso e leio.
Ele quer que o empreste. Nunca lhe direi que o li. Há livros que são muito mais do que páginas escritas. São almas, são vidas por dentro, somos nós aos pedaços, voláteis, voluveis, instáveis, profundos, nus. São a época da vida em que os compramos, quantas vezes com um amor dentro do peito, ou uma dor, ou uma esperança.












do sentir











a mulher que dizem que carrega uma doença no corpo, diz-me
- eu sinto-me tão bem!
ninguém que eu conheça, que se sinta bem, diz, daquela forma
- eu sinto-me tão bem!
e a mulher que dizem que carrega uma doença no corpo tem tumores espalhados por vários órgãos, um ou outro, visível, mesmo
- eu vou viver nesta forma de me sentir bem. os tumores estão cá, mas o que me interessa é que eu sinto-me tão bem!
a esta hora, já eu caio de sono enquanto ela resplandece de energia, mas fico tão feliz com aquele sentir-se tão bem, por ela, por mim, pela esperança, pela alternativa, pela vida











sábado, 2 de dezembro de 2017

valhamedeus










perdi a aposta. aprendi a não prever o tempo dos outros pelo meu tempo. neste caso, a barba do outro, não pela minha, mas pela dos meus. aliás, perdi a aposta mas ganhei, muito, em muito que aprendi, com uns míseros meia dúzia de pelos. paguei o jantar ao mancebo e fumamos o charuto num bar indiano. descobri que consigo fumar charuto e que fica um sabor estranho no fundo da garganta. o jantar, que eu tinha previsto demorar, no máximo uma hora e meia, durou umas quatro. comi uma sobremesa que se chama valhamedeus e lembrei-me de ti. e foi muito bom. já apostei igual para o próximo movember.























É esse desencontro de si que o faz grande, que o faz criativo, que o faz poeta, que o faz sedutor, que o faz lógico, que o faz técnica, que o faz sonho, que o faz desejo, que o faz solitário, que o faz mundano.
É nesse desencontro de si que o perco e o encontro e se evola e que me encontro.











sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Imagina














Imagina se pudéssemos ser verdadeiros, inteiros. Imagina se nos aceitassem. Imagina a imensidão, a completude. Imagina a grandeza. E imagina no meio disso tudo querermo-nos.

















como uma criança









não me interessa. pergunto para o quês sucessivos. também sentado no chão, ele olha-me com toda a paciência do mundo, e generosidade também. aquela forma de ele ser quando percebe da falta que a minha alma sente da mão da alma dele. 
a cada resposta que ele me dá
- e para quê?
ele não critica, ele percebe que não piso chão algum, ele percebe que eu perco-me de mim, ele percebe a minha sede
- e para quê?
ele ouve-me de olhos fechados e abre-os apenas por escassos segundos
- então quando eu mudo, tudo muda à minha volta, e se deixar acontecer essa transmutação em mim, facilitará também a dos outros, mesmo que não se apercebam disso. se eu fizer o meu trabalho interior, estarei a abrir caminhos. como o bater das asas da borboleta...
o homem-terra apenas acena que sim com a cabeça
- é isso. tu sabes que sim. já o tens visto