domingo, 12 de novembro de 2017

terra fértil








  o homem baixinho manda-me celebrar a vida, celebrar-me, celebrar cada momento, cada refeição, o trabalho, os clientes, celebrar o sol, a terra, a chuva, celebrar o tempo. abarcar tudo como uma dádiva, uma bênção, uma graça. que o é. e não consigo.

preciso é da terra húmida e fértil debaixo dos meus pés nus. com urgência. 









descanso








é ali naquele espaço de tempo de espera, que eu descanso, que finalmente páro de pensar. ali onde aguardo, como se o decorrer da vida ficasse em suspenso. 
conto, uma lâmpada fundida, duas lâmpadas quase fundidas, uma lâmpada boa.











sábado, 11 de novembro de 2017

acasos









então a mulher doente, sentada no chão, em frente a mim, explica à mulher que tem o medo estampado no rosto
eu faço de conta que não estou doente e ponho-me a fazer coisas de que gosto, e então a cura, acontece aos bocadinhos
a mulher que tem o medo estampado no rosto diz que está perdida
começa por fazer uma coisa de que gostes, pequenina que seja, e depois, esse bocadinho de luz entra, e começa a alastrar dentro da escuridão à medida que te vais dando atenção

elas falam uma com a outra e eu percebo que é para ouvir aquelas palavras que estou ali













sexta-feira, 10 de novembro de 2017

lugar nenhum









a mulher gostava tanto de chegar, que estava sempre a partir, sem destino.












quinta-feira, 9 de novembro de 2017

noites







é a ele que de manhã bem cedo entrego os sonhos todos que sonhei, um a um. ele guarda-os às camadas, separando-os com finos tecidos de algodão perfumados de alfazema. quando as horas estão vazias, procuro-os nos recônditos da sua alma, na profundidade dos seus olhos, no calor da sua voz, no aconchego das suas mãos. e ele lembra-me, de novo, que as noites não são lugares vazios, que nos dias se entrelaçam vidas, que da partilha nascem pontes.








nascente








com o olhar pousado no seu rosto vincado, e os lábios demorados na sua mão, beija-lhe os dedos onde nascem as palavras que escreve.









quarta-feira, 8 de novembro de 2017

anatomia das tentações











no próximo sábado, em Lisboa, "uma história tripartida entre santo antão (o que resiste às tentações), bosch (o que pinta as tentações) e wilde (o que confessou resistir a tudo menos às tentações), quase uma biografia 3-em-1 de três personagens que são a mesma pessoa (e muito parecida connosco)."














dona fernada e os ímpetos










a dona fernanda entra de rompante cá em casa, e sem que lhe seja sequer oferecido, serve-se de duas fatias de bolo de chocolate húmido, aquele que fica mesmo no ponto sem estar seco, embora cozido, e que é cremoso, sem estar cru. a minha vizinha come com satisfação, demorando o bolo na boca, deglutindo lentamente, saboreando com todo o corpo, e murmurando 'que bom', a cada trincadela. 
eu observo sentindo-me um misto de deliciada com a satisfação dela, e intrusa perante o seu prazer. pergunto-lhe
- sente-se bem?
- sim, sim. agora sim...
- ah...
digo, não sabendo o que dizer
- ai, vizinha... ando com desatinos de corpo, ímpetos sem fundamento palpável. um abismar do descontrolo, a muito custo controlado. nem lhe conto
diz-me ela, contando
- não sei se é das palavras daquele que lhe falei, se é das hormonas que o laboratório diz estarem bem comportadas, não sei se é mafarrico que se me colou, e, pior de tudo, nem sei o que fazer para acalmar isto que teima em se manifestar em mim. a vizinha que anda lá pelos iogas e por aquelas práticas espirituais, sabe como me ajudar?
ora eu, que me dou melhor com as invisibilidades do que com as carnes palpáveis, não sei como a ajudar nestes assuntos carnais.
- ora, dona fernanda, dê o corpo ao manifesto
digo-lhe, dissecando mentalmente a palavra mani-festo, e servindo-lhe uma terceira fatia de bolo, pelo prazer de a ver comer.
- como assim, vizinha?
corto também bolo para mim, pois já o meu pai quando não queria falar, enchia a boca de comida
- boa esta receita. não acha, dona fernanda?










coincidências









o homem do olhar irrequieto envia-me uma mensagem a dizer que tanto ele como a mulher, antes de adormecerem pediram ao anjo da guarda que os ajudasse a resolver o problema que se arrastava há mais de um ano, e que no dia seguinte, da parte de tarde, a solução estava lá. diz ele que não sabe se foi coincidência, mas que mo queria contar e desejar tudo de bom para mim. 
ora, eu e as coincidências...








terça-feira, 7 de novembro de 2017

e se...








e se o nosso comportamento se reflectisse na forma como os outros se comportam com os nossos filhos?