quinta-feira, 30 de novembro de 2017

desacerto








- tu ainda gostas de mim?
- não sentes?
respondi, não respondendo.

Mas eu cheguei aí a ti, já com um querer que tinha crescido, que se tinha conformado, que tinha mirrado e que crescera outra vez. Tu dizias, ‘vamos conhecendo e vamos gostando’, eu já gostava, há muito. Tu vivias gerúndios, e eu, imperativos. Desejei-te tanto, que o meu corpo tornou a queixar-se. Eu acho que nos desencontramos nesse querer do corpo.

Depois, vinham os rótulos. Namoras, é teu namorado, és a namorada dele. E eu, que queria era caminhar a teu lado, e assustava-me com os rótulos, dizia ‘não sei’, ‘estamos a ver se nos acertamos’, disse aos poucos que me perguntaram. E nessa tentativa de acerto, desacertamo-nos. A merda dos rótulos. Tu querias um rótulo. Comecei a perceber que se media o tempo por fora em vez de ser por dentro. A distância entre o momento em que estávamos juntos e o seguinte, começou a constar do calendário. Dias, semanas, e aquilo de ‘estarmos juntos’ passou a ser medido por números, conceitos criados pelos outros, em vez de ser a magia, o invisivel que nos unia, pois isto do querer toma a forma do peito de cada um e eu podia sentir-te tão perto apesar de tão longe na minha forma de não medir as distâncias que tu nunca entendeste. E mais uma vez assustei-me. E a gente assusta-se tantas vezes que depois não volta. E nunca mais voltei ao tempo antes do desacerto.















quarta-feira, 29 de novembro de 2017

uma noite boa










sair de casa sem ter tido tempo para jantar, não imaginar o frio que está lá fora e sair com pouca roupa, resmungar o caminho todo por não me terem avisado que seria aquele o orador da palestra, indignar-me durante três horas com o discurso da criatura, para chegar ao final e perceber que fui até ali para ouvir os 15 minutos daquele comentador, e finalmente identificar-me com a linguagem, com os conceitos, com a visão. chegar a casa e comer chili, desalmadamente directamente do tacho e perceber que foi uma noite boa e que valeu a pena.










sem pulgas atrás das orelhas







ouço dizer sobre mim, numa conversa ao telefone
- ela não se importa, mas se puder não falar, prefere
é verdade. a maior parte das vezes prefiro ouvir. mas enquanto me encaminho para a padaria, adivinho o sorriso franco de dona cristina quando me vir entrar. ela sorri com a face toda, com a pele, com os olhos, com os lábios. e fala com alegria, se está alegre e com tristeza se estiver triste, com preocupação, se estiver preocupada. além disso, ela brilha. brilha daquela transparência de se ser verdadeiro. quando ali vou, sei que o que vejo e o que sinto, é o que ela é por dentro.
enquanto ouço o 'mas se puder não falar, prefere', eu penso que prefiro poder falar e ouvir sem rasteiras, sem pé atrás, sem pulgas atrás das orelhas.










terça-feira, 28 de novembro de 2017

Mantando







Enquanto entoo a melodia que cura, teço a manta que o abrigará no tempo sem medida.









objectivos









naquele fim de tarde, num encontro sobre espiritualidades, perguntam-me quais os meus objectivos para os próximos tempos
- deixar de pagar propinas
- como?
- deixar de pagar propinas
- ah...parece-me bem
não sei se lhe pareceu









segunda-feira, 27 de novembro de 2017

snicker








No parque de estacionamento do continente, mastigo muito lentamente um snicker. Prendo a respiração e fecho os olhos enquanto sinto na língua o chocolate e o caramelo renderem-se ao calor da boca, a resistência do nougat de amendoim, cedendo à determinação dos dentes. Arrepio-me e sinto o prazer do paladar confundindo-se com a vertigem. Há anos que não comia um snicker. Devia ter comprado dois. Devia tê-lo feito há cinco dias.









joão e maria










     a mulher diz que está velha. olho para ela e reparo que não aparenta idade para o que diz sentir. 
talvez seja a velhice algum espaço de vida, vazio de ânimo, que se alonga desde o tempo em que deixamos de ser crianças até ao momento em que nos percebemos incapazes de encantamento.










domingo, 26 de novembro de 2017

tu sabes









- tu sabes o que isto é
ele não me pergunta. parte sempre do princípio que sei o que vejo e o que não vejo
( - usa a tua terceira visão! vá. faz o teu trabalho...
  então eu fecho os olhos de ver e falo)
- sim, aqui na zona do laríngeo é tudo o que calei
ele bate com a mão aberta no centro do meu peito
- é tudo o que vem daqui, que tu não falaste. tanta vida sem falares... tanto tempo sem te permitires manifestares-te, sem mostrares sentimentos
- eu sei
( - tão mal que eu me tratei durante tanto tempo
  dizia eu à mulher que dizem que carrega uma doença
   - tanto que eu permiti )
- eu vou ajudar-te, mas tens que fazer a tua parte com todo esse sentimento, todo esse amor, todas essas emoções que não queres entregar a um homem, a um companheiro 
- não conheço ninguém que valha a pena
murmurei-lhe 
- eu sei, mas tu tens que arranjar forma de expressares o que sentes, o que sonhas, o que temes, seja de que forma for. não te cales mais, senão cristaliza-se, como agora. tens que partilhar, deixar a corrente seguir o seu curso, sem comportas, sem barreiras. agora sente. sente o calor da minha mão no teu corpo. apenas sente











vender sexo







nunca considerei que fosse mais grave vender sexo do que vender ideias, do que abrir mão daquilo que se acredita ser certo, por dinheiro, por segurança. nunca considerei a prostituição uma profissão inferior a outra qualquer. qual professor que se sujeita a tutelas das quais discorda, CEOs que negligenciam os valores que apregoam no seio da família, padres que pregam o que não cumprem, médicos que não defendem, com unhas e dentes a vida. vender sexo parece-me muito menos indigno do que qualquer outro contrato que nos faça abrir mão daquilo que somos, daquilo que acreditamos, da nossa verdade.
nunca considerei que pudesse interessar a alguém o que considero, mas sabe-me bem escrever isto, porque o penso, e porque faz-me lembrar daquela prostituta que vendia sexo na avenida da boavista para pagar os estudos dos filhos, e também me faz lembrar da colega de trabalho dela, que ajudava os idosos que moravam na rua onde ela alugava o sexo. também me faz lembrar do advogado que forjava provas para vencer os processos, e do homem que caluniava a mulher para que os filhos desrespeitassem a mãe, e do cirurgião que assustava os doentes para vender cirurgias.

e esta manhã, ao acordar, depois de ter escrito isso aí acima antes de me deitar, lembrei-me que também eu troquei sexo para evitar dias de mau humor do homem com quem estava casada, durante anos, por um humor que nunca entendi, que desprezava. nem dinheiro recebi por isso. se tivesse recebido, certamente hoje teria uma vida muito menos trabalhosa, feitas bem as contas até podia estar rica.








sábado, 25 de novembro de 2017

frio








do lado esquerdo da secretária, ainda pousam retalhos de vida dispersos em papeis amarelos. números que representam sentimentos, combinações que indicam respostas, somas que esvanecem dúvidas. a frieza com que interpreta cada pergunta, é o gelo que a invade por dentro.