diz-me o homem-terra enquanto percorre o meu corpo com as pontas dos dedos, pressionando nalguns pontos, à procura do que eu não pergunto. não questiono, não indago, deixo-me estar e confio, não só nas mãos, mas na capacidade dele ver por dentro
- não sei porque te admiras, eu já to tinha dito
disse-me, depois de eu lhe ter dado a notícia daquilo que ele me tinha falado duas semanas antes
- foi muita vida sem falares o que sentes, tu sabes, e com o passar do tempo, cristalizou-se. agora temos que limpar, por camadas, camada a camada. mas tu agora sabes, integraste, agora é fazer o caminho. mas já viste como estás a rejuvenescer desde que me conheces? não to têm dito?
é verdade, tenho assistido a isso nos outros. a manuela rejuvenesceu, assim como a madalena, a graça, a arminda, o mário. talvez seja a serenidade no rosto, talvez
- têm me dito que os cabelos brancos me ficam bem, só isso
ele sorri. ele sabe
- só eu é que não gosto. mas não te sentes bem? melhor?
sim, ele lembra-me o que pergunto à mulher doente - como te sentes? não quero saber o que dizem os exames, quero saber como te sentes
- sim, sinto-me bem. há muito que não me sentia tão bem comigo mesma. na realidade, nunca me senti tão bem assim
- então vamos trabalhar, vamos limpar
e começa a cantar numa linguagem que eu desconheço mas entendo, lendo o que se passa no corpo e na alma
- sente. aceita o que tu és
e eu vejo terra molhada coberta de erva.


