sábado, 4 de novembro de 2017

a mulher da festa








a mulher que nem tinha sido convidada, entrou, deu os parabéns à aniversariante, sentou-se, e começou a falar o que todos pensavam e não diziam.
- ó manel, então essas argolas nas orelhas são para quê? e essa corrente que trazes pendurada, é para me levares presa? (do sr. doutor eu gosto muito, gostei logo, assim que o vi no casamento). ó miúdo! esqueceste-te do soutien em casa? e tu, vânia, andas com grandes decotes... ó lina, dá de comer ao sr. doutor. coitado, tem o prato vazio (do sr. doutor gostei assim que o vi).
a verdade é que todos os convidados sentiram-se mais aliviados, como se as palavras que ela dizia, lhes estivessem a sufocar, de entaladas na garganta. 
- sempre fui muito feliz. sabe, menina? por isso é que tenho saudades. fui muito feliz e ainda sou, então, tenho sempre muitas saudades. sempre trabalhei muito com a graça de deus, mas naquele dia em que ia lavar a roupa ao rio, que eu já disse ao senhor presidente da junta que não me pode tirar aquele rio de ao pé de casa, que eu lavo e seco lá a roupa, mas naquele dia eu estava a roubar umas rosas do jardim, e vai o burro, mete a cabeça no meu saco e come-me o telemóvel. foi por causa disso que caí, e nunca mais voltei a ser a mesma. mas tenho muitas saudades, porque sou muito feliz. senão não tinha.
a mulher foi a alma da festa, a voz que todos calavam, a saudade que ninguém tinha como ela.










quinta-feira, 2 de novembro de 2017

o rato











eu não ia, mas é a lua que me chama quando vou deitar o lixo no ecoponto. plásticos para a direita, cartões no meio, vidros, não há para a esquerda. lá em cima, a lua quase cheia, o céu transparente de negro, a toda a volta, o ar manso da noite. mais à frente, o rio mais parece um manto de óleo negro ondulante e eu faço o caminho do costume, o caminho sombrio e deserto de gentes pelo piso irregular que ladeia a corrente e os barcos que passam para recolher as redes. no mesmo lugar de ontem, está outra vez o rato. e assim como ontem, vai um passo, dos meus, à minha frente, naquele trotear de rato, como se me quisesse indicar o caminho para um qualquer buraco que eu não vejo, mas que ele conhece, tal como alice no país das maravilhas. um dia destes mergulho com ele. olhai o que vos digo.











quarta-feira, 1 de novembro de 2017

haloween









da chuva prometida, apenas as nuvens que cobriram o céu neste domingo. é já de noite quando vou caminhar e o ar está quente. apenas se ouvem os meus passos e o restolhar das folhas secas, sob os meus pés, e sobre a minha cabeça. cumprimento-as sorrindo, assim como os peixes que saltam na água mansa do rio, e o rato, que se esconde com calma nas pedras do cais. procuro na caminhada uma forma de me distanciar desta incapacidade de caber em mim. e não consigo.

*

resolvi aceitar o convite para a festa de haloween. concluí que me é muito mais fácil vestir de bruxa, do que, todos os dias, de forma comum.














thankful










de vez em quando volto aqui, a estes testemunhos. fazem-me bem, a simplicidade de algumas respostas, a profundidade de outras. sobretudo fixo-me naquele que dá graças pelas adversidades, e aqui, lembro-me dos doentes, das vítimas de guerras, de injustiça, de descriminação, de violência. pergunto-me o que responderiam se lhes perguntassem what are you thankful for?

[just simple and intelligent conversation. means a lot to me. (também to me)]










terça-feira, 31 de outubro de 2017

nuvens







lentamente as nuvens tomam conta da imensidão azul do céu prometendo saciar a sede da terra árida, dos veios secos dos rios, das árvores que se livram das folhas, da electricidade que concentro em mim. 
tu sabes dos meus cabelos que se levantam se tento penteá-los, os meus dedos que faíscam quando toco no carro (hoje, até em cebolas), a roupa que se cola ao corpo, o nariz que dá estalidos quando encosto ao teu. 
além de estar a secar, consumo-me no que me rodeia. 











