quando acordei, ele já não estava .e eu que tinha tantos sonhos aflitos para serem contados. ele brinca de ser menino grande durante o dia, e foge, matreiro, para crescer, com o crescer do sol, e respirar com o bafo frio que solta a terra pela manhã prometendo dia de luz azul. como ele. eu, que fico com os sonhos todos colados à pele, prendendo-me os movimentos e o pensar, enrolo em papeis coloridos, daqueles de enfeitar os chocolates, todos os sustos, todos os medos, todos os monstros, que povoaram a minha noite, naqueles momentos, em que dormindo, a minha alma se solta da mão da alma dele. [então o humanóide tinha aparecido ali, vindo não sei de onde. mas estava ali, sempre ao meu lado. enorme, frio, metálico. o meu medo dele, dava-lhe força, se eu fugia, ele corria para me alcançar. se eu parava, ele parava. se eu o aceitava, ele colaborava. 'isso não és tu', dizia, 'isso são reacções químicas do teu corpo. tu és mais'.]
diz-me a mulher - ele disse-me que deus nos dá o peso que conseguimos carregar, mas eu não estou a conseguir... eu ouço - é que, sabes, já lá vão tantas vidas a carregar tanto peso, e depois, acabo por morrer sem conseguir. e se nesta vida for igual? e se eu tiver feito a escolha errada? aquela mulher tem memórias de várias vidas. na minha, não cabe nem esta que vivo - andas a repetir um padrão digo-lhe, sabendo que é o comentário óbvio, um lugar comum - eu sei. mas caramba, não sei o que fazer eu gostava de lhe dizer que tem que parar, silenciar, parar de lutar contra ela mesma. mas ela, sentada na mesma posição em que eu me sento, precisamente à minha frente, é o meu espelho - eu também não sei, maria, não sei.
- olha a d. ana! está boa? - então há lá outra maneira de estar, andré? claro que estou. respondo, à moda de um dos rapazes - hmm... olhe que não me parece... - estou sim, andré. estou é a disfarçar... tento eu brincar todos os dias passo pelo talho uns breves minutos. apenas o tempo de pegar nas compras, pagar, e trocar duas ou três frases, reclamar desta ou daquela coisa, recomendar que não me mandem coxas pequenas, senão devolvo, devolvo tudo sem pele, esquartejado e tudo. mas os minutos que lá passo diariamente, devem bastar para que me conheçam o brilho do olhar, a maneira de me movimentar, a forma como piso o chão, a entoação da minha voz, a reclamação por fazer, a forma como pego nos sacos '-hmm... olhe que não parece...' e faz-me sentir amparada. mesmo que não admita, ali, no meio dos cadáveres desmembrados, o que me tolhe por dentro, sinto-me acolhida, reconhecida. e isso, hoje, pareceu-me bom.
quando entra em minha casa, a primeira coisa que faz é ir até à varanda - os meninos estão de castigo? pergunta, sabendo que de vez em quando zango-me com os pardais - não, com este frio não há meninos de castigo. precisam de comer para se aguentarem ao relento. mas mereciam, lá isso mereciam! então senta-se no sofá para ver os meninos a saltitar ao sol enquanto comem a aveia - um dia destes vais metê-los dentro de casa...estou mesmo a ver...
de repente veio-me à memória que eu devia curar aquela mulher em mim. como se fossemos o prolongamento uma da outra, o mesmo sangue a correr-nos nas veias [o que é que dela, eu tenho em mim? ] conta-me ela que quando fui ao médico, ele ficou admirado por eu ainda ter nódulos. disse que não era suposto eu ter e ficou a olhar para mim com um ar muito triste. eu disse-lhe 'doutor, todos olham para mim como se eu fosse morrer já, mas eu não me sinto a morrer', então os olhos dele ficaram cheios de lágrimas, e eu fiquei cheia de medo. ela fala como se estivesse a rir e eu imagino que aquela mulher de corpo franzino, a minha professora de yoga, esteja apavorada. então ela diz agora vamos fazer a respiração. queres que conte? quero e ela vence as dores, que, rindo, diz que tem, e dá a aula, fazendo as posturas todas, do principio ao fim. reflectidas no espelho, estamos as duas e ela parece tão pequenina ao meu lado. só queria que estas dores nas costas não fossem dos rins. a medicina chinesa diz que é a nossa energia vital a sair, e eu não queria nada isso. e ela sorri. sorri sempre.
eu quero que lutes pelo que te foi dado, pela tua vida. disse-lhe, naquelas horas paradas de insónia, em que o desafiou neste momento de vigília, entre o sono profundo e o acordar, em que estou tão perto de ti, diz-me o que queres de mim.
a mulher de ar cansado e pesado, levanta o olhar, alisa as linhas da testa, semicerra os olhos, inverte a curvatura dos lábios, faz covinhas nas faces, solta uma exclamação, e sorri. ilumina-se-lhe o rosto, rejuvenesce pelo menos dez anos e torna-se mais leve naquela alegria. devia ter-lhe dito como lhe fica bem o sorriso.
- emagreceste diz-me o homem-terra enquanto percorre o meu corpo com as pontas dos dedos, pressionando nalguns pontos, à procura do que eu não pergunto. não questiono, não indago, deixo-me estar e confio, não só nas mãos, mas na capacidade dele ver por dentro - não sei porque te admiras, eu já to tinha dito disse-me, depois de eu lhe ter dado a notícia daquilo que ele me tinha falado duas semanas antes - foi muita vida sem falares o que sentes, tu sabes, e com o passar do tempo, cristalizou-se. agora temos que limpar, por camadas, camada a camada. mas tu agora sabes, integraste, agora é fazer o caminho. mas já viste como estás a rejuvenescer desde que me conheces? não to têm dito? é verdade, tenho assistido a isso nos outros. a manuela rejuvenesceu, assim como a madalena, a graça, a arminda, o mário. talvez seja a serenidade no rosto, talvez - têm me dito que os cabelos brancos me ficam bem, só isso ele sorri. ele sabe - só eu é que não gosto. mas não te sentes bem? melhor? sim, ele lembra-me o que pergunto à mulher doente - como te sentes? não quero saber o que dizem os exames, quero saber como te sentes - sim, sinto-me bem. há muito que não me sentia tão bem comigo mesma. na realidade, nunca me senti tão bem assim - então vamos trabalhar, vamos limpar e começa a cantar numa linguagem que eu desconheço mas entendo, lendo o que se passa no corpo e na alma - sente. aceita o que tu és e eu vejo terra molhada coberta de erva.
o homem baixinho manda-me celebrar a vida, celebrar-me, celebrar cada momento, cada refeição, o trabalho, os clientes, celebrar o sol, a terra, a chuva, celebrar o tempo. abarcar tudo como uma dádiva, uma bênção, uma graça. que o é. e não consigo. preciso é da terra húmida e fértil debaixo dos meus pés nus. com urgência.
é ali naquele espaço de tempo de espera, que eu descanso, que finalmente páro de pensar. ali onde aguardo, como se o decorrer da vida ficasse em suspenso. conto, uma lâmpada fundida, duas lâmpadas quase fundidas, uma lâmpada boa.