terça-feira, 14 de novembro de 2017

sorri sempre




















de repente veio-me à memória que eu devia curar aquela mulher em mim. como se fossemos o prolongamento uma da outra, o mesmo sangue a correr-nos nas veias
[o que é que dela, eu tenho em mim? ]

conta-me ela que
quando fui ao médico, ele ficou admirado por eu ainda ter nódulos. disse que não  era suposto eu ter e ficou a olhar para mim com um ar muito triste. eu disse-lhe 'doutor, todos olham para mim como se eu fosse morrer já, mas eu não me sinto a morrer', então os olhos dele ficaram cheios de lágrimas, e eu fiquei cheia de medo.

ela fala como se estivesse a rir e eu imagino que aquela mulher de corpo franzino, a minha professora de yoga, esteja apavorada. então ela diz
agora vamos fazer a respiração. queres que conte?
quero
e ela vence as dores, que, rindo, diz que tem, e dá a aula, fazendo as posturas todas, do principio ao fim.

reflectidas no espelho, estamos as duas e ela parece tão pequenina ao meu lado.

só queria que estas dores nas costas não fossem dos rins. a medicina chinesa diz que é a nossa energia vital a sair, e eu não queria nada isso.
e ela sorri. sorri sempre.












sobre ele








eu quero que lutes pelo que te foi dado, pela tua vida. 
disse-lhe, naquelas horas paradas de insónia, em que o desafiou
neste momento de vigília, entre o sono profundo e o acordar, em que estou tão perto de ti, diz-me o que queres de mim.













na padaria









a mulher de ar cansado e pesado, levanta o olhar, alisa as linhas da testa, semicerra os olhos, inverte a curvatura dos lábios, faz covinhas nas faces, solta uma exclamação, e sorri. ilumina-se-lhe o rosto, rejuvenesce pelo menos dez anos e torna-se mais leve naquela alegria. devia ter-lhe dito como lhe fica bem o sorriso.












segunda-feira, 13 de novembro de 2017

ainda terra











- emagreceste
diz-me o homem-terra enquanto percorre o meu corpo com as pontas dos dedos, pressionando nalguns pontos, à procura do que eu não pergunto. não questiono, não indago, deixo-me estar e confio, não só nas mãos, mas na capacidade dele ver por dentro
- não sei porque te admiras, eu já to tinha dito
disse-me, depois de eu lhe ter dado a notícia daquilo que ele me tinha falado duas semanas antes
- foi muita vida sem falares o que sentes, tu sabes, e com o passar do tempo, cristalizou-se. agora temos que limpar, por camadas, camada a camada. mas tu agora sabes, integraste, agora é fazer o caminho. mas já viste como estás a rejuvenescer desde que me conheces? não to têm dito?
é verdade, tenho assistido a isso nos outros. a manuela rejuvenesceu, assim como a madalena, a graça, a arminda, o mário. talvez seja a serenidade no rosto, talvez
- têm me dito que os cabelos brancos me ficam bem, só isso
ele sorri. ele sabe
- só eu é que não gosto. mas não te sentes bem? melhor?
sim, ele lembra-me o que pergunto à mulher doente - como te sentes? não quero saber o que dizem os exames, quero saber como te sentes
- sim, sinto-me bem. há muito que não me sentia tão bem comigo mesma. na realidade, nunca me senti tão bem assim
- então vamos trabalhar, vamos limpar
e começa a cantar numa linguagem que eu desconheço mas entendo, lendo o que se passa no corpo e na alma
- sente. aceita o que tu és
e eu vejo terra molhada coberta de erva.











domingo, 12 de novembro de 2017

terra fértil








  o homem baixinho manda-me celebrar a vida, celebrar-me, celebrar cada momento, cada refeição, o trabalho, os clientes, celebrar o sol, a terra, a chuva, celebrar o tempo. abarcar tudo como uma dádiva, uma bênção, uma graça. que o é. e não consigo.

preciso é da terra húmida e fértil debaixo dos meus pés nus. com urgência. 









descanso








é ali naquele espaço de tempo de espera, que eu descanso, que finalmente páro de pensar. ali onde aguardo, como se o decorrer da vida ficasse em suspenso. 
conto, uma lâmpada fundida, duas lâmpadas quase fundidas, uma lâmpada boa.











sábado, 11 de novembro de 2017

acasos









então a mulher doente, sentada no chão, em frente a mim, explica à mulher que tem o medo estampado no rosto
eu faço de conta que não estou doente e ponho-me a fazer coisas de que gosto, e então a cura, acontece aos bocadinhos
a mulher que tem o medo estampado no rosto diz que está perdida
começa por fazer uma coisa de que gostes, pequenina que seja, e depois, esse bocadinho de luz entra, e começa a alastrar dentro da escuridão à medida que te vais dando atenção

elas falam uma com a outra e eu percebo que é para ouvir aquelas palavras que estou ali













sexta-feira, 10 de novembro de 2017

lugar nenhum









a mulher gostava tanto de chegar, que estava sempre a partir, sem destino.












quinta-feira, 9 de novembro de 2017

noites







é a ele que de manhã bem cedo entrego os sonhos todos que sonhei, um a um. ele guarda-os às camadas, separando-os com finos tecidos de algodão perfumados de alfazema. quando as horas estão vazias, procuro-os nos recônditos da sua alma, na profundidade dos seus olhos, no calor da sua voz, no aconchego das suas mãos. e ele lembra-me, de novo, que as noites não são lugares vazios, que nos dias se entrelaçam vidas, que da partilha nascem pontes.








nascente








com o olhar pousado no seu rosto vincado, e os lábios demorados na sua mão, beija-lhe os dedos onde nascem as palavras que escreve.