talvez um dia destes lhe beije os lábios









eu sei que aquele 
queres vir caminhar?
resume-se a 200 ou 300 metros na noite fria, mas vou. ele espera-me junto ao rio e vem como se viesse às escondidas, e talvez venha mesmo. 
sentamos?
digo que sim. claro que sentamos. ele não sabe, mas eu trocaria qualquer lugar no melhor restaurante por aquele banco à beira rio, e sentamos. então ele fala, fala, fala, como uma criança que chega a casa ao final do dia de escola e conta as brincadeiras com os colegas, os ralhetes da professora, da menina que o encanta, das asneiras às escondidas, das lições que aprendeu. não se cala, apesar do frio. eu ouço e rio-me. rio com vontade, mesmo. rio pela espontaneidade dele, daquele homem bem mais velho, com responsabilidades políticas e vida social irrepreensível, aparentemente. 
é uma criança
penso. e enquanto penso, mostra fotografias, fala da sua juventude, das corridas de automóveis, da vida em coimbra, dos seus amores adúlteros, garantindo-me que não se torna a apaixonar, fala da sua família, da mulher, dos filhos e dos netos. 
está frio. posso encostar-me a ti?
podes, mas não acho boa ideia
e ele afasta-se, escondendo as mãos geladas entre as pernas
vais ficar constipado, vamos embora
sim, vamos. dás-me um beijo?
claro que não! que disparate!
ele olha para mim, acabrunhado
fizeste com que fique envergonhado, acho que corei.
eu olho-o com ternura. talvez um dia destes lhe beije os lábios.









segunda-feira, 30 de outubro de 2017

muitos anos






eu tenho obstáculos que me impedem de ver, como se fosse um muro, uma muralha - diz-me a mulher doente - são muitos anos, muitas encarnações em que vivemos formatadas, está no nosso adn. é como se tivesse um muro à minha frente e tenho que aprender a contorná-lo - a mulher parece uma metralhadora a falar, tamanha a necessidade de dizer o que sente. 
eu não acredito nisso de contornar obstáculos - digo-lhe. e são poucas as pessoas a quem posso dizer as coisas que lhe digo a ela - tens que te projectar para lá deles. ver além do que vês. percebes? assim, vrrruuuummm. atravessá-lo, até, e passar para o outro lado. tu podes. como vais contornar esse muro se nem sabes onde ele termina?










aos dias







antes de arrancar, a mulher abre a janela do carro e apregoa, para que eu a ouça, do outro lado da rua - empadão de carne! - levanto o meu polegar em sinal de agradecimento, e envio-lhe um sorriso, como quem deseja um dia bom para além do azul que se espraia por todo lado.
ontem, a cena foi igual. quando nos cruzámos, ela sempre apressada e eu sempre com pressa, do carro em andamento, anuncia-me - bacalhau com broa!. já na semana passada, encontrámo-nos na frutaria, e confidenciou-me - hoje só tenho os meninos. hambúrgueres com ovo estrelado e batata frita.
vai-me dando motes para as refeições sempre que me encontra. adivinha, sem o saber, que ando cansada de pensar em cozinha, e, embora eu não siga as indicações que me dá, alegro-me com a sua alegria, de andar a servir aos dias, conciliando os seus dias com os dias deles.
na verdade, eu acho que são os anjos que ma põem no caminho para amaciar o chão que piso.










o meu amor









Nega-me o raciocínio, a capacidade de aceitar o amor que não entendo. O coração não coloca condições e aceita-o como vier, nu, sem preconceitos, sem amarras, sem normas, sem amanhãs. A intuição, essa vive de mão dada com o amor que a acompanha há vidas e do qual tem uma ténue e intermitente lembrança.








domingo, 29 de outubro de 2017

distância










desta vez foi o corpo que se quis livrar da alma. costuma ser o inverso, a alma que se desenquadra da vida a que a obriga, e viaja para paragens de onde não traz memórias. mas hoje, a alma aflita a suplicar-lhe descanso, e o corpo num desatino de afazeres que a alma habitualmente rejeita. cortou a corrente da âncora que garante a distância segura, e, diria que, se é a alma que dá vida ao corpo, que carregou uma alma que não era a sua.