naquele fim de tarde, num encontro sobre espiritualidades, perguntam-me quais os meus objectivos para os próximos tempos - deixar de pagar propinas - como? - deixar de pagar propinas - ah...parece-me bem não sei se lhe pareceu
No parque de estacionamento do continente, mastigo muito lentamente um snicker. Prendo a respiração e fecho os olhos enquanto sinto na língua o chocolate e o caramelo renderem-se ao calor da boca, a resistência do nougat de amendoim, cedendo à determinação dos dentes. Arrepio-me e sinto o prazer do paladar confundindo-se com a vertigem. Há anos que não comia um snicker. Devia ter comprado dois. Devia tê-lo feito há cinco dias.
a mulher diz que está velha. olho para ela e reparo que não aparenta idade para o que diz sentir. talvez seja a velhice algum espaço de vida, vazio de ânimo, que se alonga desde o tempo em que deixamos de ser crianças até ao momento em que nos percebemos incapazes de encantamento.
- tu sabes o que isto é ele não me pergunta. parte sempre do princípio que sei o que vejo e o que não vejo ( - usa a tua terceira visão! vá. faz o teu trabalho... então eu fecho os olhos de ver e falo) - sim, aqui na zona do laríngeo é tudo o que calei ele bate com a mão aberta no centro do meu peito - é tudo o que vem daqui, que tu não falaste. tanta vida sem falares... tanto tempo sem te permitires manifestares-te, sem mostrares sentimentos - eu sei ( - tão mal que eu me tratei durante tanto tempo dizia eu à mulher que dizem que carrega uma doença - tanto que eu permiti ) - eu vou ajudar-te, mas tens que fazer a tua parte com todo esse sentimento, todo esse amor, todas essas emoções que não queres entregar a um homem, a um companheiro - não conheço ninguém que valha a pena murmurei-lhe - eu sei, mas tu tens que arranjar forma de expressares o que sentes, o que sonhas, o que temes, seja de que forma for. não te cales mais, senão cristaliza-se, como agora. tens que partilhar, deixar a corrente seguir o seu curso, sem comportas, sem barreiras. agora sente. sente o calor da minha mão no teu corpo. apenas sente
nunca considerei que fosse mais grave vender sexo do que vender ideias, do que abrir mão daquilo que se acredita ser certo, por dinheiro, por segurança. nunca considerei a prostituição uma profissão inferior a outra qualquer. qual professor que se sujeita a tutelas das quais discorda, CEOs que negligenciam os valores que apregoam no seio da família, padres que pregam o que não cumprem, médicos que não defendem, com unhas e dentes a vida. vender sexo parece-me muito menos indigno do que qualquer outro contrato que nos faça abrir mão daquilo que somos, daquilo que acreditamos, da nossa verdade. nunca considerei que pudesse interessar a alguém o que considero, mas sabe-me bem escrever isto, porque o penso, e porque faz-me lembrar daquela prostituta que vendia sexo na avenida da boavista para pagar os estudos dos filhos, e também me faz lembrar da colega de trabalho dela, que ajudava os idosos que moravam na rua onde ela alugava o sexo. também me faz lembrar do advogado que forjava provas para vencer os processos, e do homem que caluniava a mulher para que os filhos desrespeitassem a mãe, e do cirurgião que assustava os doentes para vender cirurgias. e esta manhã, ao acordar, depois de ter escrito isso aí acima antes de me deitar, lembrei-me que também eu troquei sexo para evitar dias de mau humor do homem com quem estava casada, durante anos, por um humor que nunca entendi, que desprezava. nem dinheiro recebi por isso. se tivesse recebido, certamente hoje teria uma vida muito menos trabalhosa, feitas bem as contas até podia estar rica.
do lado esquerdo da secretária, ainda pousam retalhos de vida dispersos em papeis amarelos. números que representam sentimentos, combinações que indicam respostas, somas que esvanecem dúvidas. a frieza com que interpreta cada pergunta, é o gelo que a invade por dentro.
- agora eu sei porque vim diz a mulher que dizem que carrega uma doença - agora estou melhor além da doença, a mulher carrega uma escola consigo, e espelhos, e ensinamentos, e força, e coragem, mas ela não sabe o tamanho que tem, aquela mulher pequena - sabes, disseram-me duas coisas importantes na vida. uma, disse-mo o homem-terra, a outra, disseste-me tu eu, que esqueço tudo o que digo, nada faço além de a ouvir - um dia, o homem-terra disse-me 'se queres uma coisa, vai buscá-la! vai, não fiques à espera que venha ter contigo, vai!', e tu, um dia disseste-me 'põe a intenção daquilo que queres, em tudo, na energia que queres receber, em tudo...' tu não imaginas a força que me dá as duas coisas juntas a mulher que dizem que carrega uma doença, veio buscar e veio trazer, força. ela nem sabe o quanto, naquela aparência frágil, franzina.
o outono chegou inteiro, com o vento, o meu vento, já não quente, mas ainda não gelado, o vento que me varre por dentro e por fora dos panos com que me cubro, o vento que faz com que as folhas dancem, e despe as árvores numa algazarra de lhes fazer ondular o corpo todo. chegou a chuva também, a minha chuva pouco fria, que me faz sair para a rua para lavar a alma, e lava, e regressar a casa sem o peso da vida às costas. chegaram os cinzas luminosos das nuvens e do mar, espuma contrastante, o sol que espreita, e eu a descobrir a eternidade nesse limite inexistente que é a linha do horizonte, quando as cores do céu se entrelaçam com as do mar. outono-me também eu no desvario da estação e permito-me ser não sendo, não sendo ser tudo, e tê-lo não o tendo nunca. como o vento, como a chuva, como os cinzas, rodopio e indefino-me quando me querem definida, desvario-me e enlouqueço-me.
sentada no lugar habitual, a mulher dizia não imagino o meu futuro, e talvez não imaginar o futuro seja a melhor forma de viver, como os animais, um momento de cada vez.