quinta-feira, 9 de novembro de 2017

noites







é a ele que de manhã bem cedo entrego os sonhos todos que sonhei, um a um. ele guarda-os às camadas, separando-os com finos tecidos de algodão perfumados de alfazema. quando as horas estão vazias, procuro-os nos recônditos da sua alma, na profundidade dos seus olhos, no calor da sua voz, no aconchego das suas mãos. e ele lembra-me, de novo, que as noites não são lugares vazios, que nos dias se entrelaçam vidas, que da partilha nascem pontes.








nascente








com o olhar pousado no seu rosto vincado, e os lábios demorados na sua mão, beija-lhe os dedos onde nascem as palavras que escreve.









quarta-feira, 8 de novembro de 2017

anatomia das tentações











no próximo sábado, em Lisboa, "uma história tripartida entre santo antão (o que resiste às tentações), bosch (o que pinta as tentações) e wilde (o que confessou resistir a tudo menos às tentações), quase uma biografia 3-em-1 de três personagens que são a mesma pessoa (e muito parecida connosco)."














dona fernada e os ímpetos










a dona fernanda entra de rompante cá em casa, e sem que lhe seja sequer oferecido, serve-se de duas fatias de bolo de chocolate húmido, aquele que fica mesmo no ponto sem estar seco, embora cozido, e que é cremoso, sem estar cru. a minha vizinha come com satisfação, demorando o bolo na boca, deglutindo lentamente, saboreando com todo o corpo, e murmurando 'que bom', a cada trincadela. 
eu observo sentindo-me um misto de deliciada com a satisfação dela, e intrusa perante o seu prazer. pergunto-lhe
- sente-se bem?
- sim, sim. agora sim...
- ah...
digo, não sabendo o que dizer
- ai, vizinha... ando com desatinos de corpo, ímpetos sem fundamento palpável. um abismar do descontrolo, a muito custo controlado. nem lhe conto
diz-me ela, contando
- não sei se é das palavras daquele que lhe falei, se é das hormonas que o laboratório diz estarem bem comportadas, não sei se é mafarrico que se me colou, e, pior de tudo, nem sei o que fazer para acalmar isto que teima em se manifestar em mim. a vizinha que anda lá pelos iogas e por aquelas práticas espirituais, sabe como me ajudar?
ora eu, que me dou melhor com as invisibilidades do que com as carnes palpáveis, não sei como a ajudar nestes assuntos carnais.
- ora, dona fernanda, dê o corpo ao manifesto
digo-lhe, dissecando mentalmente a palavra mani-festo, e servindo-lhe uma terceira fatia de bolo, pelo prazer de a ver comer.
- como assim, vizinha?
corto também bolo para mim, pois já o meu pai quando não queria falar, enchia a boca de comida
- boa esta receita. não acha, dona fernanda?










coincidências









o homem do olhar irrequieto envia-me uma mensagem a dizer que tanto ele como a mulher, antes de adormecerem pediram ao anjo da guarda que os ajudasse a resolver o problema que se arrastava há mais de um ano, e que no dia seguinte, da parte de tarde, a solução estava lá. diz ele que não sabe se foi coincidência, mas que mo queria contar e desejar tudo de bom para mim. 
ora, eu e as coincidências...








terça-feira, 7 de novembro de 2017

e se...








e se o nosso comportamento se reflectisse na forma como os outros se comportam com os nossos filhos?













segunda-feira, 6 de novembro de 2017

já fui









enquanto comento com o homem em frente a mim que é fácil sentirmo-nos gratos pelas coisas boas que nos acontecem, e que nunca nos lembramos de agradecer o que de aparentemente mau nos chega, porque o que nos parece mau, tem um motivo, nem que seja dar-nos um empurrão para mudarmos, para largarmos uma situação à qual nos acomodámos, ou aprender a tolerância, a paciência, a humildade, a aceitação e por aí fora. e que ao criarmos uma energia de gratidão, tornamo-nos receptivos à prosperidade. ora enquanto dizia eu estas coisas ao homem que me olhava com um ar desconfiado, uma parte de mim sussurrava-me 'já foste. vais já ver o que te vai acontecer para perceberes que não tens as regalias do frei tomás'.









domingo, 5 de novembro de 2017

minguante










desta vez não te peço
e deu-me um beijo nos lábios

o rato não apareceu e a lua está minguante. nunca se deve beijar alguém pela primeira vez em quarto-minguante.








quase










finalmente o quase silêncio. levanto os olhos neste quase domingo e encontro a lua imensa que sobe no céu seco, aqui mesmo em frente a este corpo cansado e desencontrado. escrevo sem olhar para o teclado com a atenção posta na luz reflectida do sol. são poucas as coisas que eu questiono. quando chego, é para ouvir, e as respostas são me dadas antes das perguntas. quando vou, só no regresso sei porque fui. quando falo, é porque tinha que escutar. toda eu sou o contrário do direito dos outros. 

mas uma vez por outra, sim, coincido.











sábado, 4 de novembro de 2017

a mulher da festa








a mulher que nem tinha sido convidada, entrou, deu os parabéns à aniversariante, sentou-se, e começou a falar o que todos pensavam e não diziam.
- ó manel, então essas argolas nas orelhas são para quê? e essa corrente que trazes pendurada, é para me levares presa? (do sr. doutor eu gosto muito, gostei logo, assim que o vi no casamento). ó miúdo! esqueceste-te do soutien em casa? e tu, vânia, andas com grandes decotes... ó lina, dá de comer ao sr. doutor. coitado, tem o prato vazio (do sr. doutor gostei assim que o vi).
a verdade é que todos os convidados sentiram-se mais aliviados, como se as palavras que ela dizia, lhes estivessem a sufocar, de entaladas na garganta. 
- sempre fui muito feliz. sabe, menina? por isso é que tenho saudades. fui muito feliz e ainda sou, então, tenho sempre muitas saudades. sempre trabalhei muito com a graça de deus, mas naquele dia em que ia lavar a roupa ao rio, que eu já disse ao senhor presidente da junta que não me pode tirar aquele rio de ao pé de casa, que eu lavo e seco lá a roupa, mas naquele dia eu estava a roubar umas rosas do jardim, e vai o burro, mete a cabeça no meu saco e come-me o telemóvel. foi por causa disso que caí, e nunca mais voltei a ser a mesma. mas tenho muitas saudades, porque sou muito feliz. senão não tinha.
a mulher foi a alma da festa, a voz que todos calavam, a saudade que ninguém tinha como ela.