domingo, 3 de dezembro de 2017

Medida









Vê a mesma lua que eu ao mesmo tempo que eu e ainda me fala de distância









Livro









Já leste?
Pergunta o homem segurando o pesado volume na mão
Não. Vou lendo. Abro ao acaso e leio.
Ele quer que o empreste. Nunca lhe direi que o li. Há livros que são muito mais do que páginas escritas. São almas, são vidas por dentro, somos nós aos pedaços, voláteis, voluveis, instáveis, profundos, nus. São a época da vida em que os compramos, quantas vezes com um amor dentro do peito, ou uma dor, ou uma esperança.












do sentir











a mulher que dizem que carrega uma doença no corpo, diz-me
- eu sinto-me tão bem!
ninguém que eu conheça, que se sinta bem, diz, daquela forma
- eu sinto-me tão bem!
e a mulher que dizem que carrega uma doença no corpo tem tumores espalhados por vários órgãos, um ou outro, visível, mesmo
- eu vou viver nesta forma de me sentir bem. os tumores estão cá, mas o que me interessa é que eu sinto-me tão bem!
a esta hora, já eu caio de sono enquanto ela resplandece de energia, mas fico tão feliz com aquele sentir-se tão bem, por ela, por mim, pela esperança, pela alternativa, pela vida











sábado, 2 de dezembro de 2017

valhamedeus










perdi a aposta. aprendi a não prever o tempo dos outros pelo meu tempo. neste caso, a barba do outro, não pela minha, mas pela dos meus. aliás, perdi a aposta mas ganhei, muito, em muito que aprendi, com uns míseros meia dúzia de pelos. paguei o jantar ao mancebo e fumamos o charuto num bar indiano. descobri que consigo fumar charuto e que fica um sabor estranho no fundo da garganta. o jantar, que eu tinha previsto demorar, no máximo uma hora e meia, durou umas quatro. comi uma sobremesa que se chama valhamedeus e lembrei-me de ti. e foi muito bom. já apostei igual para o próximo movember.























É esse desencontro de si que o faz grande, que o faz criativo, que o faz poeta, que o faz sedutor, que o faz lógico, que o faz técnica, que o faz sonho, que o faz desejo, que o faz solitário, que o faz mundano.
É nesse desencontro de si que o perco e o encontro e se evola e que me encontro.











sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Imagina














Imagina se pudéssemos ser verdadeiros, inteiros. Imagina se nos aceitassem. Imagina a imensidão, a completude. Imagina a grandeza. E imagina no meio disso tudo querermo-nos.

















como uma criança









não me interessa. pergunto para o quês sucessivos. também sentado no chão, ele olha-me com toda a paciência do mundo, e generosidade também. aquela forma de ele ser quando percebe da falta que a minha alma sente da mão da alma dele. 
a cada resposta que ele me dá
- e para quê?
ele não critica, ele percebe que não piso chão algum, ele percebe que eu perco-me de mim, ele percebe a minha sede
- e para quê?
ele ouve-me de olhos fechados e abre-os apenas por escassos segundos
- então quando eu mudo, tudo muda à minha volta, e se deixar acontecer essa transmutação em mim, facilitará também a dos outros, mesmo que não se apercebam disso. se eu fizer o meu trabalho interior, estarei a abrir caminhos. como o bater das asas da borboleta...
o homem-terra apenas acena que sim com a cabeça
- é isso. tu sabes que sim. já o tens visto









encontro












Para além das ideias de bem e de mal, existe uma planície.
Encontrar-te-ei lá.


Rumi










quinta-feira, 30 de novembro de 2017

desacerto








- tu ainda gostas de mim?
- não sentes?
respondi, não respondendo.

Mas eu cheguei aí a ti, já com um querer que tinha crescido, que se tinha conformado, que tinha mirrado e que crescera outra vez. Tu dizias, ‘vamos conhecendo e vamos gostando’, eu já gostava, há muito. Tu vivias gerúndios, e eu, imperativos. Desejei-te tanto, que o meu corpo tornou a queixar-se. Eu acho que nos desencontramos nesse querer do corpo.

Depois, vinham os rótulos. Namoras, é teu namorado, és a namorada dele. E eu, que queria era caminhar a teu lado, e assustava-me com os rótulos, dizia ‘não sei’, ‘estamos a ver se nos acertamos’, disse aos poucos que me perguntaram. E nessa tentativa de acerto, desacertamo-nos. A merda dos rótulos. Tu querias um rótulo. Comecei a perceber que se media o tempo por fora em vez de ser por dentro. A distância entre o momento em que estávamos juntos e o seguinte, começou a constar do calendário. Dias, semanas, e aquilo de ‘estarmos juntos’ passou a ser medido por números, conceitos criados pelos outros, em vez de ser a magia, o invisivel que nos unia, pois isto do querer toma a forma do peito de cada um e eu podia sentir-te tão perto apesar de tão longe na minha forma de não medir as distâncias que tu nunca entendeste. E mais uma vez assustei-me. E a gente assusta-se tantas vezes que depois não volta. E nunca mais voltei ao tempo antes do desacerto.















quarta-feira, 29 de novembro de 2017

uma noite boa










sair de casa sem ter tido tempo para jantar, não imaginar o frio que está lá fora e sair com pouca roupa, resmungar o caminho todo por não me terem avisado que seria aquele o orador da palestra, indignar-me durante três horas com o discurso da criatura, para chegar ao final e perceber que fui até ali para ouvir os 15 minutos daquele comentador, e finalmente identificar-me com a linguagem, com os conceitos, com a visão. chegar a casa e comer chili, desalmadamente directamente do tacho e perceber que foi uma noite boa e que valeu a pena.