sentada no lugar habitual, a mulher dizia não imagino o meu futuro, e talvez não imaginar o futuro seja a melhor forma de viver, como os animais, um momento de cada vez.
sentada naquela sala de espera, a mulher transparece um sorriso olhando para a mãe que a espera no carro, ao sol. à distância pode-se perceber que a senhora beija um santo que tira da bolsa, e fala sozinha. pedir-lhe-à que olhe pela filha, penso eu, enquanto também observo, vendo que, embora sozinha, a senhora não pára de falar. mil e uma recomendações endereçará à pequena figura que segura entre as mãos. depois, a mulher sentada na sala de espera, olha para o televisor suspenso por cima da parede envidraçada, e meneia a cabeça que sim, sorrindo mais uma vez. no ecrã passa uma reportagem sobre o u-dream. há gente que ocupa o tempo tornando a vida dos outros melhor, deve ela pensar
ali, na terra em que tudo é possível, em que corre com os pés nus na terra húmida e exuberante de verde, estaca perante o precipício onde se despenha a corrente solta do rio. - tenho medo do salto - tens medo... riem-se dela todos os elementos e elementares da floresta - tens medo... - tenho medo da queda - tens medo... sussurram-lhe tão perto do ouvido, que se arrepia com o odor gelado do húmus. - tenho medo da dor - tens medo... repara no fluxo da água. chega ao precipício e não teme. ao cair torna a formar-se leito e retoma o seu curso, constrói novas margens. o teu medo é o que te impede. tens que deixar acontecer o que pode acontecer. quando é que deixaste de ler na natureza?
estou quase a perder uma aposta. terei que pagar um jantar a um homem anos de luz distante de mim, cair na gandaia e fumar um charuto com ele. cheira-me a esturro. traiu-me a barba dos meus rapazes. uma semana sem a cortar, cá por casa, e parecem judeus fundamentalistas. o outro, três semanas sem a cortar, e parece barba de quatro dias, da caseira. moral da história, não avalies os outros por aquilo que conheces de ti (dos rapazes, claro), ou não penses que as barbas crescem todas ao mesmo ritmo. acho que vou de metro.
quando acordei, ele já não estava .e eu que tinha tantos sonhos aflitos para serem contados. ele brinca de ser menino grande durante o dia, e foge, matreiro, para crescer, com o crescer do sol, e respirar com o bafo frio que solta a terra pela manhã prometendo dia de luz azul. como ele. eu, que fico com os sonhos todos colados à pele, prendendo-me os movimentos e o pensar, enrolo em papeis coloridos, daqueles de enfeitar os chocolates, todos os sustos, todos os medos, todos os monstros, que povoaram a minha noite, naqueles momentos, em que dormindo, a minha alma se solta da mão da alma dele. [então o humanóide tinha aparecido ali, vindo não sei de onde. mas estava ali, sempre ao meu lado. enorme, frio, metálico. o meu medo dele, dava-lhe força, se eu fugia, ele corria para me alcançar. se eu parava, ele parava. se eu o aceitava, ele colaborava. 'isso não és tu', dizia, 'isso são reacções químicas do teu corpo. tu és mais'.]
diz-me a mulher - ele disse-me que deus nos dá o peso que conseguimos carregar, mas eu não estou a conseguir... eu ouço - é que, sabes, já lá vão tantas vidas a carregar tanto peso, e depois, acabo por morrer sem conseguir. e se nesta vida for igual? e se eu tiver feito a escolha errada? aquela mulher tem memórias de várias vidas. na minha, não cabe nem esta que vivo - andas a repetir um padrão digo-lhe, sabendo que é o comentário óbvio, um lugar comum - eu sei. mas caramba, não sei o que fazer eu gostava de lhe dizer que tem que parar, silenciar, parar de lutar contra ela mesma. mas ela, sentada na mesma posição em que eu me sento, precisamente à minha frente, é o meu espelho - eu também não sei, maria, não sei.
- olha a d. ana! está boa? - então há lá outra maneira de estar, andré? claro que estou. respondo, à moda de um dos rapazes - hmm... olhe que não me parece... - estou sim, andré. estou é a disfarçar... tento eu brincar todos os dias passo pelo talho uns breves minutos. apenas o tempo de pegar nas compras, pagar, e trocar duas ou três frases, reclamar desta ou daquela coisa, recomendar que não me mandem coxas pequenas, senão devolvo, devolvo tudo sem pele, esquartejado e tudo. mas os minutos que lá passo diariamente, devem bastar para que me conheçam o brilho do olhar, a maneira de me movimentar, a forma como piso o chão, a entoação da minha voz, a reclamação por fazer, a forma como pego nos sacos '-hmm... olhe que não parece...' e faz-me sentir amparada. mesmo que não admita, ali, no meio dos cadáveres desmembrados, o que me tolhe por dentro, sinto-me acolhida, reconhecida. e isso, hoje, pareceu-me bom.
quando entra em minha casa, a primeira coisa que faz é ir até à varanda - os meninos estão de castigo? pergunta, sabendo que de vez em quando zango-me com os pardais - não, com este frio não há meninos de castigo. precisam de comer para se aguentarem ao relento. mas mereciam, lá isso mereciam! então senta-se no sofá para ver os meninos a saltitar ao sol enquanto comem a aveia - um dia destes vais metê-los dentro de casa...estou mesmo a ver...
de repente veio-me à memória que eu devia curar aquela mulher em mim. como se fossemos o prolongamento uma da outra, o mesmo sangue a correr-nos nas veias [o que é que dela, eu tenho em mim? ] conta-me ela que quando fui ao médico, ele ficou admirado por eu ainda ter nódulos. disse que não era suposto eu ter e ficou a olhar para mim com um ar muito triste. eu disse-lhe 'doutor, todos olham para mim como se eu fosse morrer já, mas eu não me sinto a morrer', então os olhos dele ficaram cheios de lágrimas, e eu fiquei cheia de medo. ela fala como se estivesse a rir e eu imagino que aquela mulher de corpo franzino, a minha professora de yoga, esteja apavorada. então ela diz agora vamos fazer a respiração. queres que conte? quero e ela vence as dores, que, rindo, diz que tem, e dá a aula, fazendo as posturas todas, do principio ao fim. reflectidas no espelho, estamos as duas e ela parece tão pequenina ao meu lado. só queria que estas dores nas costas não fossem dos rins. a medicina chinesa diz que é a nossa energia vital a sair, e eu não queria nada isso. e ela sorri. sorri sempre.