quarta-feira, 15 de novembro de 2017

hmmm








- olha a d. ana! está boa?
- então há lá outra maneira de estar, andré? claro que estou.
respondo, à moda de um dos rapazes
- hmm... olhe que não me parece...
- estou sim, andré. estou é a disfarçar...
tento eu brincar
todos os dias passo pelo talho uns breves minutos. apenas o tempo de pegar nas compras, pagar, e trocar duas ou três frases, reclamar desta ou daquela coisa, recomendar que não me mandem coxas pequenas, senão devolvo, devolvo tudo sem pele, esquartejado e tudo.
mas os minutos que lá passo diariamente, devem bastar para que me conheçam o brilho do olhar, a maneira de me movimentar, a forma como piso o chão, a entoação da minha voz, a reclamação por fazer, a forma como pego nos sacos
'-hmm... olhe que não parece...' e faz-me sentir amparada. mesmo que não admita, ali, no meio dos cadáveres desmembrados, o que me tolhe por dentro, sinto-me acolhida, reconhecida. e isso, hoje, pareceu-me bom.












meninos







quando entra em minha casa, a primeira coisa que faz é ir até à varanda
- os meninos estão de castigo?
pergunta, sabendo que de vez em quando zango-me com os pardais
- não, com este frio não há meninos de castigo. precisam de comer para se aguentarem ao relento. mas mereciam, lá isso mereciam!
então senta-se no sofá para ver os meninos a saltitar ao sol enquanto comem a aveia
- um dia destes vais metê-los dentro de casa...estou mesmo a ver...











terça-feira, 14 de novembro de 2017

sorri sempre




















de repente veio-me à memória que eu devia curar aquela mulher em mim. como se fossemos o prolongamento uma da outra, o mesmo sangue a correr-nos nas veias
[o que é que dela, eu tenho em mim? ]

conta-me ela que
quando fui ao médico, ele ficou admirado por eu ainda ter nódulos. disse que não  era suposto eu ter e ficou a olhar para mim com um ar muito triste. eu disse-lhe 'doutor, todos olham para mim como se eu fosse morrer já, mas eu não me sinto a morrer', então os olhos dele ficaram cheios de lágrimas, e eu fiquei cheia de medo.

ela fala como se estivesse a rir e eu imagino que aquela mulher de corpo franzino, a minha professora de yoga, esteja apavorada. então ela diz
agora vamos fazer a respiração. queres que conte?
quero
e ela vence as dores, que, rindo, diz que tem, e dá a aula, fazendo as posturas todas, do principio ao fim.

reflectidas no espelho, estamos as duas e ela parece tão pequenina ao meu lado.

só queria que estas dores nas costas não fossem dos rins. a medicina chinesa diz que é a nossa energia vital a sair, e eu não queria nada isso.
e ela sorri. sorri sempre.












sobre ele








eu quero que lutes pelo que te foi dado, pela tua vida. 
disse-lhe, naquelas horas paradas de insónia, em que o desafiou
neste momento de vigília, entre o sono profundo e o acordar, em que estou tão perto de ti, diz-me o que queres de mim.













na padaria









a mulher de ar cansado e pesado, levanta o olhar, alisa as linhas da testa, semicerra os olhos, inverte a curvatura dos lábios, faz covinhas nas faces, solta uma exclamação, e sorri. ilumina-se-lhe o rosto, rejuvenesce pelo menos dez anos e torna-se mais leve naquela alegria. devia ter-lhe dito como lhe fica bem o sorriso.












segunda-feira, 13 de novembro de 2017

ainda terra











- emagreceste
diz-me o homem-terra enquanto percorre o meu corpo com as pontas dos dedos, pressionando nalguns pontos, à procura do que eu não pergunto. não questiono, não indago, deixo-me estar e confio, não só nas mãos, mas na capacidade dele ver por dentro
- não sei porque te admiras, eu já to tinha dito
disse-me, depois de eu lhe ter dado a notícia daquilo que ele me tinha falado duas semanas antes
- foi muita vida sem falares o que sentes, tu sabes, e com o passar do tempo, cristalizou-se. agora temos que limpar, por camadas, camada a camada. mas tu agora sabes, integraste, agora é fazer o caminho. mas já viste como estás a rejuvenescer desde que me conheces? não to têm dito?
é verdade, tenho assistido a isso nos outros. a manuela rejuvenesceu, assim como a madalena, a graça, a arminda, o mário. talvez seja a serenidade no rosto, talvez
- têm me dito que os cabelos brancos me ficam bem, só isso
ele sorri. ele sabe
- só eu é que não gosto. mas não te sentes bem? melhor?
sim, ele lembra-me o que pergunto à mulher doente - como te sentes? não quero saber o que dizem os exames, quero saber como te sentes
- sim, sinto-me bem. há muito que não me sentia tão bem comigo mesma. na realidade, nunca me senti tão bem assim
- então vamos trabalhar, vamos limpar
e começa a cantar numa linguagem que eu desconheço mas entendo, lendo o que se passa no corpo e na alma
- sente. aceita o que tu és
e eu vejo terra molhada coberta de erva.











domingo, 12 de novembro de 2017

terra fértil








  o homem baixinho manda-me celebrar a vida, celebrar-me, celebrar cada momento, cada refeição, o trabalho, os clientes, celebrar o sol, a terra, a chuva, celebrar o tempo. abarcar tudo como uma dádiva, uma bênção, uma graça. que o é. e não consigo.

preciso é da terra húmida e fértil debaixo dos meus pés nus. com urgência. 









descanso








é ali naquele espaço de tempo de espera, que eu descanso, que finalmente páro de pensar. ali onde aguardo, como se o decorrer da vida ficasse em suspenso. 
conto, uma lâmpada fundida, duas lâmpadas quase fundidas, uma lâmpada boa.











sábado, 11 de novembro de 2017

acasos









então a mulher doente, sentada no chão, em frente a mim, explica à mulher que tem o medo estampado no rosto
eu faço de conta que não estou doente e ponho-me a fazer coisas de que gosto, e então a cura, acontece aos bocadinhos
a mulher que tem o medo estampado no rosto diz que está perdida
começa por fazer uma coisa de que gostes, pequenina que seja, e depois, esse bocadinho de luz entra, e começa a alastrar dentro da escuridão à medida que te vais dando atenção

elas falam uma com a outra e eu percebo que é para ouvir aquelas palavras que estou ali













sexta-feira, 10 de novembro de 2017

lugar nenhum









a mulher gostava tanto de chegar, que estava sempre a partir, sem destino.